Obama é o presidente que comanda guerras há mais tempo nos EUA

"E ouvireis de guerras e de rumores de guerras;..." Mateus 24:6

18 de maio de 2016.

 

O presidente Barack Obama tomou posse há sete anos prometendo colocar um fim nas guerras de seu antecessor, George W. Bush. Em 6 de maio, restando oito meses para ele deixar a Casa Branca, Obama superou um marco sombrio e pouco notado: ele agora está em guerra há mais tempo que Bush ou qualquer outro presidente americano.

Se os Estados Unidos permanecerem em combate no Afeganistão, Iraque e Síria até o final do mandato de Obama, uma quase certeza, dado o recente anúncio pelo presidente de que enviará 250 forças adicionais das Operações Especiais à Síria, ele deixará para trás um legado improvável como único presidente na história americana a servir dois mandatos completos com o país em guerra.

Obama, que ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2009 e passou seus anos na Casa Branca tentando cumprir as promessas que fez como candidato antiguerra, terá atuado mais tempo como presidente de tempo de guerra do que Franklin D. Roosevelt, Lyndon B. Johnson, Richard M. Nixon ou seu herói, Abraham Lincoln.

É preciso notar que Obama está deixando bem menos soldados em risco (pelo menos 4.087 no Iraque e 9.800 no Afeganistão) do que as 200 mil tropas que herdou de Bush nos dois países. Mas Obama também aprovou ataques contra grupos terroristas na Líbia, Paquistão, Somália e Iêmen, para um total de sete países onde seu governo está atuando militarmente.

"Nenhum presidente quer ser um presidente de guerra", disse Eliot A. Cohen, um historiador militar da Universidade Johns Hopkins, que apoiou a guerra no Iraque e cujo filho serviu lá duas vezes. "Obama pensa na guerra como um instrumento que precisa usar com muita relutância. Mas estamos travando essas guerras longas e estranhas. Estamos matando muita gente. Estamos sofrendo baixas."

Obama tem enfrentado essa realidade imutável desde seu primeiro ano na Casa Branca, quando fez uma caminhada entre as sepulturas do Cemitério Nacional de Arlington antes de dar a ordem de envio de 30 mil tropas adicionais ao Afeganistão.

Seus conselheiros mais próximos dizem que ele tem apostado tanto em operações secretas limitadas e ataques com drones por estar ciente dos riscos da escalada, assim como há muito é cético em relação às intervenções militares americanas.

Publicamente, Obama reconheceu desde cedo a contradição entre sua mensagem de campanha e as realidades de governar. Quando aceitou o Nobel em dezembro de 2009, ele declarou que a humanidade precisava conciliar "duas verdades aparentemente irreconciliáveis, a de que a guerra é às vezes necessária, e de que a guerra em algum nível é uma expressão da insensatez humana".

O presidente tem tentado conciliar essas verdades ao abordar suas guerras em termos estreitos, como um administrável desafio crônico de segurança em vez de uma campanha nacional que a tudo consome, na tradição da Segunda Guerra Mundial ou, em grau menor, da Guerra do Vietnã. A longevidade de seu histórico de guerra, dizem historiadores militares, também reflete a mudança da definição de guerra.

"É a diferença entre ser um presidente de guerra e um presidente em guerra", disse Derek Chollet, que serviu no Departamento de Estado e na Casa Branca durante o primeiro mandato de Obama e como secretário-assistente de Defesa para assuntos de segurança internacional de 2012 a 2015.

"Ser um presidente de guerra significa que todos os elementos do poder americano e da política externa ficam subservientes à guerra", disse Chollet. "O que Obama tem tentado fazer, o motivo para ele ser cuidadoso em aumentar o número de tropas, é não permitir que prevaleça sobre outras prioridades."

Mas para Obama, esses conflitos tem se mostrado enlouquecedoramente difíceis de encerrar. Em 21 de outubro de 2011, ele anunciou que o último soldado de combate deixaria o Iraque até o final daquele ano, colocando um fim a oito anos de guerra. "Nossas tropas definitivamente estarão em casa para as Festas", disse Obama na Casa Branca.

Menos de três anos depois, ele disse pela televisão para todo o país que enviaria 475 consultores militares de volta ao Iraque para ajudarem na batalha contra o Estado Islâmico, o grupo terrorista brutal que ocupou o vácuo de segurança deixado pela ausência dos americanos. No mês passado, mais de 5.000 tropas americanas estavam no Iraque.

