SP registra primeira morte da América do Sul por fungo multirresistente

"...e pestes...” Mateus 24:7

27 de novembro de 2018.

 

Um novo estudo, feito por pesquisadores do Instituto de Medicina Tropical da USP (Universidade de São Paulo), descreveu o primeiro caso de morte por infecção por um fungo multirresistente na América do Sul, em um paciente de 17 anos, em São Paulo. O caso aconteceu no fim do ano passado, e a pesquisa foi divulgada agora no jornal científico Transplant Infectious Disease

O “poderoso” fungo é o Lomentospora prolificans, e costuma ser encontrado no solo, vasos de plantas, esgotos e na água poluída. Ele foi descrito pela primeira vez na literatura científica em 1974, e foi reconhecido como um invasor do corpo humano em 1984. A partir daí o fungo foi relacionado com diferentes síndromes infecciosas, que variam de acordo com a suscetibilidade do paciente e de como foi o contágio.

Na análise, os médicos explicam que em pessoas com o sistema imunológico saudável, o L. prolificans não costuma ser grave e pode estar ligado com infecções na pele, olhos e orelhas, geralmente aparecendo após uma cirurgia ou trauma, quando o corpo está mais fragilizado. Porém, em pacientes que têm o sistema imunológico sensível, o fungo é agressivo e, apesar de terapia antifúngica, apenas 20% dos pacientes sobrevivem.

O fungo costuma ser encontrado com mais facilidade na Austrália, Espanha e Estados Unidos, e este foi o primeiro caso registrado na América do Sul.

“É importante dizer que não é um surto. O fungo já existia no Brasil, mas ninguém havia sido infectado por ele. É encontrado com maior facilidade em algumas partes do mundo e se torna mais recorrente após alagamentos e terremotos, por aparecer em água suja”, diz João Nóbrega de Almeida Jr, pesquisador do Hospital das Clínicas e do Instituto de Medicina Tropical da USP.

O recente aumento no número de infectados pelo L. prolificans está relacionado com diferentes fatores. “Com o avanço da medicina, a população imunodeprimida tem mais qualidade de vida e vive por mais tempo, o que é ótimo, mas também faz com que aumentem os números de casos de infecção”, explica Almeida Jr.

Além disso, existe um aumento considerável do uso de antifúngicos na agricultura --para impedir que os alimentos degradem por fungos --, por exemplo, que acaba propiciando a proliferação de fungos resistentes. Fora que até as consequências das mudanças climáticas podem interferir facilitando o contágio.

Como foi o caso em SP?

O jovem infectado pelo fungo já tinha DGC (Doença Granulomatosa Crônica), uma deficiência genética e autoimune em que o paciente fica propenso a ter múltiplas infecções, tanto bacterianas quanto fúngicas.

Para amenizar o caso, o tratamento indicado é fragilizar o sistema imunológico do paciente, fazer um transplante com células saudáveis e competentes contra bactérias e fungos, e assim tentar “reiniciar” o mecanismo de defesa do corpo.

Assim, o menino fez um transplante de medula óssea halogênico --com células de outras pessoas --, mas evoluiu com rejeição. Nesse momento, enquanto estava muito fragilizado, contraiu o fungo. “Ele tinha recebido alta do transplante mas voltou a ser hospitalizado, chegou muito mal. Colheu os exames e foi para UTI, mas no dia seguinte já faleceu”, conta Almeida Jr.

A análise mostra que o garoto teve febre de 38,4°C, distensão abdominal, vômitos, insuficiência respiratória e pressão baixa. Ele faleceu no 38º dia após o transplante. “É um fungo muito grave para quem tem a imunidade comprometida, o hospedeiro tem que ter a imunidade forte para lutar contra o L. prolificans. Os pacientes mais suscetíveis, entre os imunocomprometidos, são os que passaram por transplante de medula”, afirma Almeida Jr.

Ao compilar mais de 160 casos, os pesquisadores mostraram que a taxa de mortalidade global pelo contágio em paciente imunocomprometido foi de 82,7%. O tempo mediano do transplante de medula e o aparecimento da infecção foi de 78 dias e o acometimento mais frequente dos órgãos foi no pulmão (51,7%), trato urinário (27,5%), sistema nervoso central (20,6%), coração (13,7%), pele (13,7%) e olho (10,3%).

Como o fungo é multirresistente, o tratamento não é simples. O estudo diz que “o L. prolificans é caracterizado pela resistência a todos os agentes antifúngicos disponíveis”. A estratégia adotada é combinar antifúngicos sistêmicos e tentar elevar a imunidade do paciente.

Não existem só superbactérias, também lidamos com fungos resistentes. “Não queremos que a população entre em pânico, tais fungos são muito perigosos para pacientes em estado grave. A nossa proposta é alertar centros médicos que lidam com pessoas sensíveis e tratamentos como o transplante de medula, para que o acompanhamento e diagnóstico sejam mais específicos e rápidos, ajudando em tratamento mais eficaz em caso de contágio”, conclui Almeida Jr.

Fonte: UOL

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