Direita religiosa empreende ofensiva ideológica em Israel

09 de agosto de 2016.

 

O ministro da Educação israelense, Naftali Bennett, quer combater a dominação cultural e acadêmica da esquerda

Ex-comandante das forças especiais israelenses que se tornou empresário antes de entrar para a política, Naftali Bennett só sonhava com um cargo: o de primeiro-ministro. A pasta da Educação, que ele herdou após as eleições de março de 2015, não era o que esse belicista esperava.

Mas o líder do partido nacional religioso Lar Judaico logo entendeu quais vantagens ele poderia obter disso. É ali que se organiza a batalha ideológica para formar as novas gerações; é ali que se dá a luta contra as elites tradicionais, de esquerda, ainda dominantes nos círculos culturais e acadêmicos.

Naftali Bennett falou para o "Le Monde" sobre sua ideia de educação nacional, conciliando Deus e a internet, delineando o objetivo de "produzir bons cidadãos israelenses patriotas, que tenham as ferramentas para ter sucesso no século 21 e possam conseguir um emprego significativo".

Para isso, ele pretende enfatizar o aprendizado de matemática e ciências, para formar mais engenheiros para as novas tecnologias. Bennett também quer reduzir as desvantagens sofridas pelos árabes israelenses (20% da população) e pelos ultraortodoxos.

"Reflexo horrível"

As opiniões sobre sua ação se dividem. Algumas pessoas desconfiam de seu investimento nessas questões, outras se alarmam com a envergadura de sua ofensiva ideológica, ainda que ela se manifeste sobretudo em assuntos simbólicos, como a exclusão de uma história de amor entre uma israelense e um palestino do programa literário nos colégios.

As vendas do romance de Dorit Rabinyan estouraram imediatamente.

"Não fui consultado, descobri depois", afirma Bennett.

"Bennett está tentando aplicar os métodos do setor da alta tecnologia na educação, mas ele vê nisso uma maneira de promover seu ponto de vista político", explica uma figura importante do mundo acadêmico. "Em especial, todas suas nomeações beneficiaram pessoas do seu lado."

Uma das decisões mais comentadas foi a saída do diretor científico Ami Wilensky do ministério, em fevereiro. Ele havia elaborado, juntamente com o Exército, um indicador inédito para medir o racismo entre os jovens. Ele teve essa ideia após o assassinato de um adolescente palestino queimado vivo por extremistas judeus em julho de 2014.

"O sistema educativo não falava abertamente de racismo," declara o professor. "Olhar-se no espelho e ver um reflexo horrível da sociedade é difícil. Ninguém me disse que fui demitido por esse motivo, mas deixo a interpretação para as pessoas inteligentes".

Bennett nega essa interpretação e exalta o lançamento de um novo indicador sobre as de 25 medidas escolas, incluindo o nível de tolerância.

O ministro da Educação e da Diáspora insiste estar engajado a favor de uma melhor integração das populações desfavorecidas. Mas por trás desse suposto pragmatismo também se esboça uma abordagem mais divisora, visando promover o sionismo e o judaísmo.

"Houve uma elite ashquenaze [originários da Europa central, oriental e da Rússia]masculina, mais laica, pendente à esquerda, que foi central na fundação de nosso país", ele ressalta. 

"Mas Israel é hoje bem mais diverso. A primeira geração dessa elite, a de Ben Gurion, foi profundamente marcada pela Bíblia e nossas raízes. Mas em 50 anos, a segunda e a terceira geração se afastaram desse legado judaico. Ele se tornou monopólio dos ultraortodoxos. Quero quebrar esse monopólio." Seu lema é "Deus para todos."

O fim dos monopólios é uma iniciativa que também compõe as tensões entre asquenazes (os judeus da Europa) e os sefarditas (os da península ibérica, da bacia mediterrânea e do Oriente Médio).

Foi por isso que Bennett aplaudiu a publicação, no início de julho, de um relatório redigido pelo poeta Erez Biton visando promover, em todos os domínios, a cultura sefardita por tanto tempo desprezada.

"Em vez de contar metade da história, queremos somar a outra", declara Bennett. "Queremos ensinar aquilo que aconteceu com os judeus do Iêmen, na Pérsia, no Marrocos e na Espanha."

Nahum Barnea, editorialista do jornal "Yedioth Ahronoth", questionou essa abordagem, que segundo ele foi motivada por um desejo de "vingança". Na escola, escreveu no dia 11 de julho, "a história não é ensinada, e o pouco que é ensinado cultiva a vitimização, o provincianismo, uma mentalidade de diáspora e a xenofobia."

A publicação de um manual cívico para os estudantes, cuja elaboração durou quatro anos e mobilizou inúmeros especialistas, foi uma das controvérsias mais intensas desde a chegada de Bennett.

Muitas correções feitas foram catastróficas. "Não estive envolvido nas mudanças. O manual está tão equilibrado que às vezes é chato", alega o ministro.

Apesar dessas correções, o resultado final foi visto como uma vontade da direita de promover uma visão excludente e étnica de Israel, bem como uma interpretação estreitamente religiosa do judaísmo.

"Quero que cada criança judia conheça nossa herança e ame a Bíblia", diz Bennett, "que ela conheça o primeiro e o segundo Templo, a diáspora e o Holocausto. É claro, o programa de história e de literatura serão adaptados na parte árabe."

O tabu na "Nakba"

Cronista do jornal de esquerda "Maariv", Revital Amiran é uma dos três autores que se recusaram a assinar os capítulos dos quais ela esteve encarregada.

"Muitas passagens são dedicadas a contar a história do povo judeu desde tempos imemoriais, para justificar os direitos dos judeus sobre a Terra", ela lamenta. "Existe uma vontade de negar os direitos dos palestinos, de dar a entender que eles não têm identidade nacional."

Prova disso, segundo Amiran, seria a ausência total da palavra "Nakba", "a grande catástrofe", ou seja, a expulsão de centenas de milhares de árabes no momento da criação do Estado de Israel em 1948.

O antecessor de Bennett, Shai Piron, havia defendido a ideia de um ensino generalizado da Nakba a todos os alunos, mas agora isso está fora de cogitação.

"Injetar conteúdo anti-israelense no currículo seria autodestrutivo e imoral", acredita Bennett. "Esse termo vem de uma narrativa equivocada segundo a qual os judeus chegaram a um país que não era o deles e supostamente expulsaram à força os habitantes. Na verdade, o Estado judaico está aqui há cerca de 3.800 anos."

Fonte: Le Monde.

 

 

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