Estado Islâmico expande alcance, apesar de derrotas militares e financeiras

"E ouvireis de guerras e de rumores de guerras;..." Mateus 24:6

14 de abril de 2016.

Os ataques aéreos americanos mataram 25 mil combatentes do Estado Islâmico no Iraque e na Síria, assim como incineraram milhões de dólares saqueados pelos militantes, segundo autoridades do Pentágono.

As forças iraquianas e curdas retomaram 40% do território do grupo militante no Iraque, segundo as autoridades, e as forças apoiadas pelo Ocidente tomaram uma quantidade considerável de território na Síria que estava sob controle do Estado Islâmico, ou EI.

Mas os sucessos obtidos no campo de batalha pelas forças apoiadas pelo Ocidente no coração do território do Estado Islâmico fez pouco para impedir a expansão dos militantes para a Europa, Norte da África e Afeganistão. Os ataques neste ano em Bruxelas, Istambul e outras cidades apenas reforçaram o senso de um grupo terrorista em marcha, e entre as autoridades americanas e especialistas militares há uma cautela renovada na previsão de progresso em um combate que, segundo eles, provavelmente prosseguirá por anos.

"Enquanto avançamos em nossos esforços para derrotar o Daesh nas linhas de frente", disse o vice-secretário de Estado americano, Antony J. Blinken, para um comitê do Congresso na terça-feira, usando o nome em árabe do Estado Islâmico, "nós sabemos que para sermos plenamente eficazes, precisamos primeiro trabalhar para impedir a disseminação do extremismo violento, impedir o recrutamento, radicalização e mobilização de pessoas, especialmente jovens, para prática de atividades terroristas".

Em vez de se engajarem com um pseudo-Estado no Oriente Médio cujos combatentes provaram ser suscetíveis ao poder aéreo americano, os Estados Unidos e seus aliados europeus devem agora se engajar na luta bem mais complexa contra os militantes domésticos, que precisam de relativamente menos recursos para semear derramamento de sangue no Ocidente.

"Derrotar a presença militar formal de um grupo terrorista não reduzirá significativamente a ameaça de pequenas células independentes ou de lobos solitários baseados no Ocidente", disse Jonathan Schanzer, um ex-analista de finanças do terrorismo do Departamento do Tesouro, que agora está na Fundação para a Defesa das Democracias, em Washington.

Os ataques no Ocidente são baratos de financiar. Schanzer estimou que o custo dos materiais usados no ataque a Bruxelas e para o laboratório necessário para produção dos explosivos, por exemplo, foi entre US$ 10 mil e US$ 15 mil (cerca de R$ 35 mil a R$ 52 mil). E, ele acrescentou: "É possível derrotar o EI nos territórios controlados pelo EI, mas não derrotar o EI em si. A ideologia do jihadismo continuará evoluindo e continuará existindo".

Apesar de algumas autoridades terem buscado retratar os ataques recentes na Europa e Turquia como evidência de que o Estado Islâmico está cada vez mais desesperado, em consequência das derrotas no campo de batalha, um número maior de autoridades e especialistas vê a violência como outra indicação de que o Estado Islâmico não é um problema que será resolvido de forma rápida ou fácil.

Autoridades de ambos os lados do Atlântico reconhecem que o Estado Islâmico, que saqueou estimados US$ 1 bilhão de cofres bancários por toda a Síria e Iraque e é amplamente visto como um dos grupos militantes mais ricos de todos os tempos, continua sendo um adversário resistente e adaptável no campo de batalha, ainda capaz montar ações espetaculares, como a abdução de pelo menos 170 trabalhadores de uma fábrica de cimento próxima de Damasco, na semana passada.

Em Mosul, Iraque, e em Raqqa, a cidade síria que é a capital de fato do Estado Islâmico, os salários dos combatentes foram reduzidos pela metade desde o ano passado, segundo moradores e documentos. Mas mesmo com salários reduzidos, dizem as autoridades americanas, o Estado Islâmico, que coleta centenas de milhões de dólares por meio de extorsão, taxas e impostos sobre as pessoas que governa, ainda consegue pagar seus combatentes.

"Não há uma ferramenta simples para separar o EI de sua vasta riqueza", disse recentemente Daniel L. Glaser, o secretário-assistente do Tesouro para finanças do terrorismo, em um discurso em Londres.

Mas funcionários do governo americano dizem que o esforço gêmeo de reduzir militarmente o domínio do grupo no Iraque e na Síria e minar suas finanças alimenta um ao outro. A meta estratégica é privar os militantes dos recursos que precisam para travar a guerra por meio da tomada de suas cidades e campos de petróleo, e, segundo a avaliação dos americanos, isso está sendo bem-sucedido.

