Milícia cobra imposto de cristãos

“Então vos hão de entregar para serdes atormentados, e matar-vos-ão; e sereis odiados de todas as nações por causa do meu nome.” Mateus 24:9

20 de abril de 2015.

 

Exceto pelos últimos minutos abomináveis, onde militantes decapitam cristãos etíopes, o vídeo divulgado neste domingo (19) pelo Estado Islâmico é um interessante documento para aqueles que estudam essa violenta organização terrorista.

As imagens —quase 30 minutos— são uma longa argumentação teológica sobre a razão pela qual cristãos estão equivocados e, dessa maneira, porque é imperativo que se convertam ao islã. As cenas de barbárie estão no final do vídeo e, com algum cuidado, podem ser evitadas.

O Estado Islâmico expõe, ali, sua visão do conceito de “jizya”, uma espécie de imposto cobrado de não muçulmanos. A prática, prevista pelo Alcorão e praticada durante séculos, praticamente desapareceu no século 20.

No Alcorão, a recomendação aparece em Al-Tawbah 9:29, onde está escrito que um muçulmano deve lutar contra quem não acredita em Deus “até que eles paguem a ‘jizya’”. Não está claro o que significa o tal imposto, e sua definição surge apenas em outras tradições islâmicas posteriores.

Vista hoje, a cobrança contraria conceitos básicos da democracia. Mas, em seu contexto histórico, a “jizya” funcionava como uma espécie de garantia de que minorias religiosas poderiam manter seus rituais e estar isentas de obrigações impostas à maioria muçulmana.

No vídeo divulgado pelo Estado Islâmico, cristãos aparecem em uma sala de aula sendo doutrinados por militantes armados. Alguns deles dão depoimentos à câmera sobre como têm conseguido praticar sua religião ali, mediante o pagamento da “jizya”. As imagens são pouco convincentes, já que nos últimos meses há inúmeros relatos de perseguição e morte de cristãos, incluindo casos de crucificação.

Assim, em sintonia com a selvageria que é típica dessa organização terrorista, o vídeo se encerra com as imagens de cristãos etíopes na Líbia sendo mortos ou por tiro, ou por decapitação. As imagens são fortes e não valem a visualização.

Mas vale a reflexão: a construção da narrativa, culminando na cena grotesca da decapitação, sinaliza que o Estado Islâmico está menos interessado na teologia do que no espetáculo em si.

Afinal, a instituição da “jizya” e a perseguição religiosa são relíquias que nenhum líder religioso defenderia hoje— mas a violência contra cristãos tem um impacto garantido nos públicos interno e externo, de onde essa organização terrorista recruta fundos e recrutas.

Fonte: Orientalíssimo.

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