Qual criança você deixaria morrer? Veja a difícil rotina dos médicos na Síria

"E ouvireis de guerras e de rumores de guerras;..." Mateus 24:6

03 de agosto de 2016.

Voluntários resgatam menino de escombros após bombardeio em Aleppo em 25 de julho

Na cidade síria de Aleppo, crianças carregando compras escalam montes de entulho com cinco metros de altura a caminho de casa. Os moradores fazem compras ignorando o tremor das bombas que caem. Há prédios partidos pelo meio, com fios, camas e banheiras expostas, as famílias ainda morando lá. Quase todos os dias, os médicos têm segundos para decidir quais crianças tentarão salvar e quais deixarão morrer, enquanto os pais gritam e as explosões sacodem o chão.

Três médicos americanos disseram que essas cenas ficam se repetindo em suas mentes depois de uma visita à área insurgente de Aleppo. Os médicos deram uma nova perspectiva da vida lá, porque seus colegas sírios em Aleppo, depois de quatro anos de bombardeios pelas forças do governo, cansaram de descrever os horrores para o mundo exterior e, em certo sentido, pararam de notá-los.

"Para eles é apenas sua vida", disse o doutor Samer Attar, um dos médicos americanos da Sociedade Médica Sírio-Americana, que foi voluntário durante duas semanas em território rebelde, depois fugiu para a fronteira turca exatamente quando as forças pró-governo cortaram a última saída.

Sua missão era aliviar, e prestar respeito, a profissionais médicos exaustos; testemunhar o sofrimento dos civis em Aleppo; e pressionar o mundo a ajudá-los. Mas agora, segundo os médicos, a emergência se tornou ainda mais terrível. Desde quinta-feira (28), a zona leste da cidade foi totalmente cercada, antecipando-se um cerco radical que leva à penúria, como os que as forças do governo usaram para recuperar outras áreas rebeldes. E o intenso bombardeio continua.

Attar, que é ortopedista em Chicago, lembra que se debruçou sobre três crianças amontoadas em uma única maca para tentar a ressuscitação cardiopulmonar (RCP) em um menino de cerca de 10 anos. Ele não respirava e tinha uma das pernas estourada.

"Era o caos maciço: pacientes no chão, um homem com o pé sobre a barriga", disse Attar. O cirurgião-chefe disse:

Preciso que você se concentre neste homem que está sangrando, porque ele ainda está consciente e respira e tem uma chance maior de viver"

Por mais doloroso que fosse, disse Attar, ele ficou admirado diante da calma eficiência do médico.

"São decisões cotidianas para eles", acrescentou. "Não são ataques isolados como as coisas horríveis (os ataques em lugares como Bangladesh e Nice, na França) que estão acontecendo em todo o mundo. Em Aleppo, esses bombardeios ocorrem todos os dias."

Falando por telefone entre cirurgias no Northwestern Memorial Hospital, onde trabalha, o doutor Attar, 40, disse que tem lembranças visuais sempre que ouve as rodas de uma maca. "Parece que há um trem de carga passando pela sua cabeça", disse ele sobre a vida no leste de Aleppo. "Não tenho outra maneira de transmitir o medo e o horror, o desespero da vida lá."

Cidade prêmio

Aleppo é um prêmio crucial na guerra da Síria. Antes a maior cidade do país, com cerca de 2 milhões de habitantes, ela foi dividida desde 2012 entre o território controlado pelo governo no oeste e áreas ocupadas por rebeldes no leste.

De ambos os lados, os civis sofrem há anos ataques indiscriminados. Mas só o governo e seus aliados russos têm aviões de guerra, o que torna o bombardeio do leste mais devastador. Quatro hospitais foram atingidos no último fim de semana, e um ataque no domingo a outro, na província de Daraa, matou seis pessoas.

Organizações médicas dizem que o governo visa sistematicamente os profissionais de saúde em toda a Síria; o grupo Médicos pelos Direitos Humanos documentou a morte de mais de 700, na maioria atingidos por forças pró-governo. Grupos de oposição dizem que essa violência faz parte de uma política de terra arrasada para expulsar os moradores ao privá-los dos serviços básicos.

As autoridades sírias e seus aliados russos negam, dizendo que estão visando terroristas e que os civis podem sair da zona leste de Aleppo por corredores humanitários. No sábado (30), a mídia estatal síria relatou que dezenas de famílias tinham começado a deixar os bairros em poder dos rebeldes para abrigos no oeste da cidade, afirmação desmentida por ativistas de oposição.

Cada lado acusa o outro de impedir que os civis saiam. Alguns moradores disseram temer que o governo os prenda.

Segundo a ONU, cerca de 300 mil pessoas ainda vivem no leste, mas as estimativas variam muito. Há diversos grupos insurgentes, alguns apoiados pelos EUA. Há também combatentes da Frente Nusra, grupo ligado à Al Qaeda que mudou de nome para Frente Conquista do Levante.

O Estado Islâmico --cujos ataques em todo o mundo tiraram a atenção do conflito sírio, o que ajudou em sua ampliação-- não tem uma grande presença na cidade, mas ele detém território a nordeste de Aleppo.

Hospitais sitiados

Só três hospitais principais continuam abertos, e cinco foram desativados, segundo a sociedade médica. Todos contam com o grupo ou outras agências de ajuda para obter dinheiro para pagar funcionários e suprimentos. Todos estão cercados por sacos de areia e outras barreiras de proteção.

A maioria dos hospitais transferiu grande parte do trabalho para os porões e ampliações recém-escavadas. Há cerca de 35 médicos, sendo apenas um neurocirurgião, ainda em treinamento.

Conforme o cerco se apertar, as condições vão piorar. Os suprimentos médicos poderão acabar em um mês. A desnutrição poderá enfraquecer as pessoas ainda mais. Enquanto a estrada para a Turquia sofre ataques regulares, as pessoas morrem porque não há médicos suficientes para tratá-las, faltam equipamentos vitais e suprimentos, e os doentes e feridos não podem ser evacuados em segurança.

"É muito difícil imaginar como os médicos em Aleppo aguentam isso, dia após dia, minuto após minuto", disse o doutor Zaher Sahloul, outro voluntário visitante, que dirige programas de ajuda global para a sociedade médica.

O doutor Mohammadal Ahmad, 50, um radiologista sírio em Aleppo, transferiu sua família para a segurança na Turquia. Ele disse que recentemente viu dois meninos e três meninas serem retirados dos destroços de um prédio; os meninos sobreviveram, mas as meninas não. Ele viu os pais abraçando seus corpos.

"Às vezes você não consegue evitar o choro", disse ele. "Mas se eu olhar à minha frente não há outro caminho. Deus me deu esta missão."

Fonte: The New York Times.

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