Os "guerreiros baloeiros" que combatem a Coreia do Norte

"E ouvireis de guerras e de rumores de guerras;..." Mateus 24:6

18 de outubro de 2016.

 

A casa de Lee Min Bok, feita a partir de dois contêineres de carga, é monitorada por 12 câmeras de vigilância da polícia. Cães latem para qualquer estranho caminhando pela rua de terra. Detetives à paisana checam a caixa de correio dele e o acompanham para onde quer que ele vá, para protegê-lo de possíveis assassinos enviados pela Coreia do Norte, que ameaça abertamente matá-lo.

Mas isso não o impede.

Nos dias em que o vento sopra para o norte, Lee, 59, sai com seu caminhão usado de 5 toneladas, transportando um enorme tanque de hidrogênio até a fronteira com a Coreia do Norte, a uma hora de distância. Lá, ele enche com gás dezenas de balões de 7 e 12 metros em forma de barril e os solta.

Os balões levam cargas especiais: aparelhos de rádio, notas de US$ 1, pendrives e, acima de tudo, dezenas de milhares de folhetos contendo mensagens que Lee diz que desacreditarão o culto à personalidade que cerca Kim Jong-un, o jovem líder da Coreia do Norte.

Voando de 3.000 a 5.000 metros acima do nível do mar, os balões de Lee cruzam a fronteira mais fortemente guardada do mundo, alto o suficiente para que os soldados norte-coreanos tenham pouca chance de abatê-los. Então, seu "timers" patenteados são acionados, soltando os fardos de vinil. Os folhetos caem como flocos de neve sobre a Coreia do Norte, onde Kim luta para manter seu povo em um apagão total de informação, bloqueando a internet e configurando todos os aparelhos de rádio e televisão para receberem apenas as transmissões cheias de propaganda de seu governo.

Na Coreia do Sul, há 50 "guerreiros baloeiros", muitos deles desertores da Coreia do Norte como Lee, que buscam romper o muro com folhetos.

Lee é o avô deles. Quando começou a soltar grandes balões em 2005, com outros seguindo seu exemplo, ele recebeu crédito (e culpa) por reiniciar a batalha dos folhetos que os dois exércitos coreanos travaram até o final da Guerra Fria. Ele agora lança entre 700 e 1.500 balões por ano, cada um transportando 30 mil a 60 mil folhetos.

Para qualquer um que dê ouvidos, Lee prega que a melhor forma de reformar a Coreia do Norte e acabar com seu programa de armas nucleares é subverter o governo de Kim de dentro do país. E a forma mais certa de conseguir isso, ele diz, é por meio da infiltração de informação externa fornecida pelos panfletos, transmissões de rádio e DVDs cheios de programas da TV sul-coreana, contrabandeados para a Coreia do Norte pela fronteira com a China.

"Os folhetos são mais baratos e mais seguros", disse Lee. "Não há guardas de fronteira, radar ou interferência no sinal de rádio que possa detê-los."

Com anos de negociações e sanções fracassando em impedir o programa de armas nucleares da Coreia do Norte, Washington e seus aliados começaram a dar mais atenção à guerra de informação. Após o quarto teste nuclear da Coreia do Norte em janeiro, a Coreia do Sul retomou o uso de alto-falantes para enviar transmissões de propaganda para o outro lado da fronteira.

No mês passado, Washington anunciou um orçamento de US$ 1,6 milhão para projetos que "estimulem o fluxo livre de informação para a Coreia do Norte, de lá para fora e internamente".

Apesar de alguns desertores alegarem que fugiram após lerem os folhetos ou ouvido às transmissões externas de rádio, os críticos dizem que os folhetos basicamente só provocam Pyongyang.

Ela os considera um ato de guerra e ameaça direcionar um ataque de artilharia aos locais de lançamento perto da fronteira. Baloeiros entraram em choque com aldeões sul-coreanos que temiam se tornar alvos da retaliação norte-coreana.

Em 2011, um homem foi preso sob acusação de tramar o assassinato de um ativista baloeiro em nome da Coreia da Norte. Três anos depois, a Coreia do Norte direcionou fogo antiaéreo ao céu sul-coreano, tentando abater um dos balões de Lee. Neste ano, ela começou a retaliar na mesma moeda, lançando na Coreia do Sul folhetos chamando a presidente Park Geun-hye de cobra e prostituta.

