Cristãos crescem com medo do fanatismo religioso na Nigéria

“Então vos hão de entregar para serdes atormentados, e matar-vos-ão; e sereis odiados de todas as nações por causa do meu nome.” Mateus 24:9

07 de dezembro de 2014.

 

O horror nos chama para o norte da Nigéria. A maior parte das 276 meninas sequestradas por rebeldes do Boko Haram na primavera passada continuam desaparecidas. Em 10 de novembro, o Boko Haram bombardeou uma escola secundária em Potiskum, matando pelo menos 48 crianças. No mês passado, o grupo matou 48 vendedores de peixe próximo à fronteira com o Chade. E só na semana passada, em uma aparente retaliação, a mesquita central da cidade de Kano foi bombardeada, com cerca de 100 pessoas assassinadas.

Mas o medo e o fanatismo religioso não são novos no norte. Eles são um destino que há muito passamos a aceitar. Eles já estavam entrelaçados à trama da vida quando eu era criança aqui nos anos 80.

Meu pai chegou em Kano em uma manhã fria nos anos 1970, com o vento seco e frio, soprando para o sul, vindo do deserto. Ele tinha 23 anos e, como muitos jovens cristãos do sudeste verdejante da Nigéria, foi para o norte de maioria muçulmana depois de sobreviver à sangrenta guerra civil de 1967 a 1970. Kano era uma cidade pioneira nos negócios na época. Mas também tensa: muçulmanos e cristãos viviam lado a lado, assim como a esperança e o medo.

Em dezembro de 1980, a esperança levou um golpe terrível quando o Yan Tasine, um grupo liderado pelo pregador islâmico Maitatsine, tomou as ruas em um acesso de violência. Como o Boko Haram hoje, Maitatsine insultava a ocidentalização. Ele se autodeclarava um profeta e entrou em confronto com a polícia, mas foi apoiado por alguns clérigos muçulmanos. Meu pai se lembra de tremer de medo ao lado de outros cristãos em seu bairro, Sabon Gari, enquanto uma chacina apagou 4.000 vidas. Eventualmente, o exército da Nigéria chegou, Maitatsine foi morto, e seus seguidores fugiram para Estados vizinhos para continuar sua insurgência.

Um período de paz se seguiu em Kano. Meu pai se casou. Eu nasci. Meus pais eram protetores - demais até, eu achava. Eles quase nunca deixavam que eu me aventurasse fora de Sabon Gari ou chegasse perto de uma mesquita durante as orações de sexta-feira. Eu não conseguia entender porque, e eventualmente comecei a me rebelar.

Um dia em outubro de 1991, quando eu não tinha nem nove anos, andei na direção de uma grande mesquita perto de nossa casa. Era sexta-feira, e a rua estava fechada. De longe, pude ver os fieis em tapetes de oração na rua. Os alto-falantes da mesquita cuspiam raiva, e eu me perguntei se esta raiva era o motivo pelo qual meus pais nos alertavam para manter distância. Então, de repente, os fieis se derramaram para fora do prédio, cantando em árabe, dando socos no ar.

Eu corri para casa, confuso. Mais tarde naquela noite, disseram-nos que um cristão alemão, evangelista e doutrinador, Reinhard Bonnke, planejava visitar Kano. Na segunda-feira seguinte, a tensão nos sufocou como uma névoa espessa. A escola fechou mais cedo. Alguns colegas e professores muçulmanos nem apareceram. Os adultos conversavam em voz baixa.

Nós, crianças, saberíamos mais tarde que centenas de manifestantes muçulmanos tinham ido às ruas naquele dia, protestando contra a visita de Bonnke, dando início a um tumulto no qual cristãos foram atacados e assassinados - cerca de 200 na cidade e arredores. Então os cristãos contra-atacaram, matando muçulmanos. Por horas, fiquei desejando que os gritos que eu ouvia desaparecessem. Por dias, o ar ficou fedendo a carne queimada e corpos em decomposição nas ruas. As mesquitas estavam em ruínas, chamuscadas.

Dois dias depois que a crise começou, o exército nigeriano chegou, e na mesma semana, equipes limparam as ruas. Mas o cheiro permaneceu.

