Para a China, o Irã é o novo “centro de tudo”

07 de agosto de 2017.

 

Quando Zuao Ru Lin, empresário de Pequim, ficou sabendo de oportunidades de negócios no sudeste do Irã, se mostrou cético, mas, mesmo assim, comprou um mapa e começou a vislumbrar a região sem fronteiras, como um enorme mercado.

“Muitos países são próximos, mesmo os da Europa. O Irã é o centro de tudo”, disse recentemente Lin, 49 anos, dirigindo seu BMW branco por uma estrada que liga Teerã à cidade iraniana de Mashhad, no leste do país.

Durante milênios, o Irã foi um grande centro comercial ligando o leste e o oeste – e esse papel será expandido, nos próximos anos, graças ao projeto chinês “Uma região, uma estrada”, que promete mais de 1 trilhão de dólares de investimentos em infraestrutura como pontes, trilhos, portos e energia em mais de 60 países na Europa, na Ásia e na África. O Irã, uma encruzilhada histórica, está estrategicamente localizado no centro desses planos.

Como peças de um amplo quebra-cabeça geopolítico, as peças da rede de infraestrutura da China estão sendo encaixadas: no leste do Irã, trabalhadores chineses modernizam uma das principais ferrovias do país, padronizando o tamanho das bitolas, melhorando o solo que suporta os trilhos e reconstruindo pontes, com o objetivo final de ligar Teerã ao Turcomenistão e ao Afeganistão.

O mesmo acontece na parte oeste do Irã, onde operários trabalham para ligar a capital à Turquia e, por fim, à Europa. Outros projetos ferroviários irão conectar Teerã a Mashhad, onde existem portos de águas profundas no sul do país.

O Irã, que durante muitos anos foi dependente de Pequim devido ao isolamento internacional imposto pelo Ocidente, por causa de seu programa nuclear, é hoje um país importante para que a China concretize suas ambições de grandeza. Outras rotas para os mercados ocidentais são mais longas e passariam pela Rússia, seu concorrente em potencial.

“O projeto chinês não seria cancelado se não participássemos, mas se eles querem economizar tempo e dinheiro, vão escolher a rota mais curta”, disse Asghar Fakhrieh-Kashan, vice-ministro iraniano de Estradas e Desenvolvimento Urbano.

E acrescentou com um sorriso: “Há também vantagens políticas no Irã, em comparação com a Rússia. Eles estão extremamente interessados em trabalhar conosco”.

Outros temem que, com o investimento chinês em grande escala e a presença crescente da China na economia iraniana, Teerã se torne mais dependente do que nunca dos chineses, que já são seu maior parceiro comercial.

A China é também um importante mercado para o petróleo iraniano, e por causa das sanções unilaterais dos EUA que ainda vigoram, intimidando os bancos globais, o país vizinho é a única fonte de grandes montantes de capital dos quais o Irã precisa para financiar projetos de infraestrutura extremamente necessários. Mas isso, aparentemente, é um risco que a liderança está preparada para assumir.

“A China está dominando o Irã, mas as autoridades não veem quaisquer desvantagens de ser dependente da China. Juntos, seguimos em frente”, disse Mehdi Taghavi, professor de Economia da Universidade de Tabataba’i Allameh em Teerã.

Não são apenas estradas e ferrovias que o Irã está recebendo da China; o país também está se tornando um destino cada vez mais popular para empresários chineses como Lin. Com algumas palavras em persa, além de empréstimos a juros baixos e incentivos fiscais dos governos chinês e iraniano, ele construiu um pequeno império desde que se mudou lá, em 2002. Suas oito fábricas fazem uma grande variedade de mercadorias vendidas no país e nos vizinhos.

“Você pode dizer que eu era ainda mais visionário do que alguns dos nossos políticos”, disse Lin com uma risada. Desde 2013, quando o plano “Uma Região, uma Estrada” foi iniciado, ele já recebeu dezenas de visitantes da China e teve várias reuniões com o embaixador chinês em Teerã. “Fui um pioneiro, e eles querem conhecer minha experiência.”

