Antissemitismo cresce em todo o mundo entre os extremos da direita, da esquerda e do Islã

06 de abril de 2019.

 

Suásticas pichadas em um cemitério judeu na França. Uma campanha política antissemita por parte do governo de extrema-direita da Hungria. Legisladores trabalhistas no Reino Unido abandonando seu partido citando antissemitismo arraigado. Um carro alegórico belga caricaturando judeus ortodoxos sentados sobre sacos de dinheiro.

E tudo isso apenas nos últimos meses.

O acúmulo de incidentes na Europa e nos Estados Unidos acentua como um antigo preconceito está aumentando no século 21 de formas tanto familiares quanto novas, fundindo ideologias que, fora isso, têm pouco em comum.

O aumento ocorre em um contexto de crescente incerteza econômica global, uma ênfase em raça e identidade nacional, e um aprofundamento da polarização entre a esquerda e a direita política na Europa e nos Estados Unidos em relação ao conflito entre Israel e os palestinos.

"Há um padrão ideológico que é comum", disse Günther Jikeli, um especialista em antissemitismo europeu da Universidade de Indiana. "O mundo é visto como estando em má situação, e o que o impede de se tornar um lugar melhor são os judeus."

O antissemitismo se tornou uma secção do diagrama de Venn político atual, onde a extrema-direita pode ter uma intersecção com parte da extrema-esquerda, com o radicalismo islâmico marginal na Europa, e até mesmo com políticos dos dois principais partidos políticos dos Estados Unidos.

Essa confluência é nova, dizem os especialistas, assim como o aparecimento de um governo israelense que anda com aliados de extrema-direita que elogiam Israel, ao mesmo tempo que vendem preconceito antissemita em casa.

"Isso cria uma paisagem que é muito confusa e onde as coisas são menos claras do que no passado", disse Samuel Ghiles-Meilhac, um especialista em histórica judaica do Institut d'Histoire du Temps Présent, um grupo de pesquisa financiado pelo governo na França.

Pesquisa sugere que as posturas antissemitas podem não estar mais disseminadas do que no passado, particularmente na Europa Ocidental, onde lembrar o Holocausto se tornou um ritual para a maioria dos governos.

Apesar disso, os intolerantes aparentemente se tornaram mais descarados, criando um clima que torna o antissemitismo muito mais permissível e perigoso. Nas últimas décadas, o antissemitismo ocidental tendia a seguir os contornos do conflito entre israelenses e palestinos, aumentando e diminuindo de acordo com os espasmos de violência entre os dois lados. Mas desde a guerra em Gaza em 2014, disseram pesquisadores, os incidentes antissemitas têm permanecido em níveis elevados.

"E isso é meio que preocupante, pois significa que se tornou normal agir de formas antissemitas", disse Jikeli,

Elas incluem atos de violência. Em 2018, a França relatou um aumento de 74% de incidentes antissemitas em relação ao ano anterior, com mais de 500 ataques, incluindo o assassinato de uma sobrevivente do Holocausto em sua própria casa. O presidente Emmanuel Macron o chamou de o pior nível de antissemitismo desde a Segunda Guerra Mundial.

Na Alemanha ao longo do mesmo período, os ataques antissemitas violentos (62 deles) cresceram em 60%, enquanto todos os crimes antissemitas cresceram quase 10%, para 1.646, segundo estatísticas do governo.

Por toda a Europa, onde a popularidade da extrema-direita tem sido impulsionada pela incerteza econômica e pelos temores com a imigração, quase 90% dos judeus acreditam que o antissemitismo aumentou em seus países nos últimos cinco anos, segundo pesquisas pela União Europeia.

Por décadas após a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto, o antissemitismo em grande parte ficou restrito às margens políticas, o que não é mais o caso. Ele agora é mais amplamente explorado para fins políticos, dizem os especialistas.

"Hoje, políticos populares europeus e norte-americanos, até mesmo presidentes e primeiros-ministros, não hesitam em flertar com ou abraçar mensagens e memes abertamente antissemitas", disse David Nirenberg, reitor da Escola de Divindade da Universidade de Chicago e um especialista em história judaica.

"Essa utilidade eleitoral do antissemitismo me parece algo novo, mais flexível, e, portanto, perigoso", acrescentou Nirenberg.

Os partidos de extrema-direita retratam com frequência os judeus como uma ameaça cosmopolita à identidade nacional, especialmente em regiões onde o estereótipo é usado historicamente. Na Hungria, o primeiro-ministro Viktor Orban conseguiu apresentar o bilionário judeu George Soros como sendo um instigador secreto da imigração muçulmana.

