Estado Islâmico sofre com grande número de deserções de ocidentais

"E ouvireis de guerras e de rumores de guerras;..." Mateus 24:6

09 de junho de 2016.

As deserções se multiplicam nas fileiras do grupo Estado Islâmico (EI), sobretudo as de jihadistas ocidentais, cujo retorno aos seus países de origem constitui um quebra-cabeças para as forças antiterroristas.

A organização fundamentalista, que perde terreno na Síria e no Iraque pelos incessantes ataques de dezenas de caça-bombardeiros, se esforça para impedir que milhares de voluntários estrangeiros que se uniram a ela em 2014 fujam das terras do califado autoproclamado.

É o que mostra um estudo do International Centre for the Study of Radicalisation (ICSR) do King's College de Londres, realizado a partir de uma amostra de 60 desertores.

De acordo com a pesquisa, alguns tomam sua decisão por medo de ataques aéreos, por decepção em relação ao que haviam imaginado, pela corrupção dos líderes locais, pelas ações violentas contra os muçulmanos sunitas ou simplesmente por tédio.

"Eles percebem que a fase final [do grupo terrorista] começou. Muitos começam a nos enviar mensagens para se informar sobre como retornar", declara à AFP o coordenador nacional da inteligência na França, Didier Le Bret. "Já não existe uma expansão do glorioso califado, e sabemos que alguns morrem quando tentam fugir."

"Como os serviços de segurança do EI são muito desconfiados, ficamos preocupados quando alguém chega: como ter certeza de que são sinceros e não que estão ali para realizar uma missão?", acrescenta.

Segundo o diretor-geral da segurança interior francesa (DGSI), Patrick Calvar, em meados de maio 244 pessoas voltaram à França a partir da zona síria-iraquiana. "Assistimos a uma maior intenção de retorno", afirma. Segundo ele, esse retorno é dificultado pela política do Daesh (acrônimo árabe do EI), que considera traidores os que deixam a Síria e afirma que eles precisam ser executados imediatamente.

Desde janeiro de 2014, antes da proclamação oficial da criação do califado, o ICSR criou uma base de dados com entrevistas realizadas com desertores do EI para tentar entender seus motivos.

"Massacres porque sim"
"Os motivos pelos quais fugiram são tão complexos como os que os levaram a partir", escreveu, em um relatório, Peter Neumann, diretor do ICSR. "Nem todos se converteram em partidários fervorosos da democracia ao estilo ocidental. Alguns cometeram crimes", afirma.

"Em seus relatos, quatro críticas se repetem: 'O EI se concentra mais em combater outros muçulmanos que o governo de Assad, o EI comete atrocidades contra muçulmanos, o EI é corrupto e não segue os preceitos do Islã, a vida sob o jugo do EI é dura e decepcionante'", acrescenta.

Shiraz Maher, membro do ICSR, é um dos investigadores que interrogou os desertores.

"A maioria deles nos diz: 'Não viemos para isso'", afirma. "Um deles afirmou: 'Gostaria de dizer a todos os mujahedins [partidários da jihad, ou guerra santa] que não se dirijam à Síria. A jihad não é isso. Vai acabar matando muçulmanos".

"Alguns se juntaram ao grupo terrorista por impulso, às vezes convencidos de que se uniriam a uma utopia, a uma sociedade ideal regida pela sharia [a lei islâmica]. Outros buscavam adrenalina, camaradagem. Mas os aprendizes de jihadistas acabam, segundo contam, imersos na violência, na barbárie, no medo, nas privações, no tédio, na incompreensão e na discriminação em função de seus países de origem", diz o relatório.

"Um deles me disse" - lembra Shiraz Maher - "que os chefes do EI não hesitarão em destruir um edifício, com mulheres e crianças no interior, para matar apenas uma pessoa. Não é a jihad revolucionária, e simplesmente um massacre."

Fonte: AFP.

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