Linhas-duras de Israel têm planos ambiciosos de anexar um assentamento

05 de fevereiro de 2017.

 

Os primeiros bebês de Ma'ale Adumim, uma cidade montanhosa no subúrbio leste de Jerusalém, hoje estão na meia-idade. Um cemitério finalmente abriu no ano passado, e 40 moradores estão enterrados lá, a maior parte por causas naturais após uma vida longa e tranquila.

Em outras palavras, não tem nada de temporário a respeito deste lugar, um dos assentamentos mais próximos de Jerusalém na Cisjordânia ocupada, que Israel tomou da Jordânia 50 anos atrás. "É parte de Jerusalém", disse Sima Weiss, 58, que vive aqui há 30 anos, criou três filhos e trabalha fazendo faxina a somente 20 minutos de ônibus na própria cidade santa. "Não me sinto como uma colona".

Recentemente o mundo focou de forma mais crítica nos assentamentos de Israel em território ocupado depois da declaração feita no mês passado pela ONU --que os Estados Unidos apoiaram tacitamente-- de que eles estão matando o sonho de um Estado para os judeus e um para os palestinos.

Muitos israelenses argumentam que Ma'ale Adumim --uma cidade de 41 mil pessoas com escolas cheias, um orgulho cívico em grande parte secular e gatos vira-latas ariscos-- é um caso especial: sua proximidade com Jerusalém a colocou perto do topo da lista de assentamentos que os israelenses dizem que eles poderiam trocar por outras terras em um acordo de paz.

No entanto, Ma'ale Adumim se tornou um ponto crítico do conflito entre palestinos e israelenses. Políticos de direita, encorajados por uma administração Trump mais solidária, querem anexá-la a Israel, o que seria a primeira anexação formal de um assentamento. Defensores desse movimento argumentam que, diante de uma longa ausência de negociações, Israel não pode ficar parada, e Ma'ale Adumim provavelmente seria parte de Israel de qualquer forma.

"Claramente está na hora de uma mudança drástica", disse em uma entrevista Naftali Bennett, o ministro da Educação, que planeja introduzir a lei da anexação. "A abordagem de incremento não funcionou. Precisamos entender que é uma nova realidade. Precisamos ir com tudo, de forma audaz e rápida."

O Parlamento parece preparado para aprovar uma lei que poucos pensavam que teria qualquer chance de ser aprovada até alguns meses atrás: ela no final legalizaria casas de assentamentos construídas ilegalmente em terras palestinas particulares. Os críticos chamam isso de mais uma forma de uma anexação gradual.

Muitos palestinos concordam que este é um momento crítico. Eles temem que Ma'ale Adumim seja somente o começo da anexação de assentamentos na Cisjordânia, que hoje é lar para aproximadamente 400 mil judeus, e o fim do sonho dos dois Estados.

"Nós acreditamos em dois Estados para duas nações, mas se eles tomarem isso" --Ma'ale Adumim-- "não haverá mais dois Estados", disse Yousef Mostafa Mkhemer, presidente da Organização da Perseverança de Jerusalém, que foca em questões como locais muçulmanos sagrados, campos de refugiados e assentamentos israelenses. "Haverá um Estado chamado Israel".

Muitos palestinos e ativistas pacifistas argumentam que o limite já foi atravessado, que qualquer anexação de Ma'ale Adumim, após tantos anos, seria só um detalhe.

"Estamos vivendo em um Estado agora", disse Ziad Abu Zayyad, um advogado e escritor palestino. Zayyad, um ex-ministro palestino, disse que, diferentemente da maioria dos palestinos, ele apoiava Donald Trump como presidente, em parte porque ele sentia que sua aparente maior simpatia por Israel começaria a fornecer uma clareza para um conflito que há muito está estagnado.

"Quero ver uma mudança", ele disse. "Estou cansado".

"Ele poderia ser um grande demônio. Ele poderia ser algo bom. O que quero dizer é que ele fará uma mudança, para o bem ou para o mal".

Existem sinais, na verdade, de que o conflito aqui já está mudando, com Ma'ale Adumim perto do centro, não importa o quão tranquilos e comuns os moradores pensem ser (70% dos moradores vão a Jerusalém todos os dias para trabalhar).

Após oito anos de poucas construções, o premiê Binyamin Netanyahu acaba de conceder 100 novos prédios para Ma'ale Adumim, parte das 2.500 novas unidades habitacionais propostas em torno dos assentamentos da Cisjordânia, e outras 560 em Jerusalém Oriental. Netanyahu proclamou que esse é só o começo de uma nova leva de construções.

Menos de um mês após a resolução da ONU, o prefeito da cidade, Benny Kashriel, e outro líder de assentamento compareceram orgulhosamente à posse de Trump. Isso teria sido impensável para presidentes americanos anteriores, por medo de que isso pudesse ser interpretado como um endosso aos assentamentos, que a maior parte do mundo considera ilegais.

