Por que a guerra na Síria, após 400 mil mortes, está piorando?

"E ouvireis de guerras e de rumores de guerras;..." Mateus 24:6

30 de agosto de 2016.

Há um fato básico sobre a guerra civil na Síria que nunca parece mudar: ela frustra qualquer tentativa de solução.

Apesar de muitas ofensivas, conferências de paz e intervenções estrangeiras, incluindo nesta semana a incursão turca a uma cidade de fronteira, o único ponteiro que parece se mover é o da medida de sofrimento dos sírios, que apenas piora.

Pesquisas acadêmicas sobre guerras civis, vistas em conjunto, revelam o motivo. Esse conflito dura em média cerca de uma década, o dobro do que o da Síria até o momento. Mas há um punhado de fatores que podem torná-lo mais longo, mais violento e difícil de parar. Virtualmente todos estão presentes na Síria.

Muitos deles derivam de intervenções estrangeiras que visam acabar com a guerra, mas em vez disso a deixam entrincheirada em um impasse, no qual a violência reforça a si mesma e os caminhos normais para a paz são todos fechados. O fato de por trás haver uma batalha entre múltiplas partes, em vez de apenas dois lados, também contribui contra uma resolução.

Quando perguntada sobre que outros conflitos ao longo da história apresentavam uma dinâmica semelhante, Barbara F. Walter, uma professora da Universidade de San Diego e uma importante especialista em guerras civis, fez uma pausa, considerou algumas possibilidades e então desistiu. Não havia nenhum.

"Este é um caso muito, muito difícil", ela disse.

Um conflito imune à exaustão

A maioria das guerras civis termina quando um lado perde. Ou ele é derrotado militarmente, ou esgota suas armas ou perde apoio popular e precisa se render. Cerca de um quarto das guerras civis termina em um acordo de paz, com frequência por ambos os lados estarem esgotados.

Isso poderia ter acontecido na Síria: os combatentes principais, o governo e os insurgentes que começaram a combatê-lo em 2011, estão enfraquecidos e, por conta própria, não conseguiriam sustentar o combate por muito tempo.

Mas não estão sozinhos. Cada lado é apoiado por poderes estrangeiros, incluindo os Estados Unidos, Rússia, Irã, Arábia Saudita e agora a Turquia, cujas intervenções suspenderam as leis habituais da natureza. Forças que normalmente desacelerariam a inércia do conflito estão ausentes, permitindo que persista por mais tempo do que o habitual.

Esse é o motivo, segundo James D. Fearon, um professor de Stanford que estuda guerras civis, para múltiplos estudos terem apontado que "quando há intervenção externa em prol de ambos os lados, a duração é significativamente maior".

As forças do governo e as forças rebeldes são abastecidas de fora, o que significa que suas armas nunca se esgotam. Elas também contam com apoio político de governos estrangeiros que não sentem diretamente os custos da guerra, como no caso dos habitantes locais, que poderiam pressionar por uma paz para acabar com sua dor. Esses custos materiais e humanos são fáceis de serem arcados por poderes estrangeiros muito mais ricos.

As batalhas em solo também incluem as milícias curdas, que contam com algum apoio estrangeiro, e o Estado Islâmico, que não. Mas as forças pró-governo e de oposição estão focadas uma na outra, o que as transforma e aos seus apoiadores na dinâmica central da guerra.

Ninguém pode perder, ninguém pode vencer

Os apoiadores estrangeiros não apenas removem os mecanismos para a paz. Eles introduzem mecanismos que reforçam a si mesmos, resultando em um impasse cada vez mais forte.

Sempre que um lado perde terreno, seus apoiadores estrangeiros aumentam seu envolvimento, enviando suprimentos ou apoio aéreo para impedir a derrota de sua parte favorita. Então aquele lado começa a vencer, o que tende a provocar os apoiadores do outro lado a também aumentarem seu apoio. Cada escalada é um pouco mais forte do que a anterior, acelerando a matança sem mudar o equilíbrio fundamental da guerra.

Essa tem sido a história na Síria quase desde o início. No final de 2012, quando os militares sírios sofriam derrotas, o Irã interveio em sua ajuda. No início de 2013, as forças do governo se recuperaram, de modo que os países do Golfo aumentaram o apoio aos rebeldes. Várias rodadas depois, os Estados Unidos e a Rússia se juntaram ao conflito.

Esses poderes estrangeiros são fortes o bastante para virtualmente compensar qualquer escalada. Nenhum pode forçar uma vitória direta, porque o outro lado sempre pode responder, de modo que o ciclo apenas continua. Até mesmo flutuações naturais nas linhas de frente podem provocar outra rodada.

