Como os estrangeiros cristãos celebram o Natal no Catar, país que segue lei islâmica

"Então vos hão de entregar para serdes atormentados, e matar-vos-ão; e sereis odiados de todas as nações por causa do meu nome.” Mateus 24:9

24 de dezembro de 2018.

A expansão econômica do Catar nas últimas décadas atraiu trabalhadores e executivos de várias partes do mundo – hoje, 88% da população local é composta por estrangeiros. Apesar da abertura ao resto do mundo, o governo local não renunciou à aplicação da lei islâmica no território. Assim, os cristãos que vivem no pequeno país do Golfo Pérsico comemoram o Natal com uma série de restrições.

"Na rua a gente não vê nada. Não tem árvore de Natal, iluminação ou Papai Noel. Só do lado de dentro das casas e em alguns hotéis", contou ao G1 a brasileira Damiana Cortez, moradora do Catar há dois anos.

Símbolos cristãos, portanto, não aparecem do lado de fora das casas ou das poucas igrejas que existem no país. Manifestações religiosas podem ser interpretadas pelas autoridades islâmicas do Catar como "proselitismo", e, logo, podem dar multa ou até cadeia no país (veja mais abaixo).

Essa rigidez não parece ter se flexibilizado mesmo com a escolha do Catar como sede da Copa do Mundo de 2022 – que, por causa das altas temperaturas em junho, será jogada entre novembro e dezembro. A final, inclusive, deve ocorrer em 18 de dezembro, a uma semana do Natal, e os turistas devem esperar pouca ou nenhuma referência à festa cristã durante o evento.

Veja o que é ou não permitido aos estrangeiros na comemoração de Natal no Catar:

O que PODE:

  • Comercializar enfeites de Natal, religiosos ou não;
  • Enfeitar o lado de dentro de casas e alguns hotéis e lojas;
  • Fazer orações em locais privados;
  • Missas e cultos, desde que ocorram em locais autorizados pelo governo.

O que NÃO PODE:

  • Cultos de outras religiões que não o islamismo em locais públicos;
  • Venda livre de carne de porco, usada em ceias de alguns países;
  • Pendurar luzes de Natal nas janelas – proibição relacionada às regras de condomínio;
  • Sinos e cruzes nas poucas igrejas cristãs no país.

Igreja sem sino e cruz?

Sim, as únicas igrejas autorizadas para a comunidade cristã no Catar celebrar o Natal não têm nem campanário nem uma cruz exposta. Esses templos são restritos ao chamado Complexo Religioso de Doha. O local reúne igrejas católica romana, ortodoxa, copta e anglicana – esta, a única denominação protestante.

"Lá tem árvore de Natal e presépio montado. Houve também um evento com as crianças em que elas cantaram músicas como 'Noite feliz'", descreveu Damiana, que é católica.

Damiana e o marido, André, frequentam a Igreja Nossa Senhora do Rosário, que fica no complexo. Lá, as missas de Natal serão celebradas em 13 línguas – não há em português porque, segundo eles, parte considerável da comunidade lusófona viajou. Haverá, por exemplo, cerimônia para a população que fala tagalog, um dos idiomas das Filipinas, local de origem de cerca de 10% dos habitantes do Catar.

O Complexo Religioso em Doha é o único local legalizado para o culto público dessas vertentes do cristianismo. Fora dali, é preciso obter autorização. Manifestações individuais são permitidas, mas atividades como as dos missionários podem levar a até 10 anos de prisão.

Natal sem feriado

Evidentemente, a lei islâmica do Catar não inclui o 25 de dezembro no calendário de feriados do país. Mesmo empresas multinacionais dificilmente liberam os funcionários na data – a não ser que haja um acordo entre os funcionários e a chefia. E raramente os escritórios se enfeitam para o Natal.

Por isso, o morador do Catar que deseje celebrar a data precisa se organizar.

"Aqui, alguns estrangeiros tiram folga no Natal usando um ou dois dias das férias a que têm direito", explica a brasileira.

Com ou sem folga, a comunidade estrangeira no Catar celebra o Natal em cerimônias em casa. "A gente costuma juntar a comunidade e organizar jantares", relatou Damiana. Há, ainda, jantares e almoços natalinos oferecidos em restaurantes de hotéis – espaços onde há abertura para a organização de eventos do tipo.

Estima-se que 13,8% dos habitantes do país sigam o cristianismo, segundo dados da CIA. Considerando apenas os estrangeiros, pouco mais de 20% seguem religiões cristãs – a maioria dos imigrantes é islâmica, uma vez que a maior parte das pessoas que se mudam para o Catar vêm de outros países da Ásia.

Fonte: G1

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