Bomba suja do Estado Islâmico é hipótese aterrorizante, mas pouco provável

"E ouvireis de guerras e de rumores de guerras;..." Mateus 24:6

04 de maio de 2016.

A propaganda realizada pelo Estado Islâmico tenta fazer com que as pessoas acreditem que os terroristas terão uma arma nuclear. Os Estados Unidos, que no início de abril concluíram um ciclo de quatro cúpulas sobre segurança nuclear, mostram-se preocupados com a Síria e o Iraque, ainda mais porque persiste a dúvida sobre a existência de um programa militar sírio. E as agências de inteligência ocidentais sabem que há jihadistas tentando se apoderar de materiais radioativos, que são menos nocivos que os componentes militares pois são pouco enriquecidos.

No entanto, não existe nenhum precedente sério de terrorismo nuclear. Em 1996, rebeldes chechenos colocaram em um parque de Moscou uma bomba, que permaneceu inerte, contendo dinamite e césio. Em 1998, perto de Grozny, outros chechenos confeccionaram uma bomba cujas substâncias radioativas não foram identificadas. Em 2003, as agências de inteligência britânicas tiveram a prova de que a Al Qaeda teria conseguido fabricar uma pequena bomba suja no Afeganistão, que não foi encontrada.

Os especialistas pedem para que se tenha bom senso diante da atual ameaça. Eles descartam a possibilidade de que se apoderem de um míssil nuclear já existente, uma vez que são muito complexos o acesso e o funcionamento dessas armas, ou ainda de que confeccionem uma bomba militar, algo fora de alcance para um grupo terrorista sem o apoio de um Estado. Para o ataque a uma usina nuclear civil, "o risco é real", afirmaram dois especialistas americanos, Graham Allison e William Tobey, no "New York Times" de 5 de abril. Isso "não matará centenas de milhares de pessoas, mas dispersará grandes quantidades de radiação, desencadeará pânico entre a população e tornará partes imensas de território inabitáveis."

Mas é a quarta hipótese, a de uma bomba suja, feita de componentes radioativos civis, que é considerada a mais plausível. A bomba seria uma combinação de explosivos e de componentes, resíduos industriais, hospitalares ou provenientes de reatores de pesquisa. Elisabeth Eaves diz na respeitada publicação "Bulletin of Atomic Scientists": "Se você é do tipo otimista, pode se tranquilizar pensando que o cenário mais sinistro é também o menos provável."

"A bomba radioativa é a soma de todos os medos, ainda que a probabilidade final de uso seja muito pequena", resume Benjamin Hautecouverte, pesquisador da Fundação para a Pesquisa Estratégica em Paris. "A ideia seria sobretudo provocar um efeito de pânico, realizável em um local limitado, e não uma destruição em massa", ele observa. "Os danos humanos seriam menores que aqueles causados por AK-47s ou uma bomba convencional."

 

A lista (por natureza não exaustiva) dos incidentes registrados pela Agência Internacional da Energia Atômica (AIEA) indica os limites do problema. O número de incidentes, 2.734 no período entre 1993 e 2014, parece elevado, mas somente 442 deles foram atos criminosos, de posse ilegal ou movimentações suspeitas para tráfico de materiais nucleares e radioativos. Entre eles, os casos preocupantes são ainda mais reduzidos, sejam eles envolvendo urânio altamente enriquecido (13 incidentes), plutônio (3 casos) ou fontes de plutônio e berílio (5 casos). Os tráficos têm mais a ver com um "mercado de oferta" do que com uma demanda organizada: eles são ações de pessoas que podem acessar materiais radioativos e aproveitam a oportunidade para fazer uma transação financeira.

Um custo econômico

Um último elemento permite relativizar a ameaça: a quantidade de material envolvido. "Um pequeno número desses incidentes diz respeito à apreensão de quantidades em quilogramas de material nuclear de uso potencialmente militar, mas a maioria se conta em gramas", diz o resumo da AIEA de 2015. Só que essa é a questão principal. "Para dispersar eficazmente matéria radioativa por explosão, são necessárias grandes quantidades", ressalta Benjamin Hautecouverture. Ou seja, volumes que se contam em dezenas de quilos. Ao afirmar no início de abril em Washington que "uma mínima quantidade de plutônio --do tamanho de uma maçã, aproximadamente-- poderia matar e ferir centenas de milhares de pessoas inocentes", Barack Obama exagerou, segundo especialistas.

Desde o colapso do bloco soviético, os países não subestimaram a ameaça nuclear, e tivemos desde a atuação da AIEA até planos do G-8 contra a disseminação de materiais de destruição em massa, passando por programas americanos de redução de riscos radiológicos, iniciativas russo-americanas contra o terrorismo nuclear. A França também reavaliou seus planos. Desde 2008, cooperações permitiram repatriar reatores de pesquisa para lugares seguros, como Kinshasa, na República Democrática do Congo (RDC), e Cocody, na Costa do Marfim. "Nós guardamos de forma segura uma quantidade de matéria equivalente a 150 armas, materiais que nunca cairão nas mãos de terroristas", declarou o presidente Obama após a cúpula de Washington.

O impacto mais temível da bomba suja seria seus custos econômicos, que envolveria limpeza do local e neutralização de uma instalação vital, e psicológicos. Será que esses efeitos serão considerados suficientemente impactantes para uma organização terrorista que procura chocar a opinião pública através do terror? Sem conseguir responder com certeza, os políticos estão tensos com essa análise realista da ameaça: eles não podem cometer um erro nessa área.

Fonte: Le Monde.

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