Colonos judeus da Cisjordânia se preparam para confronto com governo israelense

08 de outubro de 2016.

 

Milhares de policiais israelenses invadiram este posto avançado de colonos no alto de uma colina, na Cisjordânia ocupada, para demolir nove casas construídas ilegalmente. Os colonos e seus apoiadores atiravam blocos de concreto contra os policiais, que avançavam montados a cavalo e batiam nos manifestantes com cassetetes.

As casas foram demolidas, mas 300 pessoas ficaram feridas e as cicatrizes emocionais foram profundas. Alguns posteriormente chamaram aquilo de "pogrom". 

Isso ocorreu há uma década. Agora, os moradores de Amona estão se preparando para outra batalha contra seu próprio governo e forças de segurança, tentando impedir uma ordem da Suprema Corte israelense para que todo o posto avançado seja desmontado até 25 de dezembro.

Fora um acordo de último minuto, os organizadores esperam que até 20 mil simpatizantes se desloquem para Amona, onde 40 famílias vivem em casas pré-fabricadas e trailers, para resistir à evacuação forçada. 

"Vou me sentar de costas com os braços cruzados", disse Avichay Buaron, um advogado que se mudou para o posto avançado poucos meses após seu estabelecimento em 1996. "Milhares permanecerão sentados", ele acrescentou. "Se quiserem bater em nós, que batam." 

Um assentamento importante no empreendimento de colonização, Amona está se transformando em um teste de quão longe o governo de direita de Israel irá para evitar um confronto com seus eleitores e de quanto está comprometido com os mais de 100 postos avançados construídos sem autorização por toda a Cisjordânia. Isso está forçando o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu a equilibrar as exigências de seus parceiros na coalizão conservadora, das autoridades judiciais do Estado e de líderes mundiais, cuja maioria considera os assentamentos como sendo uma violação da lei internacional. 

O governo Obama condenou na quarta-feira o plano de Israel de construção de 98 unidades habitacionais ao leste de Shilo, um assentamento a poucos quilômetros ao norte de Amona, para acomodação das pessoas que forem retiradas do posto avançado. Em uma declaração incomumente dura, o Departamento de Estado disse que o plano, que Israel descreveu como sendo um novo bairro de Shilo, é "profundamente perturbador" e "criaria um novo assentamento significativo no território da Cisjordânia". 

Nos anos desde o confronto sangrento de 2006 em Amona, a população de colonos na Cisjordânia cresceu de cerca de 250 mil para quase 400 mil. O apoio à remoção dos assentamentos como uma rota para a paz caiu entre uma população judaica israelense cansada pelas negociações fracassadas com os palestinos, a recorrência da violência e a percepção de que a retirada da Faixa de Gaza em 2005 apenas fomentou o terrorismo. 

O governo de Netanyahu vem trabalhando para legalizar retroativamente dezenas de postos avançados de colonos situados em terras públicas. Mas Amona foi construído em terras  palestinas de propriedade privada, onde a própria Justiça de Israel insiste que o Estado não pode simplesmente aprovar a construção. 

"Isso coloca o governo em uma posição muito desconfortável", disse Yoaz Hendel, um ex-assessor de Netanyahu que atribuiu o atual impasse à inércia de sucessivos governos de direita em relação ao assunto. 

Amona fica no topo de uma estreita estrada asfaltada que serpenteia a partir de Ofra, um assentamento vibrante de cerca de 3.300 judeus religiosos perto de Ramallah, a capital administrativa palestina. O posto avançado está estrategicamente empoleirado a cerca de 900 metros acima do nível do mar, com ampla vista da região central da Cisjordânia, que os palestinos veem como o coração de seu futuro Estado. 

Chegando como um estudante de 20 e poucos anos, Buaron disse que os moradores fundadores de Amona foram informados na época que o governo queria criar um novo bairro de Ofra. "Não viemos como ladrões no meio da noite", ele insistiu. "Éramos pioneiros." 

Buaron se casou e teve sete filhos em Amona, onde seu lar tem um jardim levemente mal cuidado e uma vista de um pitoresco vilarejo palestino nas colinas além. Agora ele está liderando a campanha para salvá-la. Folheando uma encadernação de mapas, fotos e documentos  dos primeiros anos do posto avançado, Buaron apontou como o Estado forneceu ajuda para sua infraestrutura: uma linha de transmissão de energia elétrica, planos do Ministério da Habitação para preparação de 40 terrenos para casas permanentes, uma estrada. 

Se havia falhas legais na localização de Amona, ele argumentou, cabe ao Estado encontrar uma solução que permita aos seus moradores (advogados, professores, um programador de computadores e produtores rurais de framboesas, azeitonas e uvas que criam ovelhas) a permanecerem no local. 

Os colonos estão pressionando por uma legislação que force os proprietários palestinos a aceitarem uma indenização em vez da reintegração de posse, argumentando que as atuais restrições legais poderiam ser aplicadas a milhares de lares de colonos além de Amona. O ministro da Justiça descartou essa opção, mas, mesmo assim, 25 dos 30 parlamentares do Partido Likud de Netanyahu assinaram uma petição a apoiando no mês passado. 

Os líderes de Amona rejeitaram publicamente a ideia de se mudarem para o local alternativo em terras declaradas pelo governo como sendo públicas perto de Shilo. Em uma carta enviada para Netanyahu e postada no Facebook, eles escreveram: "Não temos nada a perder". 

O gabinete do primeiro-ministro se recusou a comentar sobre as opções para Amona. O ministro da Defesa linha-dura de Israel, Avigdor Lieberman, ele mesmo um colono, disse que o posto avançado não pode permanecer onde está. 

