Por que a Rússia anunciou de surpresa a retirada de tropas da Síria?

"E ouvireis de guerras e de rumores de guerras;..." Mateus 24:6

15 de março de 2016.

Forças russas se preparam para deixar a Síria após o presidente Vladimir Putin anunciar nesta segunda-feira (14) a retirada militar do país.

O ministro da Defesa russo, Sergey Shoigu, deu a ordem para a retirada e aeronaves estão sendo preparadas para voos de longa distância de volta à Rússia.

Com cautela, autoridades ocidentais saudaram a medida, dizendo que isso poderia pressionar a Síria a se engajar em conversas diplomáticas para restabelecer a paz no país, dominado há cinco anos por uma guerra civil.

Uma nova rodada de negociações neste sentido entra hoje no segundo dia. Enquanto isso, uma comissão da ONU (Organização das Nações Unidas) irá apresentar mais à frente um relatório sobre crimes de guerra no país.

A Rússia é um aliado chave do presidente da Síria, Bashar al-Assad, e autoridades sírias procuraram rejeitar especulações sobre problemas entre os países, afirmando que a medida se deu em comum acordo.

O governo de Putin sempre insistiu em que a campanha militar teve como alvo apenas grupos terroristas, mas potências ocidentais disseram que os ataques visaram opositores de Assad.

Habilidade russa

Para o jornalista da BBC Jonathan Marcus, correspondente para assuntos se segurança, o surpreendente anúncio de Putin é uma "nova amostra de habilidade diplomática" do presidente russo.

Para ele, a intervenção russa "contra o terrorismo" na Síria atingiu seus principais objetivos: consolidar a posição de Assad, facilitar que suas forças recuperassem áreas estratégicas do país e assegurar que o presidente sírio continue sendo um fator chave em qualquer arranjo futuro.

Shoigu, o ministro russo da Defesa, disse que a campanha militar teve mais de 9 mil missões aéreas de combate, destruiu 209 instalações de produção de petróleo, ajudou as tropas sírias a retomar 400 localidades e o controle de mais de 10 mil km quadrados de território.

"Creio que a missão estabelecida pelo Ministério da Defesa e pelas Forças Armadas russas tenha sido cumprida" disse Putin nesta segunda.

A decisão veio no dia em que negociações de paz eram retomadas em Genebra, e em meio a um cessar-fogo vigente desde 27 de fevereiro.

A Rússia diz, contudo, que manterá a presença militar na Síria, com uma base naval e outra aérea.

"A Rússia tem cerca de 30 aviões de combate na Síria e um contingente em terra para protegê-los, além de um número não especificado de conselheiros e forças especiais em solo operando com o Exército sírio", afirmou Jonathan Marcus.

Divergências

Putin e o presidente dos EUA, Barack Obama, conversaram por telefone nesta segunda. "Ambos defenderam a intensificação do processo por uma solução pacífica", informou o Kremlin.

Mas os países ainda divergem em um ponto chave, segundo Marcus. "Para o Ocidente não há solução militar na Síria, e Moscou discorda."

Washington não vislumbra a manutenção de Assad no poder com o uma solução para o conflito, e voltou a pedir uma "transição política" no país.

Mas se no momento há um vencedor nesse xadrez geopolítico, esse parece ser Moscou.

"Rússia tomou partido de uma parte com poder militar considerável e aliados razoavelmente efetivos, como os combatentes do (grupo xiita libanês) Hezbollah e milícias recrutadas pelo Irã e guiadas por comandantes iranianos", disse Marcus.

"E a Rússia utilizou recursos suficientes para marcar a diferença. Levou um pouco de tempo, mas os resultados no terreno agora são claros", completou.

Sarah Rainsford, correspondente da BBC em Moscou, diz que a retirada parcial russa da Síria pode também ter relação com o alto custo das operações militares, em um momento em que a receita de Msocou está em baixa pela queda nos preços do petróleo.

Pode também, diz a correspondente, ser uma tentativa de aliviar o isolamento que o país sofre na comunidade internacional desde o início das operações.

Cautela na oposição

A oposição síria recebeu o anúncio de Putin com cautela.

"Se a retirada for feita com seriedade, dará um impulso às negociações de paz", disse Salim al Muslat, porta-voz do Comitê Supremo para as Negociações, organização que agrupa forças de oposição.

Os EUA também manifestaram prudência. "Teremos que ver quais são exatamente as intenções da Rússia", disse o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest.

A ofensiva militar teve custos para a Rússia, como o abate de um avião comercial, mas o êxito de Putin e Assad parece claro e já ameaça reduzir o país a dois enclaves: uma zona costeira dominada pelo governo sírio e o restante em poder do Estado Islâmico.

O anúncio da Rússia poderia significar, efetivamente, um respaldo às conversas diplomáticas.

A atual rodada de negociações é o "momento da verdade", afirmou nesta segunda o enviado especial da ONU à Síria, Staffan de Mistura.

Não há plano B e a única alternativa a um acordo seria a retomada da guerra, disse Mistura.

Fonte: BBC.

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