Brutalidade do Estado Islâmico desafia a fé de suas vítimas

“Então vos hão de entregar para serdes atormentados, e matar-vos-ão; e sereis odiados de todas as nações por causa do meu nome.” Mateus 24:9

01 de março de 2015.

 

A decapitação do jornalista James Foley, em agosto, pelo Estado Islâmico provocou ultraje, fúria e desespero por toda parte. Mas para muitos de seus colegas católicos romanos, a morte de Foley na Síria o transformou em um símbolo da fé sob as condições mais brutais.

Um ensaísta católico o comparou a São Bartolomeu, que morreu por sua fé cristã. Outros foram atraídos pelo relato de Foley de que ele rezava o rosário durante um cativeiro anterior, na Líbia. Até o papa Francisco o descreveu como um mártir, em um telefonema de condolências para os pais de Foley, de acordo com a família.

Então veio uma virada inesperada: descobriu-se que Foley era um entre vários reféns na Síria que havia se convertido ao Islã no cativeiro, de acordo com alguns ex-reféns. O que tinha se tornado uma discussão teológica sobre a fé e a resistência heroica entre alguns católicos logo se transformou em um grupo de perguntas muito diferentes.

Qualquer conversão sob uma ameaça tão grande é uma conversão legítima? Por que um homem que falou tão abertamente sobre sua fé católica se converteu ao islamismo? Dadas as circunstâncias, não é mesmo surpreendente que ele o tenha feito?

"Como podemos entender isso?", perguntou o reverendo James Martin, padre jesuíta e editor da revista católica "America", que descreveu Foley como "um homem bom e santo" e expressou dúvidas sobre a autenticidade de sua conversão. "A resposta é que não podemos entender isso. Não podemos olhar para o que se passa na alma de alguém."

A fé religiosa costuma ser descrita como uma força que sustenta profundamente as pessoas no cativeiro, fornecendo conforto, força e esperança. A família de Kayla Mueller, que morreu em fevereiro enquanto era mantida refém pelo Estado Islâmico na Síria, divulgou recentemente uma carta que ela havia escrito em cativeiro em que dizia ter se entregado a Deus e que se sentia "ternamente embalada em queda livre".

A fé também pode ser uma força prática, dizem os especialistas, na qual a oração ou a leitura de textos religiosos pode fornecer ordem e disciplina para dias que de outra forma são definidos pelo medo ou a brutalidade, ou até mesmo pelo tédio. E prática, também, como um meio de sobrevivência: alguns ex-reféns descrevem a conversão ao islamismo como uma tática para ganhar o favor e a simpatia de seus captores.

Para muitos católicos, questões como perseguição religiosa, conversão forçada e martírio são infelizmente comuns. O papa Francisco tem censurado com frequência a perseguição de cristãos no Oriente Médio, onde militantes do Estado Islâmico, também conhecido como ISIS ou ISIL (nas siglas em inglês), ordenaram que alguns cristãos se convertessem ou enfrentassem a morte.

Em fevereiro, o papa Francisco invocou a morte de João Batista como modelo do sacrifício cristão, citando os "homens, mulheres, crianças que estão sendo perseguidos, odiados, retirados de suas casas, torturados, massacrados".

O martírio, ele acrescentou, "não é uma coisa do passado: está acontecendo agora mesmo".

Para muitos católicos, a morte de Foley pareceu infundida de nuances religiosos. Um ex-coroinha que cresceu em família católica, Foley havia se voluntariado em escolas de baixa renda quando frequentava a Universidade Marquette em Milwaukee, e depois entrou para o Teach for America. Mudando para o fotojornalismo, ele mergulhou na reportagem de guerra, trabalhando como freelancer no Iraque e Afeganistão e depois cobrindo a guerra civil da Líbia em 2011.

Ao avançar nas caóticas linhas de frente de combate, Foley e três outros jornalistas sofreram uma emboscada por parte de forças leais a Muammar Gaddafi, que então governava a Líbia. Um fotógrafo, Anton Hammerl, foi morto. Foley e os outros dois jornalistas sobreviventes foram levados como reféns e passaram 44 dias em cativeiro enquanto familiares e ex-colegas de classe de Marquette faziam campanha por sua liberdade e organizavam vigílias de oração por ele.

Quando foi solto, Foley escreveu uma carta de agradecimento para a Marquette em que também descrevia a importância de sua fé católica durante o cativeiro. Ele e um colega de cela rezavam em voz alta "para falar sobre nossas fraquezas e esperanças juntos, como se numa conversa com Deus", disse, e também fazia o rosário para se conectar com sua mãe.