Ao longo do último ano, por exemplo, os Estados Unidos apoiaram os curdos sírios contra o Estado Islâmico. O fortalecimento dos curdos alarmou a Turquia, que está combatendo sua própria insurreição curda. Nesta semana, a Turquia interveio para tomar a cidade síria de Jarabulus, apoiada pelos Estados Unidos, em parte para impedir que os curdos a tomassem. (Os Estados Unidos também apoiaram esse esforço, como se as alianças já não fossem complicadas o bastante.)

"Tendemos a pensar que não pode piorar", disse Walter. "Porém pode ficar ainda pior."

A estrutura da guerra encoraja as atrocidades

A Síria tem visto repetidos assassinatos em massa indiscriminados por parte de todos os lados. Isso não é movido apenas por malícia, mas por algo mais poderoso: incentivos estruturais.

Na maioria das guerras civis, as forças combatentes dependem de apoio popular para seu sucesso. Esse "terreno humano", como o chamam os especialistas em contrainsurreição, fornece a todos os lados incentivo para proteger os civis e minimizar as atrocidades, o que com frequência prova ser decisivo.

Guerras como a da Síria, na qual o governo e a oposição dependem principalmente de apoio estrangeiro, encorajam precisamente o comportamento oposto, segundo pesquisa de Reed M. Wood, da Universidade Estadual do Arizona, Jacob D. Kathman, da Universidade Estadual de Nova York, em Buffalo, e Stephen E. Gent, da Universidade da Carolina do Norte.

Como os combatentes sírios dependem de apoio estrangeiro, em vez do apoio da população local, eles têm pouco incentivo para proteger os civis. Na verdade, essa dinâmica transforma a população local em uma ameaça potencial em vez de um recurso necessário.

Os incentivos os levam a "utilizar a violência coletiva e o terror para moldar os comportamentos da população", descobriram os pesquisadores. As imagens que vemos de mães e crianças mortas podem representar não espectadores indefesos, mas sim alvos deliberados, mortos não por loucura ou crueldade, mas por um cálculo racional frio.

Ataques severos e indiscriminados contra civis causam poucos riscos de curto prazo e benefícios substanciais: disrupção do controle ou apoio local ao inimigo, a pacificação de ameaças potenciais, pilhagem de recursos e outros.

As forças pró-governo realizaram até o momento a maioria dos ataques contra civis, mas os combatentes da oposição também realizaram alguns. Entre os insurgentes, grupos individuais que se recusam a atacar civis acabaram em desvantagem em comparação aos grupos que atacam.

Medo da derrota entrincheira um status quo terrível

O impasse também é movido pela incerteza. Ninguém sabe ao certo como seria uma Síria pós-guerra ou como chegar lá, mas todos podem imagina uma situação pior. Isso cria uma predisposição ao status quo, no qual os combatentes estão mais preocupados em preservar o que têm, em vez de correr o risco de buscar suas metas maiores.

Como colocou Fearon, de Stanford: "É mais importante impedir que o outro lado vença do que você mesmo vencer".

Cada poder estrangeiro entende que não pode vencer, mas teme que uma vitória do outro lado seja inaceitável. Arábia Saudita ou Irã, por exemplo, veem a Síria como um campo de batalha de sua disputa de poder regional, e acreditam que uma derrota poderia ameaçar seus próprios regimes.

Mesmo que a guerra na Síria prejudique a todos a longo prazo, garantindo mais extremismo e instabilidade, o medo da derrota a curto prazo coloca todos na manutenção de um empate perpétuo, impossível de vencer.

Isso é exacerbado pela dinâmica de tomada de decisão das coalizões informais. Cada lado consiste de várias partes com agendas e prioridades altamente diferentes. Com frequência, a única coisa em que concordam é no desejo de evitar a derrota. É uma estratégia baseada no mínimo denominador comum.

Há motivo para acreditar que a Rússia, por exemplo, gostaria que o presidente Bashar Assad renunciasse, ou ao menos fizesse algumas concessões pela paz. Mas a Rússia não pode forçá-lo a agir, nem pode simplesmente sair da Síria sem abandonar seus interesses ali. Enquanto isso, Assad pode querer uma maior intervenção russa que lhe traga a vitória, algo que Moscou não está disposto a fornecer.

O resultado: Assad permanece no lugar e a Rússia intervém apenas o suficiente para mantê-lo ali por ora.

As partes sírias foram construídas para combater, não para vencer

O governo sírio e os insurgentes que o combatem são internamente fracos, de formas que os levam a preferir o impasse, independente de quão terrível seja, em vez de qualquer resultado viável.

Os principais líderes da Síria pertencem principalmente à minoria religiosa alauita, que corresponde a uma pequena parcela da população do país, mas a uma parcela desproporcional das forças de segurança. Após anos de guerra ao longo de divisões demográficas, os alauitas temem a possibilidade de um genocídio caso Assad não obtenha uma vitória total.

