Curilas, uma ferida aberta que impede Japão e Rússia de assinarem a paz

"E ouvireis de guerras e de rumores de guerras;..." Mateus 24:6

16 de novembro de 2016.

 

Curilas do Sul, Territórios do Norte... o nome é o de menos. O mais importante é a profunda brecha que está por baixo destas ilhas, uma ferida que data da Segunda Guerra Mundial e que ainda hoje impede Japão e Rússia de assinarem um tratado de paz.

Apenas 5.800 metros separam o Cabo Nosappu, ponto mais ao leste do país do sol nascente, da inóspita ilhota de Moemoshiri, o mais ocidental deste arquipélago situado no Pacífico Norte e administrado desde 1945 pela União Soviética e - após sua dissolução - pela Rússia.

Esta distância pode ser coberta em um veículo motor em questão de poucos minutos, mas parece quase infinita no imaginário daqueles japoneses que, 71 anos depois do desembarque do Exército Vermelho - que começou a invadir as ilhas três dias depois que Tóquio anunciou sua rendição -, continuam sem poder retornar normalmente ao lugar que lhes viu nascer.

Hiroshi Tokuno, de 82 anos, é um deles. Para ele os Territórios do Norte, ou Mil Ilhas do Sul, como são conhecidas no Japão, são algo mais que um espinhoso assunto diplomático.

Custa imaginar por que alguém queira voltar a um lugar banhado por um mar tão gélido e varrido incessantemente por fortíssimos ventos que parecem anunciar o fim dos tempos.

No entanto, o rosto de Tokuno se ilumina quando fala de sua almejada Shikotan, uma das três grandes ilhas que, somada às ilhotas Habomai (onde se inclui Moemoshiri), integra o controvertido grupo das Curilas do Sul, como Moscou as chama.

Tokuno fala de montes, pradarias e velhas luzes de madeira. E de pesca, principalmente de pesca, setor no qual estava envolvida toda sua família, da mesma forma que quase todos os moradores deste arquipélago.

"Se pudesse voltar atualmente, iria direto com meu barco pescar nos mesmos lugares nos quais meu avô me dizia que sempre havia os melhores cardumes", declarou, entusiasmado.

Ele teve a sorte de voltar a pisar em Shikotan dentro de um programa do governo russo que permite visitas temporárias com isenção de vistos para antigos residentes.

A primeira vez foi em 1991, 43 anos depois que os soviéticos o amontoaram junto com sua família e outras centenas de ilhéus em um navio que os levaria primeiro a Sakhalin e depois à ilha japonesa de Hokkaido em uma travessia desumana que custou a vida dos tripulantes mais frágeis, entre eles seu sobrinho de dois anos.

O ferrenho apego por estas terras fez com que a arrasadora maioria dos que foram expulsos das ilhas - pouco mais de 17 mil pessoas - decidissem ir viver em Nemuro, município de Hokkaido do qual podem avistá-las à distância no Cabo Nosappu.

Quase todos os que ainda vivem lá - cerca de 6.500 - puderam retornar durante algumas horas ao lugar que foi seu lar graças ao programa de isenção de vistos, mas o processo para ser selecionado é longo e complexo e as ocasiões para realizar as visitas, poucas.

As Curilas e o ansiado tratado de paz serão, sem dúvida, o principal foco de atenção quando o presidente russo, Vladimir Putin, visitar o Japão em meados de dezembro para se reunir com o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe.

A cúpula virá marcada por uma mudança na postura que Tóquio sustentou nas últimas décadas e que passava por reivindicar a devolução das três ilhas e as Habomai como passo prévio à assinatura de um tratado de paz.

A inércia de Moscou, que considera que arrebatou legitimamente os territórios ao término da Segunda Guerra Mundial, levou o governo Abe a cogitar aceitar o que ambos países pré-estabeleceram em uma declaração conjunta de 1956 que estipulava a transferência ao Japão apenas de Shikotan e das Habomai.

Tóquio pensa em propor também a administração conjunta das outras duas grandes ilhas, Etorofu e Kunashiri, uma ideia que a associação de ex-residentes à qual pertence Tokuno e o próprio município de Nemuro parecem já resignados a aceitar.

Esta nova postura contrasta com todos os cartazes que ainda ocupam cada canto desta cidade reivindicando, com sinais de exclamação e tanto em japonês como em russo, a imediata devolução dos Territórios do Norte.

Isso também porque as ilhas são um elemento econômico-chave para esta cidade de 27 mil moradores que também se dedica fundamentalmente à pesca.

A devolução das Habomai e de Shikotan representaria o retorno ao Japão de 40% das águas territoriais perdidas com a invasão soviética, ressaltou o vice-prefeito de Nemuro, Masatoshi Ishigaki, que como tantos ali é filho de ex-residentes das ilhas.

Enquanto isso, os pescadores de Nemuro se veem obrigados a pagar a cada ano 460 milhões de ienes (cerca de R$ 14,8 milhões) às autoridades russas para poder trabalhar a apenas três quilômetros da cidade.

Tudo para ter acesso a estas águas ricas em caranguejos e bacalhau e ideais para o cultivo de algas.

A maioria dos ex-moradores (cuja média de idade é de 81 anos) acredita que a esta altura qualquer opção é boa levando em conta que o tempo deles está se esgotando.

É o caso de Tokuno, que viu seus pais morrerem sem poder retornar jamais a sua ilha e que só pensa todas as horas em apenas uma coisa: poder voltar a sondar a margens de sua amada Shikotan.

Fonte: EFE

voltar para Guerras

fwR fsN tsY show center|left tsN fwR|show fwR center|bnull||image-wrap|news login uppercase b01 bsd|fsN fwR uppercase b01 bsd|b01 c05 bsd|login news fwR uppercase b01 bsd|tsN fwR uppercase b01 bsd|fwR uppercase|content-inner||