Chamado à oração ou poluição sonora? Israel compra briga com alto-falantes das mesquitas

20 de novembro de 2016.

 

Seria fácil não ver a mesquita em um prédio temporário com piso de concreto e telhado corrugado. Mas é impossível não ver a constelação de seis alto-falantes sobre uma gigantesca estrutura metálica que parece a Torre Eiffel.

Cinco vezes por dia, começando de madrugada, esses alto-falantes transmitem o chamado do muezzin à oração em Lod, cidade de árabes e judeus perto do Aeroporto Internacional Ben Gurion, e aí reside mais um ponto de atrito em um país cheio deles. A expressão de fé de um grupo é a poluição sonora de outro, e o governo de Israel planeja uma repressão.

Uma proposta endossada pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e inicialmente aprovada nesta semana por seus ministros daria autorização ao governo para proibir o uso de alto-falantes por mesquitas e outras casas de culto religioso em todo o país. Para muitas pessoas dos dois lados da linha sectária em Israel, poucas questões poderiam ser mais provocativas que a de silenciar o muezzin.

"O chamado à oração é um símbolo do islã", disse Adel Elfar, o imame da mesquita de Lod, uma das várias que causam polêmica aqui. "Isto é algo que existe há 1.426 anos."

Ele disse que podia ouvir os sinos de uma igreja católica na cidade e que os moradores judeus percorrem a cidade a cada dois meses transmitindo com alto-falantes em seus veículos.

"O chamado de cada religião, se você eliminar o extremismo, não deve incomodar ninguém", acrescentou ele.

Mas incomoda. Entre os incomodados está o prefeito de Lod, Yair Revivo, que é judeu e anunciou no mês passado que a cidade transmitirá o Shema, uma importante oração que começa com "Ouve, Israel", para contrabalançar o apelo das mesquitas.

A primeira das cinco orações diárias do islamismo começa antes do amanhecer, comentou o coronel Motti Yogev, membro do Parlamento que apresentou a nova proibição. "O objetivo da lei é evitar que o sono das pessoas seja perturbado", disse ele. "Não desejamos prejudicar a oração dos muçulmanos."

A briga sobre o muezzin salienta um desafio social fundamental para Israel além de seu conflito com os palestinos que vivem em Gaza ou na Cisjordânia ocupada. Cerca de 20% dos cidadãos israelenses são árabes, e cidades como Lod, onde cerca de um terço dos quase 73 mil moradores são árabes, lutam constantemente para encontrar um equilíbrio confortável. O conflito também cresceu em Jerusalém, que está dividida de modo geral em comunidades judias e árabes.

A proibição apresentada, que foi aprovada no domingo pelos ministros de Netanyahu e enviada ao Parlamento, atraiu denúncias da Jordânia e da Autoridade Palestina.

Em um sinal da complexidade da questão, ela atraiu uma oposição surpreendente na terça-feira do ministro da Saúde ultraortodoxo de Israel, Yaakov Litzman, que temporariamente bloqueou o debate parlamentar e enviou a questão de volta aos ministros porque também poderia afetar o uso de sirenes para anunciar o início do shabbat judeu.

Ahmad Tibi, um líder dos membros árabes do Parlamento israelense, o Knesset, disse que Netanyahu estava inflamando os sentimentos antimuçulmanos.

"Se a lei do muezzin for aprovada no Knesset, peço que o público árabe em Israel se levante; convoco uma rebelião popular", disse ele a um canal de televisão libanês. "Todos os muçulmanos devem ser chamados a protestar nas mesquitas, a defender os chamados das mesquitas."

Amnon Beeri-Sulitzeanu, das Iniciativas Fundo de Abraão, uma organização sem fins lucrativos que promove a coexistência entre judeus e árabes, disse que a proposta entra em conflito com o recente impulso de Netanyahu para aumentar o investimento nas comunidades árabes, para reduzir as lacunas em oportunidades econômicas e educacionais.