Em casa, nós não ríamos mais. Meu pai retornou à loja, minha mãe ao seu quiosque de comida e nós, as crianças, para a escola. Todos mantivemos distância das mesquitas. Mas com o tempo, nossas memórias do motim foram deixadas de lado, em um armário empoeirado. Falávamos sobre quase tudo: a chegada do harmattan, como podíamos sentir o gosto do Natal nos lábios. Na noite de Natal, brincamos com bombinhas. De manhã, vestimos roupas novas para ir à igreja. Nos empanturramos de arroz, carne de bode e Fanta. E a década começou a voar em silêncio, com pouca coisa de especial para uma criança lembrar ou lamentar.

Em 2001, já crescido, deixei Kano para viver com meu marido em Aba, uma cidade no sudeste próxima de onde meu pai cresceu. O ar aqui, eu descobri, borbulha com as gargalhadas soltas das pessoas, daquelas de contrair o abdômen, e nas primeiras semanas isso me deixou nervosa. Eu não conseguia apontar o dedo para o porquê. Não era apenas o jeito de falar barulhento dos sulistas, ou o jeito ocidental chocante com que as mulheres se vestiam. Aqui, as meninas usavam saias tão curtas que nem ousavam se curvar; a maquiagem se destacava como sinais de trânsito. E quando elas falavam com os garotos, olhavam para eles direto nos olhos.

Eu sentia falta de casa. Em minha primeira visita ao mercado, ouvi motoristas de ônibus gritar: "Mesquita! Mesquita!" Eu subi e fui até uma mesquita na frente da qual homens vendiam suya, um kebab de carne apimentada do norte. Cumprimentei o vendedor na língua Hausa do norte. Sorrindo, ele retribuiu meu cumprimento em Igbo, a língua do sudeste. Ele perguntou se eu tinha estado no norte. Eu disse que tinha acabado de sair de lá. Pedi uma suya, e ele serviu duas vezes mais do que paguei. Agradecendo, comecei a ir embora. Mas não parava de olhar fixamente para a mesquita.

Percebi então o que tinha me deixado sem âncora: a ausência do medo. Eu tinha aprendido a viver com o medo no norte. Ele tinha se tornado uma segunda pele, e perdê-lo tinha me deixado aturdida. Eu sentia falta dele e dos limites que ele estabelecia.

Liguei para meus pais e disse que não tinha certeza se eu gostava dessa nova liberdade de rir alto, de usar batom vermelho e minissaias. A maior parte do tempo, sentia falta de Kano, e das boas memórias dos interlúdios pacíficos. Minha mãe começou a visitar Aba, trazendo notícias de novos prédios ou estradas melhoradas, ou simplesmente da paz. A empresa do meu pai tinha crescido. Ele comprou um carro novo. Ela fecharia o quiosque de comida para trabalhar com ele. Ela trazia esperança nos olhos, como tínhamos antigamente.

Mas 2004 trouxe outra onda de violência. Cerca de 300 cristãos morreram, minha mãe me telefonou para contar. Ela disse que eu não deveria nunca mais voltar a Kano. E nunca mais voltei.

No norte, ouvimos dizer, o Boko Haram é o grupo que espalha o medo hoje. Mas ele levou a crueldade um passo à frente. Ele concentra sua raiva na educação ocidental. Então suas vítimas costumam ser crianças.

Na segurança do sudeste, minha mente ainda vagueia pelo norte. Eu me pergunto como as garotas sequestradas se sentem. Elas ousam ter esperança pelo resgate? Como uma garota do segundo grau passa o dia? Contando as tábuas do teto de uma cela? Ou, pior, lidando com um marido imposto a ela pelo Boko Haram?

Enquanto isso, cristãos fugiram em massa para o sul. Meus pais vivem em Onitsha, perto de mim. Meu pai diz que os cristãos de Sabon Gari desistiram depois de dois bombardeios a poucos quarteirões da casa dos meus pais.

Eles estão a salvo agora, mas marcados para sempre. Como eu e as legiões de outros cristãos que fugiram do norte da Nigéria, meu pai carrega suas memórias como um distintivo da perda.

Fonte: The New York Times.

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