Trump e Macron: uma amizade improvável que pode servir o interesse europeu

24 de abril de 2018.

 

Emmanuel Macron enfrenta um duplo risco na primeira visita de Estado de um líder europeu (e estrangeiro) a Washington. O primeiro explica-se facilmente com a natureza errática do seu anfitrião. “O mais difícil será gerir a imprevisibilidade”, diz o diário Les Echos em editorial. O segundo, a mais longo prazo, com a habitual reserva dos franceses perante a América e, sobretudo, perante o seu novo Presidente, com popularidade “zero” na Europa. Mas o Presidente francês já provou que gosta de correr riscos, que, neste caso, nem são assim tão grandes.

Com apenas um ano de mandato, ainda dispõe de uma margem de manobra assinalável para orientar a sua política externa no sentido que definiu: o regresso da França ao clube das nações mais influentes do mundo e o primeiro interlocutor da América na Europa. As circunstâncias europeias facilitaram-lhe a vida. Angela Merkel, a preferida de Barack Obama, não tem a mínima simpatia na Casa Branca e já está na recta final dos seus quatro mandatos. Donald Trump acusa-a de manter um excedente comercial “insuportável” e de querer dominar a Europa. Theresa May, que julgou poder jogar com os EUA na negociação do "Brexit", descobriu rapidamente que nada é certo do outro lado do Atlântico e que o tempo da “relação especial” não atravessa os seus melhores dias.

“Macron transformou-se no principal interlocutor europeu no que diz respeito às crises internacionais”, diz ao Politico Alexandra de Hoop Scheffer, do German Marshall Fund. A maioria dos analistas dos dois lados do Atlântico, insistem, contudo, que esta nova “relação especial” entre Trump e Macron precisa rapidamente de obter resultados. É este o teste de avaliação da sua visita de Estado a Washington, que começou segunda-feira à noite e termina quarta-feira. O simbolismo é importante mas esgota-se. Como foi constituída esta “bela amizade” ou, como prefere o Eliseu, esta facilidade de comunicação entre um e outro?

A diplomacia do aperto de mão

Trump estreou-se na Europa da pior forma possível. Foi o tempo da chamada diplomacia do aperto de mão. O Presidente americano ignorou a mão estendida de Merkel num encontro de trabalho na Casa Branca (mesmo que não tenha sido voluntário). Macron, na mesma sala, ofereceu aos jornalistas um longo e cerrado aperto de mão ao seu homólogo americano. Na sua primeira visita à NATO, em Maio do ano passado, Trump resolver ignorar o Artigo 5.º (que os aliados europeus continuam a considerar a trave mestra da sua segurança). Recuperou-o mais tarde, dizendo que era óbvio. O Presidente francês olha para o seu homólogo americano sem estados de alma, antes com um profundo pragmatismo. “Os americanos escolheram o seu Presidente. A nossa relação com os Estados Unidos é absolutamente fundamental. Precisamos dela.” Tão simples como isto e, também, com uma pequena ajuda da “grandiosidade” da França.

Macron convidou Trump para as celebrações do 14 de Julho passado. Ofereceu-lhe o espectáculo do desfile militar nos Champs Elysées (Trump quer um igual em Washington). Jantou com ele no topo da Torre Eiffel. A Casa Branca é modesta se comparada com o Palácio do Eliseu. Trump rendeu-se ao fascínio da pompa que ainda hoje envolve o Presidente da França. Resultado: em quase todos os conflitos e tensões internacionais, tem sido fácil aos dois Presidentes chegarem a um entendimento. E, no entanto, não poderiam ser mais diferentes. Macron, um intelectual que presa a filosofia, é um defensor sem mácula da democracia liberal. Foi assim que derrotou Marine Le Pen, a líder de um partido que Trump diz admirar. O Presidente francês age em função de um desígnio, seja para a França, seja para a Europa ou para a ordem internacional. Trump olha para o dia seguinte. Para ele, as relações internacionais são “transacções”. Seria sempre uma relação “improvável”. Acabou por acontecer. Respondendo à Fox News, numa entrevista transmitida domingo, Macron diz que a sua relação com Trump talvez venha do facto de serem ambos dois outsiders em cujas vitórias eleitorais ninguém acreditava.

