O que testes de mísseis revelam sobre o programa nuclear da Coreia do Norte

"E ouvireis de guerras e de rumores de guerras;..." Mateus 24:6

15 de julho de 2016.

Segundo o entendimento tradicional da Coreia do Norte, o teste de lançamento de dois mísseis balísticos de médio alcance feito pelo país no final de junho não deveria ter acontecido. Tampouco o lançamento fracassado, no último sábado (9), de um míssil baseado em submarino.

Mas eles fizeram isso, o que trouxe nova urgência a uma conversa crescente entre muitos observadores da Coreia do Norte: nosso entendimento desse país está fundamentalmente errado?

Os programas de armas coreanos são vistos há muito tempo como algo que não tem fins militares imediatos, mas pretende unir os norte-coreanos por trás da liderança e obter concessões dos governos estrangeiros. A arrogância da Coreia do Norte, nessa visão, não é sincera, mas apenas mais uma peça de um espetáculo elaborado e interminável.

Isto não explica adequadamente, porém, os recentes testes de armas praticados pelo país, muitas vezes usando tecnologia não comprovada que tende a falhar, com frequência causando embaraços a um governo que deseja projetar confiança, o que cobra um alto preço diplomático e financeiro que o país não pode pagar.

Esses testes, segundo um coro crescente de especialistas, sugere que a Coreia do Norte está buscando, de maneira mais enfocada e determinada, um programa nuclear real e funcional, e pode estar perto de consegui-lo.

"A sabedoria convencional trata esses testes e programas estratégicos como instrumentos políticos", disse Mark Fitzpatrick, um integrante do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos. "Eles são mais que isso."

Essa percepção está forçando os analistas a repensar não apenas questões nucleares, mas também os objetivos e motivos subjacentes do próprio Estado norte-coreano, com implicações abrangentes para o entendimento ocidental de um dos países mais sigilosos do mundo.

KCNA/AFP
O líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, acompanha teste de um míssil submarino
 
A Coreia do Norte teve apenas três líderes, cada um dos quais enfrentou o mesmo problema: governar um país pequeno com poucos recursos, superado por poderosos inimigos.
 

Kim il Sung, o líder fundador da nação, usou a diplomacia. Ao aliar-se com a União Soviética e a China --e jogar uma contra a outra--, ele conseguiu proteção e apoio.

Seu filho, Kim Jong-il, chegou ao poder no início dos anos 1990, enquanto a URSS desmoronava e o interesse da China por apoiar um país vilão diminuía. Em resposta, ele colocou o país em um pé de guerra permanente. Kim Jong-il começou a desenvolver mísseis e armas nucleares, instigando periodicamente crises geopolíticas que promoviam o nacionalismo no país e conquistavam concessões internacionais no exterior.

Governos e analistas estrangeiros concluíram que esses programas, que a Coreia do Norte testava de modo errático, mas com grande estardalhaço, destinavam-se principalmente a fins políticos, mais que militares. A liderança do país era considerada reacionária e concentrada em preservar a situação vigente. A propaganda estatal, que advertia incansavelmente sobre a guerra com a Coreia do Sul e os EUA, era descartada como um mero instrumento de controle interno.

Essa visão foi mantida durante 20 anos, até a morte de Kim Jong-il em 2011 e a ascensão de seu filho, Kim Jong-un.

Mas com três anos de reinado do jovem Kim, enquanto ele realizava uma série de expurgos políticos de alto nível, algo pareceu mudar.

"Em 2014 eles começaram a testar coisas como loucos", disse Jeffrey Lewis, um especialista em armas nucleares no Instituto Middlebury de Estudos Internacionais, em Monterey, na Califórnia. O país também construiu uma nova instalação subterrânea de testes nucleares.

Como a maioria dos testes falhou --e por causa da imagem popular do país como idiota e atrasado--, eles foram considerados meras farsas. Era "fácil rir deles", disse Lewis. Hoje, em retrospectiva, parece que os testes indicavam uma mudança cujas ramificações apenas começam a ficar claras para os analistas.

Andrea Berger, uma especialista em proliferação no Instituto Real de Serviços Unidos em Londres, disse que durante anos ela e alguns de seus colegas acreditaram que "um dos motivos por trás do desenvolvimento nuclear da Coreia do Norte era eventualmente vendê-lo pelo preço certo", fosse em parte ou completo. Outros, é claro, pensaram que a Coreia do Norte estivesse simplesmente envolvida em um jogo de gato e rato, aceitando congelar partes do programa em troca de dinheiro ou comida, apenas para as descongelar mais tarde na esperança de fazer outro negócio com os mesmos artigos em outra rodada de negociações.