Oded Revivi, o emissário estrangeiro chefe do Conselho Yesha dos colonos, disse que ainda espera que o governo e os moradores possam "encontrar um meio-termo". 

Eles tiveram muito tempo. A decisão da Suprema Corte, dada após mais de uma década de disputas legais, foi proferida em dezembro de 2014. 

Os palestinos que entraram na Justiça agora estão assistindo das cidades e vilarejos nas colinas ao redor. 

Atallah Abd al-Hafez Hamed, 63 anos, um morador da cidade palestina de Silwad, disse que ele e seus três irmãos herdaram de seu pai uma propriedade de três hectares à beira de Amona. "Era cheia de vinhas", ele lembrou. 

A família não trabalha a terra, onde se encontra uma única casa de colono, desde os anos 80. Hamed disse que isso se deve ao único acesso ser por Ofra e, de qualquer modo, as vinhas adoeceram. Acusando os colonos de terem tacado fogo em seus campos logo após a doença das vinhas, ele disse, "em 10 minutos, tudo ficou preto". 

Se Amona for removida como ordenou a Justiça, disse Hamed, "vou replantar tudo com maças e amêndoas". 

"Mas não uvas", ele acrescentou, como se as vinhas estivessem de alguma forma amaldiçoadas. 

Buaron, o líder de Amona, disse que nada impede os palestinos de virem trabalhar sua terra, mas a esposa de Hamed, Nihad, 56 anos, expressou medo.

"Eles atirariam em nós", ela disse, lembrando que um homem desarmado de Silwad foi morto por soldados israelenses em agosto. "Eu não enviaria meus filhos."

Em uma busca febril por um acordo, o ministro da Justiça de Israel está examinando a possibilidade de arrendar para os colonos terrenos adjacentes a Amona, que parecem ter sido abandonados pelos proprietários palestinos. O curador das forças armadas israelenses das terras abandonadas na Cisjordânia colocou um anúncio em meados de agosto no jornal palestino "Al-Quds", juntamente com um mapa, pedindo que qualquer pessoa reivindicando propriedade devem submeter objeções em até 30 dias. 

O Departamento de Estado americano condenou essa abordagem, dizendo que "representaria um passo sem precedente e problemático, inconsistente com os pareceres legais israelenses anteriores e contra a antiga política israelense de não tomar terras palestinas de propriedade privada para os assentamentos israelenses". 

Michael Sfard, um advogado israelense que representou os proprietários de terras palestinos no caso de Amona, em nome da organização de direitos humanos israelense Yesh Din, disse que isso se trata de uma inversão da Ordem Militar de 1967, quando a ocupação teve início, que buscava proteger as propriedades abandonadas até o retorno de seus proprietários. 

"Se o Exército tem o dever de preservar as propriedades abandonadas", ele disse, "essa é a melhor forma em que pode pensar, as dando para pessoas que não estão dispostas a partir e que já demonstraram não ter escrúpulo em violar os direitos de propriedade de outros?" 

*Rami Nazzal, na Cisjordânia, contribuiu com reportagem.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Fonte; The New York Times.

Amona fica no topo de uma estreita estrada asfaltada que serpenteia a partir de Ofra, um assentamento vibrante de cerca de 3.300 judeus religiosos perto de Ramallah, a capital administrativa palestina. O posto avançado está estrategicamente empoleirado a cerca de 900 metros acima do nível do mar, com ampla vista da região central da Cisjordânia, que os palestinos veem como o coração de seu futuro Estado. 

Chegando como um estudante de 20 e poucos anos, Buaron disse que os moradores fundadores de Amona foram informados na época que o governo queria criar um novo bairro de Ofra. "Não viemos como ladrões no meio da noite", ele insistiu. "Éramos pioneiros." 

Buaron se casou e teve sete filhos em Amona, onde seu lar tem um jardim levemente mal cuidado e uma vista de um pitoresco vilarejo palestino nas colinas além. Agora ele está liderando a campanha para salvá-la. Folheando uma encadernação de mapas, fotos e documentos  dos primeiros anos do posto avançado, Buaron apontou como o Estado forneceu ajuda para sua infraestrutura: uma linha de transmissão de energia elétrica, planos do Ministério da Habitação para preparação de 40 terrenos para casas permanentes, uma estrada. 

Se havia falhas legais na localização de Amona, ele argumentou, cabe ao Estado encontrar uma solução que permita aos seus moradores (advogados, professores, um programador de computadores e produtores rurais de framboesas, azeitonas e uvas que criam ovelhas) a permanecerem no local. 

Os colonos estão pressionando por uma legislação que force os proprietários palestinos a aceitarem uma indenização em vez da reintegração de posse, argumentando que as atuais restrições legais poderiam ser aplicadas a milhares de lares de colonos além de Amona. O ministro da Justiça descartou essa opção, mas, mesmo assim, 25 dos 30 parlamentares do Partido Likud de Netanyahu assinaram uma petição a apoiando no mês passado. 

Os líderes de Amona rejeitaram publicamente a ideia de se mudarem para o local alternativo em terras declaradas pelo governo como sendo públicas perto de Shilo. Em uma carta enviada para Netanyahu e postada no Facebook, eles escreveram: "Não temos nada a perder". 

O gabinete do primeiro-ministro se recusou a comentar sobre as opções para Amona. O ministro da Defesa linha-dura de Israel, Avigdor Lieberman, ele mesmo um colono, disse que o posto avançado não pode permanecer onde está. 

Oded Revivi, o emissário estrangeiro chefe do Conselho Yesha dos colonos, disse que ainda espera que o governo e os moradores possam "encontrar um meio-termo". 

Eles tiveram muito tempo. A decisão da Suprema Corte, dada após mais de uma década de disputas legais, foi proferida em dezembro de 2014. 

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