Andrei Lankov, um professor da Universidade de Kookmin, em Seul, que cresceu na antiga União Soviética e estudou em uma universidade norte-coreana, é cético em relação ao impacto dos folhetos na Coreia do Norte.

"Um folheto não mudará a posição de uma pessoa exposta diariamente à propaganda oficial", ele disse. "Mas seria um erro parar a campanha agora. Isso é o que exigem as autoridades norte-coreanas, e não é um bom momento para demonstrar fraqueza."

Lee evita confrontos com os aldeões ao lançar seus balões longe de suas cidades. Diferente de ativistas mais extravagantes, ele raramente convida jornalistas aos seus lançamentos. Os folhetos de outros ativistas com frequência apresentam ataques altamente pessoais a Kim, o ridicularizando como "lunático nuclear" e exortando os norte-coreanos a derrubarem o "porco sanguinário". Lee acredita que uma abordagem menos provocativa traz melhores resultados

Folhetos com mensagens contra o líder norte-coreano Kim Jong-un

Seus folhetos, por exemplo, listam o número de carros e outros dados da economia vastamente superior da Coreia do Sul. Então pede aos norte-coreanos que perguntem aos coreanos da China, que com frequência visitam o país, se esses números estão corretos.

Também pede que perguntem aos soldados na linha de frente para confirmarem que as cercas sul-coreanas na fronteira são altamente iluminadas à noite, enquanto a Coreia do Norte, carente de energia, fica no escuro.

Não existe estudo confiável sobre quantos norte-coreanos leram os folhetos ou como reagem.

Escrevendo no site 38 North, Ruediger Frank, um professor da Universidade de Viena e visitante frequente da Coreia do Norte, alertou contra dar peso demais aos relatos de desertores e grupos de direitos humanos sobre o descontentamento no país, "criando, assim, a impressão de um levante iminente que precisa apenas de um empurrãozinho externo para acontecer".

Mas Lee disse que sua própria história é prova de que um folheto pode mudar uma vida norte-coreana.

Ele era um biólogo de um instituto de pesquisa agrícola estatal em 1990 quando pegou um folheto da Coreia do Sul, enquanto viajava próximo da fronteira. Ele fazia a alegação chocante para ele de que a Guerra da Coreia começou em 1950 com uma invasão norte-coreana.

Na Coreia do Norte, ele disse, o governo ensina as pessoas a odiarem os americanos ao reiterar interminavelmente que os Estados Unidos e seus fantoches sul-coreanos começaram a guerra. Lee fez sua própria pesquisa, perguntando a antigos veteranos e a pessoas que viviam perto da fronteira quando a guerra começou, ficando convencido de que o folheto estava correto.

Àquela altura, a fé dele já estava abalada, depois que as autoridades o repreenderam por sugerir a necessidade de reformas agrícolas.

Lee fugiu da Coreia do Norte em 1991 e, após viajar pela China e Rússia, chegou à Coreia do Sul em 1995. No caminho, ele foi ajudado e batizado por missionários sul-coreanos.

Hoje, lançar balões é um trabalho em tempo integral de Lee. Ele financia sua operação com o dinheiro que ganha com as palestras que dá em igrejas e outros lugares. Os cristãos também doam, pedindo que também lance pequenas Bíblias e comida para a Coreia do Norte.

Na Coreia do Sul, há 50 "guerreiros baloeiros", muitos deles desertores da Coreia do Norte como Lee
 

Um grupo japonês contribui pedindo que ele acrescente em seus folhetos pedidos aos norte-coreanos para que ajudem a descobrir o paradeiro de dezenas de japoneses supostamente abduzidos pela Coreia do Norte.

Lee disse que sua obsessão pelos folhetos o fez negligenciar sua família. A esposa sul-coreana com a qual se casou em 1996 se separou dele. Ele agora é casado com uma chinesa que lhe dá mais apoio.

"É preciso uma parceira neste trabalho", disse Lee. "Você não sabe quando o vento certo soprará, e minha esposa é a única ajuda que disponho quando preciso sair correndo com os balões."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Fonte: The New York Times.

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