Em todo caso, disse Berger, a atividade do país desde 2014 levou a um "sentimento crescente, e eu diria que hoje é a opinião da maioria, de que a Coreia do Norte talvez não esteja nem um pouco disposta a abandonar seu programa nuclear ou de mísseis".

O míssil de médio alcance que o país testou em junho passado, conhecido como Musudan, tinha falhado nas cinco tentativas anteriores. No lançamento do mês passado, embora não fosse um sucesso categórico, mostrou progresso, um de muitos avanços duramente conquistados.

"Estamos chegando à percepção de que a Coreia do Norte está preenchendo algumas lacunas tecnológicas que acreditávamos que tivessem, e apagando alguns pontos de interrogação mais depressa do que pensávamos", disse Berger.

A Coreia do Norte parece concentrada em adquirir capacidades nucleares chaves, incluindo, segundo Berger, "uma capacidade demonstrada de atacar o território continental dos EUA".

O país também está desenvolvendo diversas maneiras de lançar esses mísseis, como demonstra o recente teste com o submarino.

Enquanto os analistas ajustam suas opiniões sobre as intenções norte-coreanas, eles enfrentam uma pergunta muito maior: por que a Coreia do Norte está tão empenhada em um programa que traz sanções econômicas e o risco de conflito e isolamento até da China, seu único aliado e benfeitor restante?

Colocado de outra maneira: o que a Coreia do Norte acredita que ganhará com as armas nucleares que valha esse preço?

Os peritos não têm uma resposta de consenso, mas oferecem uma série de explicações possíveis. O que essas teorias compartilham é a sensação de que a liderança da Coreia do Norte acredita que está enfrentando uma possível crise existencial e está disposta a dar passos radicais para sobreviver.

Alguns analistas dizem que as advertências da Coreia do Norte sobre um conflito iminente com os EUA e a Coreia do Sul talvez não sejam só exibição, mas indiquem que os líderes do país sinceramente acreditam que a guerra pode estar chegando.

Nessa visão, o país precisaria de mais que uma única bomba para deter seus inimigos. Seria necessário um programa nuclear grande o suficiente para que a guerra pudesse ser vencida.

Detalhes sobre os avanços norte-coreanos sugerem as linhas gerais de um plano de guerra, disse Lewis. O país parece estar aumentando a capacidade de lançar ataques nucleares rápidos contra alvos militares próximos, como as bases dos EUA em Guam e na ilha japonesa de Okinawa, assim como portos sul-coreanos onde qualquer força de invasão americana pousaria.

"Acho que sua esperança é que o choque que isso causará nos detenha", disse Lewis. "Então toda a questão dos mísseis balísticos intercontinentais é algo na reserva" para ameaçar cidades na costa oeste dos EUA, teoricamente obrigando os EUA a recuar.

Fitzpatrick afirmou que mesmo que a Coreia do Norte não pretenda levar a efeito tal plano ela espera que aumentar a preocupação de um conflito nuclear "colocará uma cunha entre os EUA e seus aliados", particularmente a Coreia do Sul.

Se a Coreia do Norte conseguir um míssil com capacidade nuclear capaz de atingir o Estado de Washington, alguns americanos poderiam questionar o valor de continuar garantindo a segurança da Coreia do Sul.

"Os norte-coreanos gostariam que as pessoas duvidassem que os EUA trocariam Seattle por Seul", disse Fitzpatrick, referindo-se a um adágio da Guerra Fria de que os EUA aceitaram riscos a suas próprias cidades para defender as de seus aliados.

B. R. Myers, um estudioso da Coreia do Norte na Universidade Dongseo, na Coreia do Sul, leva essa teoria um passo adiante. O programa nuclear, segundo ele, destina-se não apenas a assustar os EUA, mas a um dia coagir o Sul a aceitar a antiga demanda do Norte: a reunificação em seus próprios termos.

"É o único objetivo grande o suficiente para explicar um programa nuclear que tornou a Coreia do Norte menos segura do que era dez anos atrás"", disse Myers.

Fonte: The New York Times.

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