Um confronto furioso neste mês entre combatentes do Estado Islâmico e SEALs da Marinha no norte do Iraque, no qual o operador especial de primeira classe Charles Keating 4º se tornou o terceiro americano a morrer desde o início da campanha contra o Estado Islâmico, fez lembrar os dias mais sangrentos da Guerra no Iraque. Também tornou ainda menos plausível o argumento do governo de que os americanos estavam apenas prestando consultoria e auxiliando as forças iraquianas.

O Afeganistão seguiu um ciclo semelhante de esperança e decepção. Em maio de 2014, Obama anunciou que os Estados Unidos retirariam o último soldado de combate do país até o final de 2016.

"Os americanos aprenderam que é mais difícil encerrar guerras do que começá-las", disse o presidente no Jardim das Rosas. "Mas é assim que guerras terminam no século 21."

Dezessete meses depois, Obama suspendeu a retirada, dizendo aos americanos que planeja deixar mais de 5.000 soldados no Afeganistão até o início de 2017, o final de sua presidência. Até lá, o Taleban estará controlando mais território no país do que em qualquer momento desde 2001.

Os combatentes do Taleban até mesmo conquistaram brevemente a cidade de Kunduz, no norte. Na batalha amarga pelo controle, um avião de guerra americano disparou equivocadamente seus mísseis contra um hospital da Médicos Sem Fronteiras, matando 42 pessoas e provocando acusações de que os Estados Unidos cometeram um crime de guerra.

Os críticos de Obama há muito dizem que sua abordagem clínica às guerras enfraqueceu a capacidade do país de travá-las. "Ele não tenta mobilizar o país", disse Cohen. "Ele nem mesmo tentou explicar ao país o que está em jogo, por que essas guerras se desdobraram dessa forma."

Bush também foi criticado por não pedir aos americanos que fizessem sacrifícios durante a Guerra no Iraque. Mas, disse Cohen, "apesar de todas as suas falhas, com Bush, havia esse desejo visceral de vencer".

Vincent DeGeorge, um pesquisador da Universidade Carnegie Mellon que reuniu dados sobre presidentes em guerra, disse que o tom de Obama importa menos do que as decisões que tomou. "A retórica que o presidente usa em casa importa para os soldados que voltam feridos ou são pegos no fogo cruzado?" ele perguntou em uma entrevista.

DeGeorge reconheceu as complicações para medir as guerras de Obama. A fase liderada pelos americanos da Guerra do Afeganistão, por exemplo, acabou formalmente em dezembro de 2014, apesar de milhares de tropas terem permanecido lá. Para sua análise, ele considerou um estado de guerra como sendo existente quando menos de um mês se passa entre baixas americanas ou um ataque aéreo americano.

Mais do que Bush ou o presidente Bill Clinton, Obama travou uma guerra com múltiplas frentes contra militantes. As autoridades no Pentágono se referem à situação como sendo "o novo normal". Mas para aqueles que trabalharam no governo Obama, isso resulta em uma experiência implacável.

"Como coordenador para o Oriente Médio, eu certamente senti como se fosse um ritmo de tempo de guerra", disse Philip H. Gordon, que trabalhou na Casa Branca de 2013 a 2015.

Ainda assim, Gordon e outros ex-funcionários fazem uma distinção entre as guerras do século 21 e as do século 20. Por um lado, o Congresso não autorizou especificamente nenhuma das campanhas militares de Obama, muito menos emitiu uma declaração de guerra, algo que não fez desde a Segunda Guerra Mundial.

"Não existe mais guerra em nosso vocabulário oficial", disse Gordon.

Não está claro se quem suceder Obama seguirá a mesma abordagem. A principal pré-candidata presidencial democrata, Hillary Clinton, se mostra mais receptiva a engajamentos militares convencionais do que Obama. O virtual candidato republicano, Donald Trump, prometeu bombardear o Estado Islâmico até que deixe de existir, apesar de ter passado mensagens contraditórias sobre sua disposição de enviar tropas terrestres para conflitos no exterior.

Os historiadores militares disseram que os presidentes provavelmente continuarão a encolher ou estender a definição de guerra para atender seus propósitos políticos.

"Nem Clinton e nem Obama se identificam como presidentes de guerra, mas Bush sim", disse Richard H. Kohn, professor emérito de história e paz, guerra e defesa da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill.

"A guerra já conta com milhares de anos na experiência humana", ele disse. "Nós sabemos que ela tem uma variedade enorme de definições."

Fonte: The New York Times.

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