Desde o final de outubro, a campanha aérea americana chamada Operação Tidal Wave 2 (tsunami 2) tem visado campos de petróleo, refinarias e caminhões-tanque, e as autoridades americanas acreditam ter cortado a receita do petróleo do Estado Islâmico em cerca de um terço. Em solo, o Estado Islâmico perdeu uma série de cidades desde que tomou Ramadi, no Iraque, há quase um ano, sua última grande vitória em campo de batalha. As forças de segurança iraquianas, apoiadas por ataques aéreos americanos, retomaram Ramadi.

As forças iraquianas também retomaram a cidade de Baiji, no norte, com sua refinaria de petróleo. E as forças curdas e yazidis expulsaram os combatentes do Estado Islâmico da cidade de Sinjar, no norte.

Nas últimas semanas, ataques aéreos americanos mataram, segundo autoridades do governo, importantes líderes do Estado Islâmico: o ministro da guerra do grupo, Omar al-Shishani (Omar, o tchetcheno), e um alto comandante, Abd al-Rahman Mustafa al-Qaduli. Um especialista em armas químicas do Estado Islâmico, Sleiman Daoud al-Afari, foi capturado pelas forças das Operações Especiais americanas em fevereiro.

Ao mesmo tempo, as autoridades reconhecem que o Estado Islâmico tem conseguido repor muitos de seus líderes e que a remoção de figuras importantes do campo de batalha não necessariamente acaba com o grupo.

Juntamente com os esforços militares para minar as finanças do Estado Islâmico, o Tesouro americano e seus pares europeus estão buscando vários caminhos para cortar o fluxo de dinheiro para o grupo, e impedi-lo de usar o sistema bancário internacional. Eles persuadiram o Iraque a proibir as agências bancárias nas cidades controladas pelo Estado Islâmico de realizarem transferências internacionais, ordenando que em vez disso todos os pedidos sejam encaminhados ao banco central em Bagdá, onde, em teoria, podem ser interceptados e impedidos.

Os Estados Unidos, os países europeus e a Organização das Nações Unidas também buscam adicionar pessoas ou empresas associadas ao Estado Islâmico a listas negras financeiras.

Além disso, as autoridades americanas conseguiram convencer o governo iraquiano a finalmente parar de pagar salários às suas autoridades e funcionários que vivem nas áreas controladas pelo Estado Islâmico. Os pagamentos totalizavam cerca de US$ 170 milhões por ano, disseram autoridades americanas, e o Estado Islâmico ficava com cerca de 10% ou mais do valor de cada pagamento na forma de impostos.

A queda dos preços do petróleo, que os militantes costumam vender no mercado negro por cerca da metade do preço, também prejudica o Estado Islâmico, acreditam as autoridades americanas e europeias. Nesta época no ano passado, o petróleo era vendido por quase US$ 60 o barril; agora é vendido por cerca de US$ 45.

Enquanto isso, os ataques aéreos da coalizão atingiram pelo menos 10 depósitos onde o Estado Islâmico armazenava dinheiro. Em janeiro, um avião americano atingiu o que as autoridades disseram ser um estoque particularmente rico, e um vídeo feito momentos depois do prédio ser atingido por uma bomba mostrava colunas de papel-moeda lançadas ao ar.

Os militares dizem que dezenas de milhões de dólares foram incinerados, apesar de outras autoridades americanas e especialistas terem sido mais cautelosos em sua avaliação.

"Não há muita certeza sobre quanto dinheiro de fato virou fumaça", disse Howard Shatz, um economista sênior da RAND Corporation, que estuda as finanças do Estado Islâmico.

Independente de qual seja o valor, uma mentalidade de cerco parece ter se desenvolvido no território ainda mantido pelo Estado Islâmico.

"No momento a situação mudou, e há escassez de dinheiro em Mosul", disse Ayham Ali, um vendedor ambulante de sanduíches na cidade, em uma entrevista recente.

Obaida Nama, um engenheiro aposentado de lá, disse não acreditar que o Estado Islâmico vai durar. "A corrupção cometida pelo EI é o início de seu fim", ele disse.

Ainda assim, disse Derek Chollet, um ex-alto funcionário do Pentágono no governo Obama, "não acho que alguém vá declarar vitória agora, e nem deveria".

O Estado Islâmico "será um problema crônico que continuaremos enfrentando", ele acrescentou.

Fonte: The New York Times.

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