Inteligência artificial é a última arma do Pentágono

"E ouvireis de guerras e de rumores de guerras;..." Mateus 24:6

16 de maio de 2016.

Em sua missão de manter a vantagem militar dos EUA, o Pentágono está recorrendo ativamente à mais avançada tecnologia do Vale do Silício --a inteligência artificial.

Na última quarta-feira (11), o secretário da Defesa, Ash Carter, fez sua quarta viagem ao centro da indústria tecnológica desde que foi nomeado ao cargo, no ano passado. Antes disso, fazia 20 anos que um secretário da Defesa havia visitado a área, comentou ele em um discurso numa instalação do Departamento da Defesa perto da sede da Google.

O intenso interesse do Pentágono por IA --e portanto pelas companhias do Vale do Silício especializadas nessa tecnologia-- surgiu da estratégia de "Terceira Compensação", articulada por Carter no último outono. Preocupado com o ressurgimento da China e da Rússia como concorrentes militares, ele declarou que armas de alta tecnologia, baseadas em computação, dariam aos militares americanos uma vantagem no futuro.

"Terceira Compensação" é uma referência às duas eras anteriores em que planejadores do Pentágono recorreram à tecnologia para compensar sua desvantagem em número de militares. Na década de 1950, o presidente Dwight Eisenhower deu ênfase às armas nucleares como elemento de dissuasão contra os exércitos maiores reunidos no Pacto de Varsóvia.

Uma segunda "compensação" ocorreu nos anos 1970 e 80, quando os planejadores militares se voltaram para a tecnologia aperfeiçoada em armas convencionais para mais uma vez compensar seu número menor.

Desta vez, Carter admitiu que os EUA enfrentam desafios significativos para traduzir a inovação civil em vantagem militar, já que o país não irá controlar nem determinar o rumo da inteligência artificial.

"É diferente de 30, 40 ou 50 anos atrás, quando esperávamos controlar o ritmo da tecnologia", disse ele na quarta-feira em um discurso no prédio da Unidade de Inovação em Defesa Experimental do Pentágono, que tem quase um ano, conhecida pela sigla DIUx. "Isso não é mais verdade, mas ainda podemos ser os melhores militares com relação às aplicações da IA."

Nas últimas semanas, o vice-secretário da Defesa, Robert Work, enfatizou repetidamente a importância das tecnologias ligadas à IA, que ele acredita ajudarão a criar um novo tipo de combatentes no estilo "Homem de Ferro", equipados com armas cada vez mais inteligentes.

Ele lembrou o conceito de "Guerra do Centauro" --sistemas que combinam IA com as capacidades humanas, resultando em reações mais rápidas do que os humanos sozinhos conseguiriam.

O Departamento da Defesa precisará da ajuda do Vale do Silício com essa tecnologia. E Carter indicou que a construção de pontes com empresas locais é um motivo chave pelo qual o novo escritório do Pentágono que ele visitou na quarta-feira agora se reportará diretamente a ele.

O Departamento da Defesa sempre teve um relacionamento estreito com algumas grandes empresas de tecnologia. O cofundador da Hewlett-Packard David Packard, por exemplo, foi vice-secretário da Defesa no governo Nixon.

Muitas companhias ainda contam com o Pentágono e agências de inteligência entre seus melhores clientes. Um empreendimento apoiado pela CIA tem investido em empresas de tecnologia desde o boom das pontocom no final dos anos 1990.

 

Mas executivos mais jovens do Vale do Silício, especialmente os ligados à pesquisa em IA, demonstraram pouco interesse em ver suas novas tecnologias usadas pelos militares.

A imagem de armas de defesa que disparam sem um operador humano despertou receio entre os defensores do controle das armas e alguns estrategistas militares que temem que seja difícil manter a divisão entre usos ofensivos e defensivos das armas inteligentes.

"Precisamos descobrir onde traçar a linha e precisamos ficar no lado certo dela", disse Stuart Russell, um especialista em IA na Universidade da Califórnia em Berkeley, que é líder de um movimento pela proibição das armas autônomas.

Na verdade, entregar a máquinas a decisão de matar é visto por alguns tecnólogos e estrategistas militares como uma nova corrida armamentista, possivelmente desestabilizadora.

"Não estou tão confiante que possamos claramente separar entre armas ofensivas e defensivas, em geral", disse Paul Scharre, um analista de armas no Centro para uma Nova Segurança Americana, um grupo de estudos políticos sediado em Washington. "Se houvesse uma maneira fácil de fazer isso, os países teriam concordado há muito tempo em só construir armas 'defensivas'."

Apesar do ceticismo entre alguns membros da comunidade tecnológica, o Pentágono teve um papel chave em um dos mais conhecidos exemplos de IA, os conceitos de veículos autoconduzidos hoje defendidos por empresas como Google e Uber.

A partir de 2004, a agência de pesquisa avançada do Pentágono, Darpa, tentou acelerar o progresso em veículos autônomos promovendo uma série de três "Grandes Desafios" nesse tema. A iniciativa desencadeou uma onda de pesquisa e desenvolvimento comercial, mas ficou aquém do objetivo de retirar soldados americanos de funções perigosas no campo de batalha.

As empresas que fornecem para os militares dizem que a tecnologia de autocondução hoje avançou ao ponto em que um soldado humano pode ficar no banco do motorista no último veículo de um comboio e controlar com segurança uma série de veículos. Apesar das demonstrações de tecnologia, porém, os militares americanos ainda não se dedicaram a transformar os caminhões existentes para esse sistema.

O passado de Carter poderá lhe dar vantagem entre a elite tecnológica do Vale do Silício. Ele tem doutorado em física teórica pela Universidade de Oxford e foi professor no Instituto Freeman Spogli,  em Stanford, e professor-visitante no Instituto Hoover dessa universidade, a poucos quilômetros de onde ele fez o discurso na quarta-feira.

Além de mudar a estrutura de responsabilidades no grupo DIUx, que ocupa um amplo edifício em frente ao túnel de vento da Nasa e ao lado da movimentada Rodovia 101 do Vale do Silício, Carter indicou uma série de iniciativas que ele está empreendendo no esforço para tornar a cultura do Departamento da Defesa mais parecida com a do Vale do Silício.

"Estamos pegando uma página diretamente do manual do Vale do Silício, estamos nos adaptando rapidamente para tornar o DIUx ainda melhor", disse ele. Emprestando um pouco da linguagem do setor, Carter afirmou que o Pentágono planeja criar novas organizações em outras regiões do país que o Departamento da Defesa considera "polos de inovação".

Ele disse que o próximo escritório será inaugurado na área de Boston, outro núcleo de pesquisa de IA concentrado em Harvard e no MIT.

"Tenho pressionado o Pentágono para pensar fora da caixa de cinco lados e investir agressivamente em mudança e inovação", disse ele, acrescentando que o orçamento proposto para P&D do Departamento da Defesa para 2017 é mais que o dobro dos gastos em P&D somados da Apple, Google e Intel no ano passado.

Fonte: The New York Times.

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