Por que os EUA estão sempre em guerra no Oriente Médio?

"E ouvireis de guerras e de rumores de guerras;..." Mateus 24:6

21 de maio de 2016.

Afeganistão, Iraque, Síria... uma guerra sem fim. Em termos de política externa, a campanha eleitoral americana tem sido monotemática, girando em torno de uma questão: por que os Estados Unidos estão sempre fazendo guerra no Grande Oriente Médio?

Paradoxalmente, os Estados Unidos gostariam muito de se retirar de lá. O historiador Andrew J. Bacevich, ex-coronel no Vietnã e formado na West Point, fez as contas. Em seu último livro, "America's War for the Greater Middle East" ("A guerra dos EUA pelo Grande Oriente Médio", Ed. Penguin Random House), ele observa: "Do final da Segunda Guerra Mundial até 1980, praticamente nenhum soldado americano foi morto em operação nessa região."

Em jargão do Pentágono, o Grande Oriente Médio se estende do Marrocos até o Afeganistão. Desde os anos 1980, ou ainda, dos anos 1990, "nenhum soldado americano, praticamente, foi morto em outro lugar que não o Grande Oriente Médio", diz Bacevich.

A campanha não se preocupa muito com as complexidades do Oriente Médio. Necessitando de uma comunicação midiática, ela simplificou a equação, que levou a uma única e premente dúvida: por que ainda não acabamos com o Estado Islâmico (EI)? Se os Estados Unidos realmente estiverem "em guerra" contra o EI, precisam se empenhar. Donald Trump, certo de que será o candidato republicano à Presidência dos EUA, condena a timidez do engajamento de Barack Obama.

Trump não quer enviar tropas em solo. Mas ele promete levar poucas semanas para pulverizar com bombas os dois redutos do EI: Raqqa, na Síria, e Mosul, no Iraque. Ele prefere ataques aéreos maciços, e azar se a causa do radicalismo sunita for reforçada pelas dezenas de milhares de vítimas civis que resultariam desses ataques: Trump não entra nesse tipo de "detalhe".

Entre os democratas, Bernie Sanders e Hillary Clinton são mais prudentes. A ex-secretária de Estado parece ser mais intervencionista que o presidente Obama. Ela era favorável a grandes entregas de armas aos mais moderados dos rebeldes sírios e defendia a ideia de uma zona de proteção aérea americana ao longo da fronteira turca. Implicitamente, Hillary flerta com uma crítica contra a política de Obama muito popular entre os grandes líderes em questões internacionais de Washington: ele teria um excesso de reticência em relação ao emprego de força no Oriente Médio, ainda que ninguém queira uma mobilização em solo.

O gabinete do presidente ressalta que o "establishment" da política externa se esqueceu rápido das lições da desastrosa intervenção no Iraque em 2003. A intervenção armada americana abriu um capítulo de caos sangrento que devastou ainda mais a região e alimentou a sanha jihadista. A ferramenta militar não é o instrumento mais eficiente para se garantir a defesa dos interesses americanos no Oriente Médio, o que explica a prudência da abordagem obamiana, essa espécie de "nem-nem": nem retirada total, nem engajamento militar maciço. A consequência é essa impressão de uma situação bélica permanente, de batalha nunca realmente perdida, mas tampouco nunca realmente ganha.

Para explicar isso, Bacevich volta para o ano de 1979, um ponto de virada na história das relações entre os Estados Unidos e o Grande Oriente Médio. A derrubada do xá do Irã, aliado dos Estados Unidos, marcou a primeira vitória de uma revolução conduzida em nome do islã. Para combater a intervenção soviética no Afeganistão, os Estados Unidos se apoiaram no radicalismo islamita, como maneira de garantir sua promoção.

A obsessão com Saddam Hussein

Outra data importante foi o ano de 1991. Os Estados Unidos expulsaram o Iraque do Kuait. Foi ao mesmo tempo o fim da "síndrome vietnamita", ou seja, a confiança recuperada na força militar e o início da obsessão com Saddam Hussein. Esta veio a levar George W. Bush à trágica intervenção de 2003, após os atentados de 2001. Mas essa maneira de se deixar obcecar pela figura de um ditador também foi responsável pelos erros da política americana no Oriente Médio.

Ela mascara a complexidade das situações locais. A demonização de Saddam Hussein pelos neoconservadores resultou em uma fórmula mágica: as coisas vão mal porque há um ditador; as coisas vão melhorar quando ele for deposto. A retórica da "mudança de regime" justifica a intervenção armada.

Tudo isso é contado com maestria pelo irlandês Patrick Cockburn em seu novo livro, "Chaos and Caliphate: Jihadis and the West in the Struggle for the Middle East" ("O caos e o califado: jihadistas e ocidentais na briga pelo Oriente Médio", Ed. OR Books).

Cockburn, que teve grandes trechos de seu livro publicados pelo jornal online "The Independent", é um dos melhores jornalistas sobre a região. Com sua prosa límpida, suas reportagens intrépidas e suas análises incisivas, ele incrimina essa maneira ocidental de reduzir a infelicidade de um país ao tirano que o dirige, por mais monstruosos que possam ser um Saddam Hussein no Iraque ou um Bashar al-Assad na Síria.

Essa é também a fonte das desilusões ocidentais quanto às "primaveras árabes", ele acredita. Muitas vezes "havia essa convicção, também compartilhada pelos opositores desses países, mantida pelas potências estrangeiras ocidentais e pela mídia", de que todas as dificuldades de um país "podiam ser atribuídas à monstruosidade de um regime".

Mas, ainda que os regimes não ajudem em nada, as patologias são mais profundas do que isso, ancoradas em histórias turbulentas, exacerbadas por divergências étnicas e religiosas. São males que demoram para mudar, para os quais a intervenção militar externa dificilmente pode ser uma resposta. "Em poucas semanas", o comandante Trump talvez arrase duas cidades no vale do Eufrates. Mas o jihadismo sobreviverá ao EI e também ao megalômano nova-iorquino.

Fonte: Le Monde.

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