Venezuelanos perseguidos por Maduro fogem pela terra e pelo mar

27 de novembro de 2017.

A fuga do prefeito venezuelano de oposição Antonio Ledezma, que cruzou a fronteira com a Colômbia após burlar sua prisão domiciliar em Caracas, não é a única “de filme” já registrada na Venezuela de Nicolás Maduro.

Pulando ondas

O juiz Antonio Marval não quer dizer de onde partiu, nem quem pilotou a lancha de pescadores com a qual deixou a costa de Falcón, no noroeste venezuelano, na madrugada de 31 de julho. Mas garante que nunca se esquecerá de como começou seu exílio em meio a um agitado mar caribenho.

“Foram seis horas e meia”, conta ele à AFP. “Chegamos a Curaçao e todos estávamos muito enjoados”, acrescentou.

“Por sorte, não choveu. Deus esteve conosco, porque no dia anterior tinha chovido muito, e o mar estava muito agitado”, completou.

Marval, então vice-presidente do Tribunal Supremo de Justiça designado pelo Parlamento de maioria opositora, fugiu de Caracas com outros juízes dessa corte, depois de tomar conhecimento – segundo ele – de que “grupos da polícia política do governo” queriam sua captura.

“Saímos para prestar juramento (em 21 de julho) e nunca mais voltamos para nossa casa. Terminamos aqui em Miami”, conta, sem dar os nomes de seus colegas “para não comprometê-los”.

Ficaram escondidos por dez dias, quase incomunicáveis, por medo de serem rastreados.

Descartaram sair pela fronteira colombiana.

“Essa via já estava muito utilizada. Eu sentia que esta era a mais segura, apesar de o mar estar em seu pior momento [plena temporada de furacões]”, explicou.

Dos 33 magistrados, três foram detidos. Os demais escaparam.

Como Marval, os outros se encontram nos Estados Unidos.

“Fomos embora nos comunicando com os que estão no Chile, na Colômbia e no Panamá e começamos a organização do Tribunal Supremo no exílio”, relatou.

Três gerações

David Smolansky é um veterano em exílios: da extinta União Soviética saiu seu avô, em 1927; de Cuba, seu pai, em 1970; e agora ele, da Venezuela.

“Três gerações tiveram de fugir por ditaduras”, disse o destituído prefeito de El Hatillo, um município de Caracas, condenado a 15 meses de prisão por não impedir os bloqueios de vias durante os protestos contra o governo que deixaram 125 mortos entre abril e julho passado.

Assim que soube dessa sentença “inapelável”, passou para a clandestinidade. À noite não dormia, “porque sabia que, se viessem atrás de mim, seria nessa hora”. Ninguém em sua família sabia onde ele estava. Às vezes não jantava, mas nunca passou fome.

Por meio de um aplicativo, conseguia se conectar à Internet de modo seguro. Assim, informava-se, acompanhava esporte, lia, escrevia, rezava. Até que viajou 1.300 quilômetros em direção ao Brasil.

“Minha fuga não foi improvisada. Estudei pelo menos sete rotas de saída”, afirma este dirigente do partido de Leopoldo López, detido desde 2014.

Como o governo havia divulgado sua foto, fez a barba, pôs óculos e decidiu “atuar” como “ajudante de padre com sotaque colombiano”.

“Uma vez, um guarda me perguntou o que eu fazia perto da fronteira. ‘Sou seminarista e quero ajudar as pessoas que não têm comida’, eu disse a ele. ‘Isso é muito importante. Aqui, comida está faltando muito’, me respondeu”, contou.

Enfim, já no Brasil, viajou de táxi por quatro horas até o posto de Polícia de Boa Vista.

“Era de noite, parecia um filme. ‘Prefeito, você tem direito a refúgio’, me disseram. Fizeram um documento para eu poder voar para Brasília e me levaram para o aeroporto”, lembra.

Cinco prefeitos destituídos estão na Venezuela, dois deles presos. Os outros sete se exilaram.

“Talvez por meu histórico familiar, estou mentalmente preparado para o que for. Mas espero que seja um exílio curto pelo bem de todos”, disse, agradecendo ao “amigo como irmão” por sua ajuda em Washington.

Rota desconhecida

Quando Carlos Vecchio abraçou sua mulher em Nova York, em 5 de junho de 2014, já havia quatro meses que Caracas ficara para trás. Assim como aconteceu com López, Vecchio foi acusado de incitar a violência durante os protestos contra o governo que deixaram 43 mortos este ano. López foi preso, e Vecchio fugiu.

“Não foi fácil. Fiquei três meses escondido em vários lugares. Tive de cuidar das comunicações, entradas, saídas. Não podíamos usar telefone. Tivemos de montar um sistema de comunicação”, relembra.

Ele não quis entrar em detalhes sobre como conseguiu deixar o país para, segundo ele, não colocar em risco as pessoas que o ajudaram.

“Foi uma operação arriscada, difícil”, afirmou.

O mais duro aconteceu “em um local intermediário”, quando lhe disseram que seu passaporte era falso.

“Quase me deixaram preso lá. Antes, houve outro momento, em que temi pela minha vida”, confessa.

Mas o pior foi viver tudo isso com a mulher grávida de seu filho, Sebastián, nascido nos Estados Unidos.

“Me emocionou chegar aqui com minha mulher prestes a dar à luz, sem seguro, sem hospital, sem casa, sem um berço. E, em paralelo, tínhamos a angústia do que estava acontecendo na Venezuela, com nossos irmãos presos e perseguidos”, desabafou.

Fonte: AFP

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