O Irã e o comércio

Terão a partir desta terça-feira uma agenda cheia, com dois temas especialmente urgentes: o acordo nuclear com o Irã, que Trump quer rasgar, tendo dado à Europa até 12 de Maio para rever o levantamento das sanções ao regime de Teerão; a vaga proteccionista, com novas e pesadas tarifas aduaneiras a uma série de produtos e a promessa de mais. Trump deu a Bruxelas até 1 de Maio para rever a sua política comercial em relação ao aço e ao alumínio, que ainda não aplicou à produção europeia.

Judy Dempsey, do Carnegie Europe, analisa o provável método de Macron para lidar com este dossier. “Ele sabe que as grandes tiradas sobre o risco de uma escalada não impressionarão Trump”, diz. Para acrescentar que o Presidente francês pode, em vez disso, “insistir numa abordagem mais cooperativa, com o apelo a que a Europa e a América juntem forças contra a concorrência injusta da China e lutem por novas regras multilaterais nas transferências tecnológicas, na propriedade intelectual e nos investimentos estrangeiros”.

Macron precisa de um sinal positivo nestes dois dossiers. A França foi o país que mais objecções levantou ao acordo negociado em 2015 no formato dos “5+1”: os membros permanentes do Conselho de Segurança mais a Alemanha. Fontes do Eliseu reconhecem que o Irã pode estar a violar alguns dos princípios estabelecidos, nomeadamente em matéria de mísseis balísticos. Adiantam, no entanto, que Macron não vai aceitar, para já, a sua revisão. Ele próprio disse domingo que não tinha um “plano B”, ou seja, que o acordo deve ser mantido, à falta de melhor alternativa. O Irão esteve presente no seu encontro com Merkel na quinta-feira passada. A chanceler visita Trump no dia 27 de Abril, logo a seguir ao Presidente francês. A sua prioridade será o comércio.

Os remoques de Berlim

Em Berlim, há um sentimento misto em relação às duas visitas. Peter Beyer, membro da CDU que desempenha as funções de “coordenador das relações transatlânticas”, disse à Reuters que “não há tempo a perder com a etiqueta”, acrescentando que “se devia olhar para as duas visitas como uma só”. O remoque vem a seguir: “Macron terá a seu cargo as belas fotografias, desempenhando o seu papel. Merkel terá a seu cargo o trabalho pesado, desempenhando, também, o seu”.

Para Berlim, a questão comercial “é definitivamente, o problema mais premente”. De resto, a linha política de Merkel continua a ser a mesma: fará tudo para “preservar” a relação transatlântica. Outras questões vão estar em análise, desde a Síria, que juntou os EUA, a França e o Reino Unido numa missão militar destinada a destruir os depósitos de armas químicas e à qual Macron diz que é preciso dar continuidade. Quer o rápido regresso à diplomacia, num contexto de crise no Médio Oriente em que existem outros domínios de aproximação entre Paris e Washington  - por exemplo, as boas relações com a Arábia Saudita (grande comprador de armamento americano e francês), que é o pior “inimigo” regional do Irão. Vai insistir com Trump para que permaneça na Síria.

58 anos depois de De Gaulle

Emmanuel Macron, tal como Angela Merkel no segundo mandato de Obama, falará perante o Congresso americano, com as duas câmaras reunidas, o que é reservado a muito poucos líderes estrangeiros. Charles De Gaulle teve essa distinção a 25 de Abril de 1960, há exactamente 58 anos. O desafio vai ser como arrancar aplausos aos dois lados do hemiciclo, quando a crispação política em Washington continua a ser muito forte. Fazem-se apostas na imprensa que o acompanha. A defesa da democracia liberal pode ser um dos temas, tal como aconteceu no seu recente discurso no Parlamento Europeu. Nicholas Vinocur escreve no Politico, que Macron não vai deixar de lado outros dos seus temas favoritos mais facilmente consensuais: as alterações climáticas, reciprocidade no comércio internacional (Trump também insiste nessa tecla), cooperação no combate ao terrorismo e à proliferação”. Lembra, no entanto, que Macron também tem a sua dose de imprevisibilidade.

Fonte: Público

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