Como armas compradas pelos EUA acabaram nas mãos do Estado Islâmico

"E ouvireis de guerras e de rumores de guerras;..." Mateus 24:6

22 de novembro de 2016.

Armas que deveriam estar nas mãos dos combatentes apoiados pelas forças ocidentais na Síria estão indo para o autodenominado grupo Estado Islâmico (EI) no vizinho Iraque. Mas como isso está acontecendo?

James Bevan e sua pequena equipe entram pisando cuidadosamente em uma casa na cidade de Qaraqosh, não muito distante de Mossul, no norte do Iraque.Um rastro de sangue logo na porta de entrada e roupas próprias para um ataque suicida confirmam a informação recebida da milícia local - o local era usado por combatentes do EI.

O grupo de Bevan faz parte do setor de Investigação de Armamentos em Conflitos (CAR, na sigla em inglês), organização britânica fiannciada em parte pela União Europeia que rastreia e levanta informações sobre suprimento de armas em zonas de conflito. Em busca de evidências, os investigadores levam apenas notebooks e câmeras.

A casa tem ainda vestígios da família que ali vivia: roupa de cama e peças de vestuário espalhadas pelos cômodos. Mas num quarto dos fundos, a equipe encontra o que buscava - caixas vazias de munição.

Eles conversam enquanto tomam notas e tiram fotos. O objetivo é entender como as armas foram parar nas mãos erradas.

"A comunidade internacional tem estado cega para o fato de que armas estão sendo desviadas para áreas de conflito", explica Bevan.

A equipe da CAR trabalha próximo da linha de frente dos combates, em áreas recentemente retomadas do EI. Munições podem ser examinadas, mas as caixas vazias são mais úteis porque têm números de série e da quantidade que continham.

A numeração das caixas é inserida pela equipe de Bevan numa base de dados para rastrear como o material saiu da fábrica e chegou a uma zona de conflito.

'Receita' para fazer bomba

Qaraqosh, uma cidade predominantemente cristã, se tornou cenário de uma devastação quase apocalíptica - prédios reduzidos a escombros, crateras nas ruas, torres de igreja tombadas.

As ruas estão estranhamente silenciosas. Todos os moradores saíram quando o EI chegou. E o EI só deixou a cidade no fim do mês passado, após a ofensiva para libertar Mossul.

Durante o dia, uma milícia cristã local patrulha a cidade, mas há relatos de que à noite combatentes do EI às vezes voltam.

Visitamos uma igreja e encontramos três fiéis. Eles lembraram exatamente quando foi a última celebração ali - às 16h do dia 6 de agosto de 2014.

Depois, eles fugiram para a cidade de Erbil e só voltaram rapidamente para ver o que restara do templo.

Os quadros em torno do altar foram rasgados e o prédio saqueado. No salão da igreja, a equipe da CAR encontra sinais de que o local também era usado pelo EI como uma fábrica de armas.

Partes de foguetes estão espalhadas pelo chão. Ao lado de uma vasilha com produtos químicos, uma "receita" - escrita à mão - de como misturar explosivos.

O EI tentou fazer uma linha de produção de armas em massa nas áreas que controlava e criou fábricas de morteiros artesanais. Mas também há sinais de que os materiais usados vieram de outros países.

Compras em massa

Perto dos bancos da igreja há sacos com produtos químicos - a equipe da CAR já viu isso antes. Eles são vendidos no mercado interno da Turquia, mas grandes quantidades chegam ao EI.

"Ao analisarmos as armas artesanais e os explosivos caseiros, sabemos que eles compram grandes quantidades, principalmente no mercado turco", diz Bevan.

"A rede de compradores do EI chega ao sul da Turquia e certamente tem relacionamentos muito fortes com distribuidores bem grandes."

Em alguns casos a CAR encontrou provas de que três mil a cinco mil sacos de produtos químicos tinham sido comprados com um mesmo número de lote.

"Alguém foi lá (na Turquia) e comprou metade do estoque de uma fábrica", diz.

O EI não tem problema para se armar - e o levantamento da CAR indica que em parte isso se deve às armas levadas para a zona de conflito pelos grupos em luta.

O papel da Turquia

O comércio de armas é um mundo sombrio e oculto, mas a equipe de Bevan encontrou pistas da fonte da munição usada pelo EI.

Na fase inicial do conflito, a maior parte foi conseguida no campo de batalha, de forças iraquianas e sírias. Mas desde o fim de 2015, os investigadores começaram a ver o surgimento de outra importante fonte.

Caixas de munição encontradas foram rastreadas até fábricas no leste europeu.

A equipe de Bevan fez contato com vários países da região.

Eles descobriram que o material tinha sido vendido - legalmente - para os governos dos Estados Unidos e da Arábia Saudita. Em seguida fora embarcado pela Turquia.

O destino eram os grupos de oposição (apoiados pelos EUA e pelos sauditas) no norte da Síria que combatem as forças do presidente sírio Bashar al-Assad.

A intenção nunca foi fazer a munição chegar ao EI, mas em algum ponto do caminho ela foi desviada.

Esta munição foi encontrada nas cidades de Tikrit, Ramadi, Falluja e agora em Mossul - todos lugares onde acabou sendo usada para combater as forças iraquianas apoiadas pelos EUA.

A rapidez com que o EI está conseguindo esse material é alarmante - algumas vezes apenas dois meses depois de sair da fábrica.

"Se você fornece armas e munição para grupos que não são estados e estão envolvidos em um confito muito complexo e interligado, o risco de desvio é muito, muito alto", explica Bevan.

Mapeando o fluxo das armas

Talvez o paralelo mais próximo para o problema do desvio de armas tenha sido o apoio que os EUA e aliados deram aos combatentes mujahedin, que lutavam contra a antiga União Soviética no Afeganistão, nos anos 1980.

Naquela ocasião, as armas estavam sendo enviadas para alguns grupos aprovados pela CIA (o serviço de inteligência americano), mas eram canalizadas para o serviço secreto do Paquistão e, às vezes, iam para outros grupos que combatiam a União Soviética e tinham propostas ainda mais radicais, como a rede Al-Qaeda do falecido Osama Bin Laden.

A situação atual é ainda mais complexa e confusa do que a do Afeganistão nos anos 80. Hoje, são conflitos em dois países, Iraque e Síria, com um número bem maior de países apoiando grupos diversos.

Bevan acredita que traçar a rota das armas é o primeiro passo para evitar o desvio.

"Nós podemos ir ao fabricante e dizer: essas armas são suas e sabemos que você as vendeu legalmente, mas o seu comprador as transferiu sem autorização. Então você tem um problema e agora precisa fazer algo em relação a ele."

A prova da destruição provocada pelas armas está em toda parte no Iraque e na Síria. Tentar conter esse fluxo não será fácil enquanto outros Estados estiverem apoiando grupos simpatizantes locais.

E no caos deste conflito não há garantia de quem vai terminar pondo as mãos nas armas nem de como elas serão usadas.

Fonte: BBC

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