O fantasma antissemita de volta à Alemanha

31 de maio de 2019.

 

O que pensar quando o comissário de antissemitismo do governo alemão orienta os judeus a não usarem a quipá (solidéu usado pelos homens judeus) em locais públicos como forma de assegurar a sua própria segurança? O aumento de 20% nos incidentes relacionados a crimes de ódio antissemitas sugere um retrocesso no país europeu que foi um modelo na expiação do Holocausto, onde as escolas ensinam desde cedo às crianças que seu histórico nazista não pode ser repetido.

Sem a quipá na cabeça, judeus religiosos tornam-se invisíveis diante da população alemã e escapam de ser alvo de ataques. É uma medida profilática que contrasta com o horror da Segunda Guerra Mundial, quando os judeus diferenciavam-se dos demais alemães justamente por ostentar uma Estrela de David amarela pregada na roupa ou por um número tatuado no braço.

Como admitiu, preocupada, a chanceler Angela Merkel esta semana à rede de TV CNN, os espectros do passado devem ser enfrentados, e os alemães precisam ser mais vigilantes do que os outros. "Infelizmente, sempre houve um certo número de antissemitas entre nós”, constatou.

Esta vigilância permanente se reflete em proteção policial em todas as sinagogas e escolas judaicas do país para proteger a comunidade de 200 mil judeus -- entre os 82 milhões de alemães.

Ao alerta do comissário Felix Klein e à dura constatação de Merkel seguiu-se também uma reação rápida e exemplar. O tabloide “Bild” estampou em sua capa o desenho de um solidéu para ser recortado e usado pelos leitores em solidariedade aos judeus.

"A única resposta é que todos usaremos a quipá. A quipá pertence à Alemanha!", explicou o editor-chefe Julian Reichelt.

O comissário do antissemitismo abraçou a proposta do jornal e voltou atrás em sua advertência: desta vez, pediu a todos os alemães que ostentem o solidéu em Berlim neste sábado, quando os muçulmanos se manifestam no Al-Quds, um dia de protesto contra Israel em favor de Jerusalém.

A ascensão do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) acirra a sensação de desconforto na comunidade judaica. Seus políticos questionam a cultura de expiação no país e frequentemente relativizam o Holocausto -- “um cocô de pássaros em mais de mil anos de história alemã de sucesso”, nas palavras de Alexander Gauland, líder do partido no Bundestag.

O AfD ingressou no Parlamento alemão em 2017 como terceira força política, propagando uma plataforma contra imigrantes e muçulmanos. A chanceler Merkel costuma ser apontada como uma agente decisivo na migração do eleitorado conservador para o partido nacionalista, por ter permitido a entrada de um milhão de refugiados de países em guerra.

Este argumento, no entanto, acaba por ser raso: a extrema-direita insufla hostilidade indiscriminada tanto a judeus quanto a muçulmanos. Outro fator que acentua a natureza antissemita e alarma a comunidade judaica no país é a transposição do conflito do Oriente Médio para o território alemão. Os ataques à política de Israel se estendem aos judeus e formam um amálgama equivocado e cheio de estereótipos.

“Não há dúvida de que alguns antissemitas aprenderam a usar os termos 'Israel' ou 'sionista' como substitutos para 'judeus'. Isso deve ser dito. Mas também é verdade que críticas legítimas às ações do Estado de Israel são erroneamente postas como antissemitas”, avalia Wenzel Michalski, diretor do Human Rights Watch na Alemanha, em artigo publicado na revista “The European”.

Uma pesquisa de opinião realizada em sete países europeus e divulgada pela CNN revela dados assustadores: um em cada 20 entrevistados nunca ouviu falar do Holocausto. Um terço dos entrevistados pondera que os judeus usam o assassinato em massa de seis milhões de judeus pelo regime nazista para promover seus próprios objetivos.

Em seu quarto e último mandato à frente do governo alemão, Merkel defende que os fantasmas do passado precisam ser combatidos para que o país não retorne ao antissemitismo que engoliu a Alemanha há oito décadas: “Temos que dizer aos nossos jovens o que a história trouxe sobre nós e os outros.” Mas a atual realidade demonstra que a chama do estereótipo antissemita está acesa, enquanto a memória do Holocausto se apaga.

Fonte: G1

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