Temendo perseguições, cristãos indianos adotam discrição

“Então vos hão de entregar para serdes atormentados, e matar-vos-ão; e sereis odiados de todas as nações por causa do meu nome.” Mateus 24:9

21 de abril de 2015.

A estrada recém-asfaltada que atravessa o bairro em construção de Tahirpur, na periferia de Déli, poderia chamar-se a estrada do "secularismo indiano". Todas as religiões, ou quase, têm lugar aqui: uma mesquita, ainda em obras por não ter reunido todos os fundos necessários para sua construção junto de uma comunidade menos afortunada, depois templos e igrejas de tamanho idêntico apertados uns aos outros. Os edifícios são tão próximos que no momento da missa às vezes o sermão do padre se mistura aos mantras do templo hindu ao lado. "Mas Deus é único, só as vias para chegar a ele são diferentes", relativiza um paroquiano. O local era tranquilo até aquela segunda-feira, 1º de dezembro de 2014.

Ao amanhecer, a igreja de São Sebastião pegou fogo, e só depois de duas horas a polícia chegou ao local - concluindo imediatamente que foi um acidente causado por curto-circuito. "Mas havia um forte cheiro de querosene, e a polícia recusou de cara a versão de incêndio proposital", lembra-se o padre Francisco. No mesmo dia, a campanha para as eleições locais de Déli chegava ao auge, e, por uma estranha coincidência, uma ministra do governo indiano, Sadhvi Niranjan Jyoti, lançou à multidão: "Vocês têm a opção nestas eleições entre os filhos do deus Ram [hindu] e os filhos ilegítimos". Desde dezembro de 2014 seis igrejas foram vandalizadas na capital indiana. Coisa nunca vista em tão pouco tempo, como lembram os fiéis.

Da Igreja de São Sebastião só resta uma fachada em concreto encimada por uma cruz, tendo aos pés alguns tapetes enfeitados com a inscrição "Welcome" [bem-vindos]. No interior do edifício escurecido pela fuligem, o padre Francisco, vestindo uma batina branca, não parece assustado por essa decoração sinistra: "Da provação vem a luz divina. Nunca vi tanto fervor antes do incêndio".

Cerimônias de conversão

Nesses tempos perturbados, os cristãos do bairro preferem pedir ajuda a Deus em vez de à polícia. Os fiéis sugeriram aos investigadores que se orientassem para a pista dos fundamentalistas hindus, mas em vão. "Mesmo que eles tivessem cometido o crime, não o confessariam, então por que perder tempo a interrogá-los?", responderam. Um crucifixo foi pregado na parede do presbitério ao lado, e uma Virgem Maria paira sobre uma toalha dourada. Toda noite, os padres se revezam para garantir três missas, em inglês, em hindi e em malayalam, língua de Kerala. As pessoas rezam e se confessam lá fora, sentadas em cadeiras de plástico, aguardando dias melhores.

Nenhum ato de vandalismo contra as igrejas foi reivindicado, ou elucidado, mas para os cristãos de Déli a identidade dos culpados não é mistério. Os militantes fundamentalistas do Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS), que lutam pela instauração de uma nação hindu e não secular, envolveram-se em uma campanha agressiva contra as minorias religiosas. Aliás, para eles, não há minorias: apenas hindus que se ignoram. "Na Índia todo mundo é hindu, seja por sua cultura, sua nacionalidade ou seus genes", declarou em março um dos dirigentes do RSS, Dattatreya Hosabale.

Essas declarações não causariam tantos problemas se o país não fosse dirigido por um primeiro-ministro, Narendra Modi, eleito graças ao apoio do RSS e saído de suas fileiras. Desde sua eleição, a virulência do RSS não enfraquece. Madre Teresa foi atacada por ter "convertido as pessoas que ela vinha socorrer". Desde então, campanhas de conversão foram improvisadas. Na cidade de Bhopal, muçulmanos participaram de cerimônias de conversão em troca de cartões de racionamento. O RSS anunciou ter "reconvertido" mais de 2 mil cristãos e muçulmanos no estado de Madhya Pradesh, no centro do país.

Paradoxalmente, o RSS quer combater o cristianismo imitando-o. Durante longos milênios as pessoas nasciam hindus. Até que no início do século 20 os hindus, preocupados com o aumento da população católica, inventaram o ritual de conversão para fazer voltar a suas fileiras os intocáveis que haviam aderido à Igreja Católica e outras religiões para fugir do sistema de castas. Os fundamentalistas do RSS querem "reconvertê-los". Segundo eles, os muçulmanos tentariam se casar com jovens hindus para fazê-las abandonar sua religião, e os cristãos evangelizariam a Índia inteira. Essa comunidade representa apenas 2,3% da população.

Durante longos meses, o primeiro-ministro indiano enviou sinais ambíguos, reconfortando o RSS em sua missão. O governo instituiu, por exemplo, no dia de Natal, 25 de dezembro, o "Dia da Boa Governança", não deixando aos funcionários a opção de faltar nesse dia. Depois Modi finalmente saiu de seu longo silêncio em fevereiro, quando condenou as violências de que são vítimas as minorias religiosas. As investigações da polícia para identificar os culpados pelos ataques não deram em nada, entretanto.

Em janeiro, durante sua visita a Déli, Barack Obama pediu que a Índia respeite o direito de cada um a praticar sua fé, sem "perseguição, medo ou discriminação". Durante a visita de Modi à França, nos dias 10 e 11 de abril, marcada pelo anúncio da venda de 36 aviões franceses Rafale, a questão das minorias religiosas foi cuidadosamente deixada de lado nas discussões entre os dois países.

"Como cristão, sinto-me ameaçado, indesejado, reduzido a um estrangeiro em meu próprio país", alarmou-se Julio Ribeiro, um ex-chefe de polícia, muitas vezes condecorado por seus serviços à nação, em uma coluna publicada em 16 de março pelo "The Indian Express". Na véspera da Páscoa, outras autoridades eclesiásticas de Déli distribuíram folhetos com instruções muito precisas sobre a atitude discreta a ser adotada durante as procissões. Os fiéis receberam ordem de não "dançar" ou "rodar de moto" para não chamar a atenção.

Fonte: Le Monde.

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