Crise humanitária em Aleppo: Entenda a 'miniguerra mundial' em curso na Síria

"E ouvireis de guerras e de rumores de guerras;..." Mateus 24:6

19 de agosto de 2016.

A imagem de um menino coberto de sangue e poeira, resgatado de um prédio bombardeado em Aleppo, se tornou um novo símbolo do sofrimento humano na guerra civil síria, a qual se arrasta há cinco anos e já resultou em mais de 250 mil mortes.

Identificado como Omran Daqneesh, 5, o menino foi tratado de ferimentos na cabeça na noite de quarta-feira, segundo um médico local.

Os combates entre tropas do governo e rebeldes escalonaram nas últimas semanas em Aleppo, deixando centenas de mortos na cidade que já foi um polo comercial e industrial sírio.

Na manhã desta quinta-feira, o enviado especial da ONU Staffan de Mistura pediu "um gesto de humanidade" de ambos os lados e instou por um cessar-fogo de 48 horas que permita a chegada de ajuda humanitária aos 2 milhões de moradores que permanecem na cidade.

Há frustração na ONU porque, desde o início do mês, nenhum comboio sequer de ajuda humanitária foi autorizado a entrar em áreas sitiadas sírias, onde a população está "desesperada por comida e medicamentos".

AMC
O 'horror de Aleppo' em imagem de menino que sobreviveu a ataque aéreo na Síria

Forças em jogo

A guerra civil síria opõe forças locais, regionais e internacionais, em um conflito tão complexo que líderes mundiais, militares e jornalistas estão ficando sem termos e comparações históricas para descrevê-lo.

E, no campo de batalha, aliados e inimigos se confundem.

No início deste ano, o jornal "The Washington Post" descreveu o que ocorre hoje na Síria como uma "miniguerra mundial".

"Aviões russos bombardeiam pelo alto. Milícias iraquianas e libanesas com apoio de iranianos avançam em solo. Um grupo variado de rebeldes sírios respaldados por Estados Unidos, Turquia, Arábia Saudita e Catar tenta conter essas milícias", descreveu a publicação.

"Forças curdas - aliadas tanto a Washington como a Moscou - aproveitam o caos e expandem território. O (grupo extremista autodenominado) Estado Islâmico (EI) domina pequenos povoados enquanto a atenção se volta a outros grupos", completou.

Nem mesmo essa explicação descreve de forma plena todos os conflitos que ocorrem no tabuleiro sírio, como a complexa guerra particular da Turquia contra grupos curdos na Síria.

A Turquia foi envolvida no conflito sírio desde cedo, e seu governo foi um dos primeiros a defender a queda do presidente da Síria, Bashar al-Assad.

Isso opôs Ancara ao governo russo, principal fonte de apoio de Assad. Em novembro passado, a Turquia derrubou um avião militar russo que estava em missão para bombardear rebeldes sírios, estremecendo a relação bilateral.

A Rússia, por sua vez, vinha intensificando os ataques aéreos em diversas áreas sírias nas últimas semanas, inclusive em Aleppo, segundo a Al-Jazeera.

Nesta quinta-feira, depois das imagens chocantes do menino de cinco anos, o Exército russo disse que apoiará o pedido da ONU por um cessar-fogo de 48 horas.

Histórico

O conflito armado que começou com protestos antigoverno que cresceram até dar origem a uma guerra civil total. Mais de 11 milhões de pessoas tiveram que deixar suas casas, em meio à batalha entre forças leais a Bashar al-Assad e oposicionistas - e também sob a ameaça de militantes radicais do Estado Islâmico.

Os protestos pró-democracia começaram em março de 2011, na cidade de Daraa, após a prisão e tortura de adolescentes que haviam pintado slogans revolucionários no muro de uma escola.

Forças de segurança abriram fogo contra manifestantes, o que provocou mortes e alimentou a insurgência por todo o país - em julho daquele ano, centenas de milhares tomavam as ruas.

A violência se intensificou e o país entrou em guerra civil quando brigadas rebeldes foram formadas para enfrentar forças do governo pelo controle de cidades e vilas. A batalha chegou à capital, Damasco, e a Aleppo, segunda cidade do país, em 2012.

O conflito hoje é mais do que uma disputa entre grupos pró e anti Assad. Adquiriu contornos sectários, jogando a maioria sunita contra o ramo xiita alauita de Assad. E o avanço do EI deu uma nova dimensão à guerra.

O conflito também mudou muito desde o início. Moderados seculares hoje são superados em número por islâmicos e jihadistas, adeptos de táticas brutais que motivam revolta pelo mundo.

O EI se aproveitou do caos e tomou controle de grandes áreas na Síria e no Iraque, onde proclamou a criação de um "califado" em junho de 2014. Seus integrantes estão envolvidos numa "guerra dentro da guerra" na Síria, enfrentando rebeldes e rivais jihadistas da Frente al-Nusra, ligada à Al-Qaeda, bem como o governo e forças curdas.

Em setembro de 2014, uma coalizão liderada pelos EUA lançou ataques aéreos na Síria em tentativa de enfraquecer o EI. Mas a coalizão evitou ataques que poderiam beneficiar as forças de Assad. Em 2015, a Rússia iniciou campanha aérea alvejando terroristas na Síria, mas ativistas da oposição dizem que os ataques têm matado civis e rebeldes apoiados pelo Ocidente.

Há evidências de que todas as partes cometeram crimes de guerra - como assassinato, tortura, estupro e desaparecimentos forçados. Também foram acusadas de causar sofrimento civil, em bloqueios que impedem fluxo de alimentos e serviços de saúde, como tática de confronto.

Novas definições

A definição básica de guerra como "duelo entre inimigos" não se aplica a todo conflito. Pode ser útil, por exemplo, para descrever a Guerra Fria entre Washington e Moscou desde o fim da Segunda Guerra Mundial até a queda da União Soviética, mas é inútil para iluminar a variedade de forças e interesses em jogo na Síria.

Nessa dinâmica particular de aliados e inimigos, os EUA estão em desacordo com a Rússia pelo destino do presidente Assad, aliado de Moscou que Washington deseja fora do poder.

Há ainda uma inesperada aproximação entre EUA e Irã, países unidos pela aversão a extremistas sunitas, mas distanciados pelo apoio iraniano a Assad e à guerrilha libanesa Hezbollah, considerada organização terrorista pela Casa Branca.

A Turquia, por sua vez, atacou posições de milícias curdas na Síria, as chamadas Unidades de Proteção do Povo Curdo (YPG), braço armado do Partido da União Democrática (PYD), aliado tradicional do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), perseguido há 30 anos na Turquia por buscar autonomia curda no país. E o território turco tem sido vítima de graves atentados a bomba atribuídos a extremistas.

Enquanto isso, no teatro de operações na Síria e no Iraque, curdos turcos, curdos iraquianos e governo turco estão contra o EI.

O general prussiano Carl von Clausewitz (1780-1831) uma vez definiu guerra como "mera continuação da política por outros meios".

No confuso cenário militar sírio, no entanto, a violência que custou a vida de centenas de milhares de pessoas é a face visível e real do conflito. Políticas e interesses de governos por trás das forças que se enfrentam em terra são, muitas vezes, os pontos mais obscuros.

Fonte: BBC.

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