"Você vê essas duas tendências conflitantes mais uma vez, o que basicamente me diz que o establishment israelense ainda não tomou uma decisão em relação a seus cidadãos árabes", disse ele. "O que queremos da minoria árabe-palestina? Queremos realmente integrá-la e incluí-la como parte integral da sociedade israelense?"

O texto da proposta de proibição dos alto-falantes nas mesquitas diz que "centenas de milhares de cidadãos" em partes de Israel "sofrem habitualmente e diariamente um ruído forte e irracional que é causado pelo chamado dos muezzin das mesquitas". Yogev disse que ela poderia ser reduzida para incluir só as horas de sono.

Netanyahu disse que está tentando equilibrar interesses conflitantes. "Israel está comprometida com a liberdade para todas as religiões, mas também é responsável por proteger os cidadãos do ruído", disse ele nesta semana.

Em Lod, cuja história remonta aos tempos de Canaã, a frustração sobre as mesquitas aumentou conforme moradores judeus vieram morar aqui depois da evacuação dos assentamentos em Gaza há dez anos.

Já existe uma lei do ruído nos livros, mas os defensores da nova legislação dizem que ela não se aplica aos muezzin. "Se alguém der uma festa de karaokê com alto-falantes à noite e você chamar a polícia, eles levarão os alto-falantes", disse Amichai Langfeld, um membro do Conselho da Cidade. "Mas se você chamar por causa da mesquita eles não vêm."

Pela lei existente, acrescentou Langfeld, a polícia deve testar o nível do chamado à oração --ou de qualquer ruído-- para determinar se ele supera o limite. A nova lei simplesmente proibiria o uso de alto-falantes.

Na mesquita de Elfar, o chamado à oração foi transmitido na terça-feira (15) às 4h45, 11h25, 14h21, 16h47 e 18h05. A tensão popular sobre a questão era fácil de detectar em uma visita ao mercado de roupas e joias a algumas quadras de distância.

Vários lojistas e vendedores judeus disseram que não se importam com os chamados nas horas diurnas, mas que o primeiro sempre os desperta. Alguns contaram que tentam abafar o barulho com cortinas ou cobertores, muitas vezes sem sucesso.

Naama Reichmann, 32, que se mudou para Lod há cerca de cinco anos, disse que o chamado às 4h45 dificulta que ela e sua filha de 2 anos durmam a noite inteira. "Não dizemos que eles não podem fazer isso, mas não tão alto", disse ela.

Chaim Koti, 80, que vendia roupas, foi mais preciso. "Eles fazem isso bem alto de propósito para nos incomodar", disse.

A poucos metros dali, um grupo de vendedores muçulmanos disse que a proposta de limitar o muezzin é um tapa na cara deles. Comentaram que o chamado à oração soa em Lod muito antes de Netanyahu chegar ao poder. "Existe ódio dos árabes", disse Muhyi Sharabati, 22. "Tem gente que é contra o islã."

Para Safiya Matweeye, 19, as autoridades deveriam se concentrar no crime e na violência, e não em coisas que podem desencorajar a oração. "É uma coisa boa, porque as pessoas vêm rezar em vez de se matarem nas ruas", disse ela. "A religião mantém as pessoas honestas."

Enquanto eles falavam, o chamado à oração da tarde soou. Ninguém olhou para cima. Após alguns minutos ele terminou, a última trombeta na guerra cultural de Israel.

Fonte: The New York Times

Comentários

Carlos em 21/11/2016 02:53:55
"A religião mantém as pessoas honestas."?? MENTIRA,,.ISLÃ ESCRAVIZA!! Quem nao obedecer sofre!
"É uma coisa boa, porque as pessoas vêm rezar em vez de se matarem nas ruas", - Pois vindo desse povo,muçulmanos,, eram melhor que se matassem um ao outro mesmo!! Se explodissem,entre eles, em coletivo!

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