"É uma política diferente", disse Kashriel, prefeito há 25 anos, um dia depois de voltar de Washington. Ele acredita que a nova administração vê lugares como Ma'ale Adumim de forma mais benigna do que o presidente Barack Obama, cuja gestão bloqueou muitas construções aqui e em E1, uma área especialmente disputada mais próxima de Jerusalém.

"Nós não roubamos a terra de ninguém", ele disse. "Ela foi construída sobre morros vazios. Você consegue ver ali, o deserto, rochas e areia. Agora você tem uma cidade viva".

Boa parte da atenção do mundo externo focou em assentamentos mais religiosos mais a fundo da Cisjordânia ou em terras com títulos palestinos em conflito mais direto com palestinos. Mas aqui a vigilância tem sido intensa sobre Ma'ale Adumim.

É parcialmente simbólico: Israel não anexou terras de 1967 para além de Jerusalém Oriental e das Colinas de Golã. Opositores dessa iniciativa temem que isso seja o início de um processo que não terminará até que políticos como Bennett conquistem seus sonhos de anexar grandes faixas da Cisjordânia e deixar os palestinos com o que Netanyahu chamou recentemente de "state-minus".

E é parcialmente estratégico: o assentamento está no centro de planos consolidados de expandir Jerusalém, associando-a à cidade em si, juntamente com outros assentamentos das proximidades que também funcionam na prática como subúrbios de Jerusalém. Os críticos argumentam que uma das questões com Ma'ale Adumim é sua posição na Cisjordânia, entre o norte e o sul, que, combinada com outros planos de construção, poderia dificultar o trânsito de palestinos e ameaçar as fronteiras contíguas de qualquer futuro Estado palestino.

A área não é tão vazia quanto os partidários de Ma'ale Adumim dizem.

Eid Abu Khamis, o líder de aproximadamente 8 mil beduínos na área, diz que a intimidação por parte de Israel aumentou recentemente. Mais de suas moradias temporárias foram destruídas e o acesso à terra para suas cabras e ovelhas --eles vendem carne, iogurte e queijo para sobreviver-- foi declarado proibido.

A maioria dos beduínos vive na área E1, que tecnicamente é parte de Ma'ale Adumim e designada para cerca de 3.700 novas unidades habitacionais. A administração Obama se opunha incondicionalmente a qualquer expansão na E1, como um possível ponto sem volta para a viabilidade de um Estado palestino.

"Se os beduínos forem expulsos desta terra onde vivemos há 30 anos, será o fim das negociações com o Estado de Israel", disse Khamis.

Muitos palestinos argumentam que a anexação poderia incitar outra onda de revolta violenta. Uma bandeira palestina foi fincada recentemente em um parque em Ma'ale Adumim aqui, um sinal preocupante para residentes de que a vida menos cara e mais tranquila em seu subúrbio pode mudar.

"Eu não vim porque acreditava que deveríamos tomar toda a terra entre o Mediterrâneo e o Rio Jordão", disse um residente de 71 anos, um motorista que só quis se identificar como Max S. "Era barato. Foi por isso que eu vim. Se eu pudesse mudar meu apartamento para um apartamento em Tel Aviv, eu faria isso na hora".

As pessoas aqui têm orgulho do que construíram desde que a cidade foi fundada em 1975, com 15 judeus ortodoxos. No local há uma biblioteca, um teatro, 15 escolas e 78 jardins de infância. É em sua maior parte secular, mas tem boas relações com seus residentes mais religiosos, cerca de um quarto da população. Um parque industrial, embora seja o alvo ocasional de uma campanha mundial para boicotar produtos feitos em assentamentos, está prosperando e emprega cerca de 4 mil palestinos, com salários muito mais altos do que conseguiriam ganhar em áreas palestinas, como observa o prefeito.

Ronit Jackov, 55, que trabalha no shopping center local (que ganhará mais um piso, com cinco cinemas), disse ser a favor da anexação, em boa parte porque a cidade pode começar a crescer novamente após anos de uma suspensão nas construções.

Ela disse que nunca se mudaria de volta para Jerusalém, em parte porque a cidade se tornou religiosa e rígida demais. "Não me sinto confortável em um lugar onde as pessoas lhe dizem como viver", ela disse. "As pessoas querem viver suas vidas".

E ela tem muitas esperanças de que Trump apoie os israelenses de forma mais enfática.

"Não sou uma pessoa muito política", ela disse. "Mas estou esperando que ele cumpra o que falou, e eu vou dizer, 'Você é incrível.' Porque o mundo inteiro está contra nós. Precisamos de alguém do nosso lado".

Fonte: The New York Times.

 
 

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