Na Polônia no mês passado, um jornal de extrema-direita vendido dentro do Parlamento publicou uma manchete de primeira página dizendo: "Como Identificar um Judeu", juntamente com uma condenação a um historiador que pesquisa a cumplicidade polonesa no Holocausto.

Na extrema-esquerda, alguns políticos associam os judeus com os fracassos do capitalismo e com conspirações para um suposto controle da economia global. Essas queixas agora são ouvidas às margens do movimento dos Coletes Amarelos na França.

O presidente americano, Donald Trump, personifica as contradições do momento. Trump corteja abertamente os nacionalistas brancos, dizendo que há "algumas pessoas boas" entre eles, mesmo enquanto marchavam ao estilo da Ku Klux Klan, faziam saudações nazistas e cantavam slogans como "os judeus não nos substituirão".

Durante sua campanha, ele atacou Hillary Clinton com uma postagem no Twitter que incluía a imagem dela, uma estrela judaica e uma pilha de dinheiro.

Ao mesmo tempo, o presidente se gaba de relações estreitas com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e oferece pleno apoio a Israel, incluindo a transferência da embaixada americana para Jerusalém, mesmo sem um progresso em relação a um acordo com os palestinos.

Não é surpreendente encontrar um ressurgimento do antissemitismo em um momento de instabilidade política e econômica prolongada, dizem historiadores e analistas, quando cidadãos de muitas tradições políticas e culturais diferentes estão em busca de explicações fáceis para injustiças repentinas e complexas.

Assim como os judeus foram bodes expiatórios prontos durante eras anteriores de ansiedade com o ritmo das mudanças sociais ou traumas econômicos globais, o mesmo acontece de novo hoje, disse Stefanie SchülerSpringorum, chefe do Centro para Pesquisa do Antissemitismo, em Berlim.

O governo israelense cada vez mais de direita liderado por Netanyahu é um ponto de divergência para vertentes diferentes do antissemitismo contemporâneo.

Figuras políticas de extrema-direita como Orban se aproximaram de Israel, enquanto os antissemitas esquerdistas o abominam. Mas ambos o fazem pela mesma razão: eles veem Israel como um país que fez o melhor que pôde para preservar seu caráter étnico e religioso em detrimento de uma minoria muçulmana.

A principal diferença é que Orban, primeiro-ministro de outro país pequeno lutando para preservar sua identidade étnica, vê isso como uma virtude, enquanto os críticos esquerdistas de Israel, como os apoiadores do líder trabalhista britânico, Jeremy Corbyn, em grande parte não.

Tanto a esquerda quanto a direita "têm a mesma imagem de Israel", disse David Hirsh, um sociólogo da Faculdade Goldsmiths, da Universidade de Londres, e um crítico de Corbyn que faz campanha contra o boicote acadêmico a Israel.

"Corbyn diz que Israel é um Estado singularmente beligerante que abusa de direitos humanos, que defende sua pureza a todo custo contra os muçulmanos", ele disse. "E suspeito que as pessoas na extrema-direita têm exatamente a mesma imagem de Israel, a de ser um país beligerante que se defende contra os muçulmanos."

Para os críticos de Netanyahu, isso também explica por que o líder do único Estado judeu do mundo encontra uma causa comum com um líder de extrema-direita como Orban, apesar das inclinações antissemitas deste.

Netanyahu e Orban compartilham uma abordagem à política doméstica: uma antipatia por vozes liberais, um desconforto com as minorias muçulmanas e uma disposição de trabalhar com a extrema-direita.

Assim como Orban na Hungria, Netanyahu apresentou uma legislação contra as organizações da sociedade civil que recebem fundos significativos do exterior. Seu governo proibiu não judeus de exercerem o direito de autodeterminação e removeu o árabe como uma língua oficial de Israel.

Recentemente, Netanyahu promoveu um pacto eleitoral com um partido racista da extrema-direita que pode ajudá-lo a se manter no poder na eleição geral que ocorrerá neste ano.

"Não acredito que Netanyahu realmente deseja um Estado de Israel sem árabes, mas acredito que ele deseja um Estado de Israel onde a posição dos judeus seja tão dominante e segura a ponto de não precisar considerar ter uma democracia liberal ao estilo ocidental, sem um caráter étnico-religioso", disse Derek Penslar, professor de história judaica da Universidade de Harvard.

"Há uma aspiração por uma etnocracia", acrescentou Penslar. "Isso não significa um lugar onde não há outros grupos étnicos, mas sim um onde apenas um grupo realmente governa."

Fonte: The New York Times

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