Encorajada por retirada russa, oposição síria volta a ter esperanças

"E ouvireis de guerras e de rumores de guerras;..." Mateus 24:6

18 de março de 2016.

Encorajados pela retirada russa, os negociadores esperam um desentrave das conversas de paz

Um certo otimismo reinava nos jardins do Palácio das Nações, na última terça-feira (15) em Genebra, entre a delegação da oposição síria reunida para marcar o quinto aniversário do levante na Síria.

O anúncio feito na véspera de que a Rússia retiraria parcialmente suas tropas voltou a dar esperanças de que o conflito, que já fez 270 mil mortos e 12 milhões de deslocados e refugiados, tenha uma solução política. Salem al-Mousalat, porta-voz do Alto Comitê de Negociações (HCN), que reúne os principais grupos da oposição, exprimiu o desejo de assentar as bases da futura Síria, "longe da cultura de ódio, de morte e de ditadura."

Ele recebeu o anúncio da Rússia como "um passo positivo que deverá permitir uma evolução nas negociações".

"É importante ver uma retirada total de todas as forças estrangeiras na Síria", ele acrescentou, dirigindo-se ao Irã. Embora tenha elogiado a decisão russa, através da voz de seu Ministro das Relações Exteriores, Mohammad Javad Zarif,

Teerã não tomou a iniciativa de nenhum movimento similar de retirada de tropas, e poderá voltar a fazer avanços na Síria, acredita um diplomata ocidental. Vilipendiada há seis meses pela oposição por ter reabilitado Bashar al-Assad e visado prioritariamente seus grupos armados em campo, a Rússia se viu cortejada pela oposição na terça-feira.

 

"A posição russa foi tão inaceitável para o povo sírio e particularmente para a oposição que não houve nenhum diálogo. É um erro que precisa ser remediado. Suponho que teremos um clima diferente nas próximas semanas", acredita Mondher Makhous, membro do HCN.

"Estou convencido de que Vladimir Putin só pode apoiar a ideia da saída de Bashar al-Assad. A Rússia não tem mais interesse em buscar a reconstrução da Síria e do Exército nacional?", sugeriu a porta-voz Bassma Kodmani, embora o Kremlin tenha insistido no fato de que essa retirada não era "de forma alguma" uma medida de retaliação contra Assad.

O chanceler russo, Serguei Lavrov, convidou os negociadores sírios a deixarem de lado suas ambições pessoais para chegarem a um acordo com base na resolução 2254.

O emissário especial das Nações Unidas para a Síria, Staffan de Mistura, considerou o anúncio russo um "desenvolvimento significativo que, esperamos, terá um impacto positivo sobre o progresso das negociações".

Ele anunciou que o especialista russo em Oriente Médio Vitaly Naumkin entraria para sua equipe de conselheiros, bem como um conselheiro americano. Após seu primeiro encontro com a delegação da oposição, no final da tarde, Mistura indicou que a força-tarefa humanitária abordaria a questão dos prisioneiros, como quer a oposição. O HCN também fez um apelo para que aumentem os esforços humanitários para as cidades sitiadas, a exemplo de Daraya.

Evitar um "atoleiro"

O emissário da ONU optou por manter neste momento o formato das negociações indiretas no ritmo de um encontro diário, apesar do desejo expresso pela oposição de "ver esse processo avançar rapidamente" e eventualmente abrir "negociações diretas". Ele defendeu sua escolha de não revelar as respectivas propostas de cada uma das partes antes de ter identificado as "intersecções, as contradições, ou até as argumentações em comum".

"Queríamos entender o que o regime tem para oferecer, porque é essencial para nós", alegou Bassma Kodmani, fazendo um apelo para que a delegação governamental faça "propostas de maneira clara e categórica".

No dia seguinte ao anúncio da Rússia, continuavam as dúvidas quanto à extensão e as razões dessa retirada. A Casa Branca afirmou não ter sido informada antes e se recusou a "especular sobre as motivações" russas.

"Segundo as primeiras indicações, os russos cumpriram" seu anúncio, se limitou a explicar o porta-voz Josh Earnest, considerando precipitada uma avaliação de seu impacto na prática e sobre as negociações em andamento em Genebra.

"Talvez estejamos diante da melhor oportunidade que tivemos em anos para dar um fim" ao conflito, avaliou o secretário de Estado americano, John Kerry, que anunciou que iria até Moscou na próxima semana.

O Pentágono relativizou as retiradas russas que foram observadas de fato até o momento, dizendo que "menos de uma dezena" de aparelhos russos haviam saído da Síria, dos cerca de 50 mobilizados por Moscou.

A mídia russa divulgou uma avalanche de imagens para acompanhar a volta, na terça-feira, dos "heróis" e do primeiro grupo de caças-bombardeiros SU-24 para suas bases permanentes na região de Voronej. A volta de um grupo de caças SU-25 foi anunciada para quarta-feira.

O chefe da diplomacia britânica, Philip Hammond, pediu por cautela, lembrando quando os russos prometeram se retirar da Ucrânia e "por fim houve uma simples troca de rotina das tropas."

O caso da Ucrânia nunca está longe da questão síria. Após a ligação de Vladimir Putin a Barack Obama na noite de segunda-feira, para lhe anunciar a retirada da "maior parte" das tropas russas da Síria, o próprio chefe do Kremlin abordou o assunto ressaltando "a necessidade de um cumprimento completo dos acordos de Minsk pelas autoridades ucranianas".

Ainda que Putin se gabe de ter evitado um "atoleiro" na Síria, o entrave na Ucrânia parece ser bem real. O Kremlin tem tomado diversas iniciativas junto às chancelarias ocidentais para encontrar uma saída por cima desse conflito, que motivou a decisão da União Europeia de prorrogar as sanções contra a Rússia até setembro.

Fonte: Le Monde.

voltar para Guerras

fwR fsN tsY show center|left tsN fwR|show fwR center|bnull||image-wrap|news login uppercase b01 bsd|fsN fwR uppercase b01 bsd|b01 c05 bsd|login news fwR uppercase b01 bsd|tsN fwR uppercase b01 bsd|fwR uppercase|content-inner||