Opinião: Talvez esta seja a geração de judeus mais sortuda da história

23 de abril de 2018.

 

Talvez eu seja o judeu mais sortudo que já existiu. Ou, se você for judeu, talvez seja você.

Eu sou o judeu que consegue ver a inventividade judaica sendo celebrada sem remorso, o sucesso material dos judeus prosperar, a força judaica sendo reconhecida e a língua judaica rejuvenescida. Eu sou o judeu que, depois de 2.000 anos, pode testemunhar a independência política judaica. E isso vale para todos os judeus, não importa se eles vivem aqui em Israel ou se vivenciam esse sucesso em comunidades judaicas no resto do mundo.

É verdade, há certa concorrência para qual foi a geração mais sortuda de judeus: a época de Moisés, o reinado de Salomão ou o Século de Ouro na Espanha. Mas acho que consigo argumentar bem a favor dos nossos tempos.

Israel, o Estado judaico, completou 70 anos na semana passada. Por volta da época em que minha avó nasceu na Lituânia, no final da Primeira Guerra Mundial, havia cerca de 60 mil judeus vivendo na Palestina, de acordo com estudiosos. Quando minha mãe nasceu no Mandato Britânico da Palestina, pouco antes de Israel declarar sua independência, havia cerca de 600 mil. Eu nasci em 1968, quando Israel celebrou seu 20º aniversário, e durante minha infância o número de judeus neste país era de aproximadamente 3 milhões, de acordo com estatísticas do governo israelense. Sempre que a população de hoje é mencionada, tenho um momento de dissonância cognitiva: na minha mente ainda de criança continuamos sendo 3 milhões, embora meu corpo mais velho viva em uma Israel de 6 milhões de judeus.

Ainda assim, 70 anos de independência são só um pontinho na história judaica. E os judeus de Israel são muito cientes de seu papel como um pequeno elo em uma longa corrente da história judaica. Somos israelenses modernos, é claro, mas nossa consciência é de judeus antigos. Em seguidas pesquisas, há cada mais vez israelenses que optam por "judeu" no lugar de "israelense" como sua principal identidade. E com isso eles não estão se referindo a uma religião (judaísmo), mas sim a uma nação (o povo judeu).

Assim, ao celebrarmos 70 anos de Estado, nós, judeus, devemos nos prestar a uma espécie de exercício de equilíbrio. Por um lado, devemos apreciar a grande conquista de ter construído a pátria judaica em um espaço tão curto de tempo em um ambiente tão hostil. Por outro, precisamos compreender como essa conquista é pequena em comparação com a história judaica.

O profeta Jeremias descreveu o exílio na Babilônia como um evento de 70 anos. Para nós, isso é pouco. No segundo século antes de Cristo, o reino asmoneu, visto por muitos como o último período de autonomia política judaica antes da fundação de Israel, durou cerca de oito décadas antes que se tornasse cliente dos romanos. Esse reino é até hoje motivo de orgulho para os judeus, mas é também uma lição: a maioria dos israelenses planeja um futuro que se estenda muito além de meramente mais uma década de Estado.

Então ser o judeu mais sortudo que já existiu é tanto uma bênção quanto um fardo. Quanto mais nós temos, mais somos obrigados a guardar e mais medo temos de perder. Temos medo por razões psicológicas: os judeus pensaram ter sorte no passado, e muitas vezes isso terminou mal para eles (lembrem-se da Alemanha do início do século 20). Mas também temos medo devido a circunstâncias inegavelmente perigosas: existem pessoas no mundo que querem nos prejudicar, nos negar o que temos e nos destruir, desde líderes iranianos até extremistas palestinos, passando por antissemitas de todo o mundo.

E Israel enfrenta outros desafios, alguns deles familiares para muitos países: desigualdade econômica, populismo, radicalismo doméstico e imigração ilegal. Nem mesmo o judeu de sorte pode ignorar esses e outros desafios que pairam como nuvens sobre o futuro da soberania e do sucesso judaico.

Ainda assim, os israelenses em geral são esperançosos. Em uma pesquisa realizada um ano atrás, 73% dos judeus israelenses disseram estar otimistas "a respeito do futuro de Israel". Eles devem ver algo além dos desafios que os deixa tão confiantes. Uma das coisas, creio eu, deve ser essa sensação de sorte, de ter nascido em uma época tão boa.

O número 70 ocupa um lugar especial na tradição judaica. O povo de Israel constitui uma de 70 nações; Moisés teve 70 anciões ao seu lado enquanto errava pelo deserto; um comentário famoso sugere que Deus tem 70 nomes, bem como a cidade de Jerusalém. Celebrar 70 anos de independência instintivamente parece mais especial do que 60 ou 80. Isso instintivamente conecta a mente de um israelense moderno ao longo, complicado e traiçoeiro passado judaico. E instintivamente o torna ciente de que o que parece uma jornada longa, e às vezes exaustiva, é somente um passo de sorte na poeirenta estrada judaica.

*Shmuel Rosner é editor de política do "The Jewish Journal", membro sênior do Jewish People Policy Institute e colaborador do "International New York Times". 

Fonte: The New York Times

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