"Eu rezava para que eu pudesse me comunicar com ela através de algum poder cósmico do universo", escreveu. "Comecei a fazer o rosário. Era o que minha mãe e minha avó teriam rezado."

A discussão aberta de sua espiritualidade ressurgiria depois que Foley foi feito refém novamente em 2012, na Síria, e mais tarde, após sua morte terrível em agosto passado. Nas redes sociais, muitos católicos encontraram inspiração em suas palavras anteriores e em relatos de ex-reféns que descreveram Foley como alguém que costumava dar sua comida ou cobertor para os outros, sem nunca se curvar aos captores.

Alguns comentaristas católicos sugerem que Foley pode ser um candidato para o martírio católico: um processo complicado que envolve determinar se uma pessoa foi morta por causa de sua fé. Outros o elogiaram mas questionaram se essa discussão é apropriada e se a motivação dos assassinos foi mais política do que religiosa.

Então, em outubro, um artigo do jornal "The New York Times" detalhou a brutalidade sofrida por Foley e outros no cativeiro. O texto também citou ex-reféns que disseram que Foyle e outros tinham se convertido para o islamismo. Foley foi descrito como particularmente devoto e como um leitor fervoroso do Alcorão. Em uma entrevista no início deste mês, um ex-refém, Nicolas Hénin, disse que Foley parecia o mais interessado do grupo em aprender sobre o Islã e que sua conversão pareceu genuína, ainda que Hénin não pudesse ter certeza.

"Eu não estava dentro da mente dele", disse.

Alguns católicos ficaram chocados. Mas para a mãe de Foley, Diane, a revelação não foi uma novidade. Ela disse que havia falado meses antes com Jejoen Bontinck, um ex-refém belga que é muçulmano, depois de sua libertação, e que ele havia descrito a conversão do filho dela como um ato genuíno. Então, depois que reféns franceses e espanhóis foram soltos, Diane Foley disse que ouviu uma versão um tanto diferente dos acontecimentos.

"O que os reféns me disseram foi que, ao dizer que tinha se convertido ao Islã, ele seria deixado sozinho cinco vezes por dia, sem apanhar, para que pudesse rezar", disse ela, em uma entrevista.

Como outros, Diane Foley, que é ministra de eucaristia em sua paróquia, em New Hampshire, descreveu seu filho como profundamente interessado na espiritualidade e nas religiões das outras pessoas. Mas ela ainda acredita fortemente que o filho morreu como cristão e que sua conversão foi um ato pragmático.

"Só Deus e Jim sabem o que estava se passando no coração dele", disse ela. "Acho que o Senhor usou Jim de uma forma magnífica nos últimos dois anos da vida dele. Ele deu esperança aos outros reféns."

A questão também foi levantada depois do cativeiro de Foley na Líbia. Em uma série de artigos do "Global Post", bem como durante uma aparição em Marquette, Foley descreveu como concordou em rezar com seus colegas de cela muçulmanos, presos como inimigos pelo governo de Gaddafi. Ele ficou surpreso quando, depois de ter se lavado, eles o declararam convertido.

Sua família disse que o cativeiro sírio foi muito parecido.

"Eu acredito, que da mesma forma que na Líbia, Jim 'se converteu' com o propósito de sobreviver e de estar mais perto de alguns dos outros lá, e de ter alguma disciplina", disse Michael Foley, um de seus irmãos, acrescentando: "Aposto nisso e eu analisaria bastante a 'conversão' naquela situação."

Nicole Tung, fotógrafa que trabalhou próxima a Foley na Síria, disse que a religião estava "fundo dentro dele" e que ele conhecia a Bíblia tão bem que costumava ter discussões amplas com os sírios, comparando o cristianismo com o Islã.

Mas Tung acha que Foley ficaria incomodado de ser considerado um mártir. Ela disse que o jornalismo dele estava misturado com uma profunda compaixão: ele ajudou a levantar US$ 14 mil para comprar uma ambulância para crianças em Aleppo, na Síria, enquanto ajudava a organizar um evento para levantar fundos para a família de Hammerl, o fotógrafo que foi morto na Líbia.

"Como uma pessoa humanitária e um jornalista", disse Tung, "era assim que ele de fato conduzia sua vida."

Tradutora: Eloise De Vylder

Fonte: The New York Times.

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