Mas essa vitória parece extremamente improvável, em parte pelo status de minoria dos alauitas lhes dar pouco apoio para restaurar a ordem com qualquer coisa que não seja violência. Assim, os líderes da Síria acreditam que o impasse é a melhor forma de preservar a atual segurança dos alauitas, mesmo que isso aumente o risco que correm a longo prazo.

A oposição síria é fraca de uma forma diferente. Ela é dividida entre muitos grupos, outro fator que tende a prolongar as guerras civis e diminui as chances de acabar pacificamente.

Um estudo de cada esforço de paz da ONU desde 1945 aponta que ela teve sucesso em resolver dois terços das guerras civis envolvendo dois lados, mas apenas um quarto das envolvendo múltiplas partes. O campo de batalha da Síria é um polígono complexo, com uma série de grupos rebeldes sírios que inclui moderados e radicais islâmicos; afiliados da Al Qaeda e do Estado Islâmico; forças sírias e estrangeiras como a milícia xiita libanesa Hizbollah; e combatentes estrangeiros que se juntam em nome da jihad (guerra santa).

Cada uma dessas facções tem suas próprias metas, o que estreita os termos de qualquer possível acordo de paz. Cada uma também tem incentivo para competir com os outros grupos por recursos durante a guerra, e pelas concessões posteriores.

Esse é o motivo para oposições multifacetadas tenderem a fracassar. Mesmo quando derrubam o governo, elas acabam entrando em uma segunda guerra entre si.

Os riscos da vitória

A única forma certa de romper o impasse é um lado se erguer além do que os outros são capazes de igualar. Como a Síria envolveu duas das maiores potências militares do mundo, a Rússia e os Estados Unidos, isso provavelmente só poderia ser superado por meio de uma invasão plena.

No melhor cenário, isso exigira algo semelhante às ocupações americanas que duraram anos no Iraque ou no Afeganistão. No pior, a invasão a uma zona de guerra onde tantos adversários estrangeiros estão ativos poderia provocar uma grande guerra regional.

Outra forma de essas guerras terminarem é quando um apoiador estrangeiro muda sua política externa e decide se retirar. Isso permite uma rápida vitória pelo outro lado.

Mas na Síria, como cada lado é apoiado por múltiplos poderes estrangeiros, todos os apoiadores de um lado teriam que se retirar ao mesmo tempo.

Um obstáculo para a paz: a ausência de uma força de paz

Acordos de paz com frequência são bem-sucedidos ou fracassam dependendo de quem controla os militares e as forças de segurança. Na Síria, essa pode ser uma questão sem resposta.

Não se trata de uma questão de ganância, mas de confiança. Após uma guerra tão brutal quanto a da Síria, na qual mais de 400 mil pessoas foram mortas, os combatentes temem, com razão, que serão massacrados se o outro lado ficar com poder demais. Mas um acordo que daria às partes poder militar igual cria um alto risco de um retorno à guerra. Assim como permitir aos rebeldes que mantenham suas armas e independência, uma lição que o mundo aprendeu na Líbia.

Ao mesmo tempo, é preciso que haja algum tipo de força armada para restaurar a segurança e promover a remoção de qualquer senhor da guerra ou milícia restante.

Com frequência, a solução tem sido o envio de forças de paz por um país externo ou organização, como as Nações Unidas. Essas forças mantêm todos sob controle durante a transição do país para a paz e fornecem segurança básica de uma forma que não leve nenhum dos lados a se rearmar.

Mas que país ofereceria voluntariamente seus cidadãos para ocupar a Síria por tempo indeterminado, particularmente após a experiência dos Estados Unidos no Iraque?

Qualquer força estrangeira se transformaria em alvo para os terroristas jihadistas e provavelmente enfrentaria por anos uma insurreição que lhe custaria centenas ou milhares de vidas.

Deslizando para a catástrofe

Fearon, listando as formas com que a guerra da Síria não pode acabar, disse que no melhor cenário, um lado lentamente obteria uma vitória distante, que apenas reduziria o conflito a "uma insurreição de intensidade menor, ataques terroristas e assim por diante".

O pior cenário é significativamente pior.

Segundo um estudo de 2015 de Walter e Kenneth M. Pollack, um especialista em Oriente Médio, "uma vitória militar em uma guerra civil com frequência é obtida ao preço de níveis horríveis (até mesmo genocidas) de violência contra os derrotados, incluindo suas populações civis".

Isso poderia levar a novos conflitos no Oriente Médio. "Os grupos vitoriosos em uma guerra civil às vezes tentam empregar sua nova força contra Estados vizinhos, resultando em guerras entre países."

Ninguém deseja isso, mas é a direção na qual muitos participantes domésticos e estrangeiros na Síria estão conduzindo o país, cujos dias mais sombrios ainda podem estar por vir.

Fonte: The New York Times.

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