Lin estabeleceusuas fábricas ao longo do que será uma parte fundamental da rota comercial: uma ferrovia eletrificada com 925 quilômetros ligando Teerã a Mashhad, bancada por 1,6 bilhão de dólares emprestado da China. Quando concluída e conectada à rede geral, a nova linha permitirá que Lin exporte seus bens até o norte da Europa, a Polônia e a Rússia, com muito menos custos do que hoje.

“Estou esperando um aumento de 50 por cento das receitas. Claro, a economia do Irã também crescerá. A China vai se expandir. Seu poder crescerá”, prevê Lin, acendendo outro cigarro

Ele ouvia música pop chinesa em seu carro, tamborilando no volante. “A vida no Irã é boa. O futuro é bom.”

Os iranianos que veem Lin indo de carro de uma de suas fábricas para outra acenam e sorriem. Depois de aprender algumas frases básicas em persa ao longo dos anos, ele disse “Oi” e “tchau” a alguns dos seus dois mil empregados. “Os iranianos trabalham duro, mas não gosto de sua comida. Cultivamos nossas verduras e preparamos comida chinesa. Como em casa.”

Mesmo quando o chefe estava longe, os trabalhadores de suas fábricas disseram que estavam muito felizes com os chineses. “Pagam todos os meses na data certa e só contratam, nunca despedem. Se outros vierem, nossa economia vai crescer”, disse o guarda Amir Dalilian.

Quando concluída, a ligação ferroviária proposta terá quase 3.220 quilômetros, indo de Urumqi, a capital da região ocidental chinesa de Xinjiang, até Teerã. Se tudo der certo, ela vai conectar o Cazaquistão, o Quirguizistão, o Uzbequistão e o Turcomenistão, afirmou um jornal estatal chinês, o China Daily. O tamanho da bitola precisa ser ajustado e novas conexões terão que ser feitas, além da modernização dos trens.

Em um teste de 2016 feito pelos dois países, um trem foi do porto de Xangai, no leste da China, para Teerã em apenas 12 dias, o que normalmente leva 30 dias por mar. No Irã, usaram a ferrovia existente entre Teerã e Mashhad, percorrida por um trem mais lento a diesel. Quando a nova linha for inaugurada em 2021, espera-se que receba trens elétricos que podem chegar a até 200 km/h.

Fakhrieh-Kashan, falante de inglês que supervisiona as negociações da maioria dos grandes acordos internacionais com o Estado, disse que a iniciativa chinesa faria muito mais do que simplesmente fornecer um canal para o transporte de mercadorias. “Pense em infraestrutura, planejamento urbano, intercâmbio cultural, acordos comerciais, investimentos e turismo. Escolha qualquer projeto, todos estão sob este guarda-chuva.”

As relações comerciais entre esses dois países vizinhos cresceram desde que os Estados Unidos e seus aliados europeus da época começaram a pressionar o Irã por causa do programa nuclear, por volta de 2007. A China continua a ser a maior compradora do petróleo bruto iraniano, mesmo depois que as sanções ocidentais foram levantadas, em 2016, permitindo que o Irã vendesse petróleo novamente nos mercados europeus.

Empresas estatais chinesas estão ativas em todo o país, construindo rodovias, cavando minas e fazendo aço. As lojas em Teerã estão cheias de produtos chineses e suas ruas tomadas por carros da mesma nacionalidade.

Os líderes iranianos esperam que a participação do país no plano lhes permita pegar carona nas grandes ambições econômicas da China.

Fakhrieh-Kashan disse: “O plano chinês é projetado de tal forma que vai estabelecer a hegemonia da China em metade do mundo. Mesmo com o Irã colocando seus próprios interesses em primeiro lugar, estamos criando corredores a pedido dos chineses. Isso nos dará um enorme acesso a novos mercados”.

Fonte: Exame

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