Representante de opositores sírios acusa Rússia e Assad de travarem negociações

"E ouvireis de guerras e de rumores de guerras;..." Mateus 24:6

23 de março de 2016.

Para Mohamed Allouche, negociador-chefe da oposição, o regime Assad está tentando ganhar tempo

Entre 14 e 24 de março está sendo realizada em Genebra a segunda rodada de negociações entre atores sírios com o apoio da ONU. Em uma entrevista ao "Le Monde", ao "The Guardian" e ao "Frankfurter Allgemeine Zeitung", Mohamed Allouche, negociador-chefe da delegação do Alto Comitê de Negociações (HCN), que representa os principais grupos da oposição síria, falou no domingo (20) sobre essas negociações.

O chefe da delegação governamental, Bashar al-Jaafari, o chamou de "terrorista", acrescentando que não haveria negociações diretas enquanto o senhor não se desculpasse por ter dito que a transição começaria "com a saída do presidente Bashar al-Assad ou sua morte". O senhor vai se desculpar?

Mohamed Allouche: Não foi exatamente o que eu disse. Eu transmiti a mensagem do povo sírio, ou seja, que a pena de morte espera Bashar al-Assad em um julgamento imparcial. Só que ele será sim levado ao tribunal. Como eu poderia me desculpar por ter enunciado um de meus objetivos? Para Bashar al-Assad, qualquer opositor é um terrorista. É normal que um de seus empregados, Al-Jaafari, pense da mesma maneira.

 

O senhor acredita que a decisão russa de retirar "a maior parte" de suas tropas da Síria pode mudar o rumo das negociações?

Allouche: A intervenção da Rússia é ilegal, 90% de suas incursões foram contra civis, enquanto ela dizia estar mirando em terroristas. Ainda no sábado, em Raqqa, ela atacou zonas civis. Somos contra o Daesh (acrônimo árabe para a organização Estado Islâmico) e o combatemos, mas o Daesh não pode ser vencido com ataques aéreos.

A retirada parcial de suas tropas é somente uma maneira de a Rússia minimizar os custos. É a prova de um fracasso. Ela anunciou que poderia se reposicionar em quatro horas, o que mostra que não se trata nem mesmo de uma retirada parcial.

A Rússia tem feito chantagem com os sírios. Ela estabeleceu um comitê, com membros da inteligência russa e síria, que negocia o encaminhamento de alimentos em troca de um cessar-fogo e uma "reconciliação", que implica que os rebeldes abandonem suas armas pesadas. Eles começaram em torno de Damasco. É um crime na visão da ONU. É um sinal de como Moscou pretende manipular as negociações e a transição política.

Na primeira rodada de negociações, o senhor havia criticado as concessões feitas pelos Estados Unidos à Rússia. Isso mudou?

Allouche: Existe uma diferença na pressão que os americanos exercem. Algumas questões foram resolvidas graças à intervenção deles. É positivo, mas pedimos por ainda mais pressão para que sejam aplicadas as medidas humanitarias. Os americanos têm o dever moral de fazer isso.

Há cada vez mais refugiados chegando à Europa, a comunidade internacional precisa atacar a raiz do problema. Uma única pessoa, Bashar al-Assad, tem levado milhões de sírios a deixarem suas casas. Eu disse ao Grupo de Apoio Internacional na Síria: "Peguem Bashar al-Assad e outros mil criminosos, e então a Síria poderá receber de volta os refugiados." Seria uma solução justa.

Será que a trégua poderá resultar em um cessar-fogo completo?

Allouche: Os grupos militares da oposição demonstraram sua boa fé e sua vontade de respeitá-lo. De nosso lado, as violações cessaram totalmente. Do outro lado, houve mais de 600 violações. Nos dois últimos dias, as forças de Bashar al-Assad realizaram ataques e lançaram barris explosivos. Por que isso não foi denunciado? O regime está preocupado com as negociações e quer descarrilar a transição política.

A delegação do regime questionou sobretudo o procedimento utilizado. Isso o decepciona? Quais são suas propostas?

Allouche: Nós apresentamos um plano, que a ONU elogiou como detalhado, positivo e moderado: formar um órgão de governo transitório com plenos poderes, bem como conselhos militares, de manutenção da ordem e judiciários que administrarão a transição. A continuidade das instituições do Estado e dos corpos eleitos será garantida. Bashar al-Assad não terá nenhum espaço nessas instituições ou no futuro da Síria.

O regime submeteu oito pontos, que nos foram transmitidos no sábado. Eles evitam a questão que está no centro da resolução 2254 da ONU: a transição política. Por exemplo, eles pedem pela liberação das Colinas de Golã, ocupadas por Israel, o que não tem nada a ver com a resolução da ONU.

O senhor é a favor de integrar o Exército de Bashar al-Assad ao futuro Exército Nacional?

Allouche: Essa questão deve passar por negociações. Queremos formar um Exército Nacional que compreenda todas as facções do povo sírio, mas as pessoas que têm sangue nas mãos não poderão fazer parte dele.

É possível que essa rodada de negociações traga tão poucos resultados a ponto de o senhor decidir não voltar a Genebra?

Allouche: Estamos em Genebra para fazer valer nossos direitos e não pouparemos esforços. Nós formulamos perguntas claras e esperamos pela resposta da ONU e do regime. Podemos avaliar o sucesso dessa rodada quando ela tiver terminado. O mundo inteiro poderá ver quem está tentando ganhar tempo, quem está entravando esse processo.

Os curdos anunciaram a criação de uma entidade federal no norte da Síria. Eles denunciam o fato de não terem sido associados às negociações…

Nós não consideramos o Partido da União Democrática (PYD) e seu braço armado, as YPG (unidades de proteção do povo), bem como o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), como representativos dos curdos. Essas organizações, sobretudo as YPG, são apoiadoras do regime. Dentro do HCN, nossos irmãos curdos estão representados de maneira justa e imparcial. Há dois curdos na equipe de negociação.

O PYD cometeu crimes contra o povo sírio, sobretudo ao lado dos russos na província de Aleppo. Eles dizem que combatem o Daesh, mas não os vimos libertar muitos vilarejos. No sábado, libertamos sete vilarejos e esperamos libertar dezenas de outros.

Fonte: Le Monde.

voltar para Guerras

fwR fsN tsY show center|left tsN fwR|show fwR center|bnull||image-wrap|news login uppercase b01 bsd|fsN fwR uppercase b01 bsd|b01 c05 bsd|login news fwR uppercase b01 bsd|tsN fwR uppercase b01 bsd|fwR uppercase|content-inner||