Batalha por Sirte provoca pesadas baixas entre forças que combatem o EI

"E ouvireis de guerras e de rumores de guerras;..." Mateus 24:6

24 de junho de 2016.

Combatentes aliados ao novo governo de unidade da Líbia dispara contra posições do Estado Islâmico na região de Algharbiyat, em Sirte

No meio da noite, Baha al-Marouq viu o carro andar em sua direção, mas já era tarde demais. Sua equipe se encaminhava rumo ao centro da cidade de Sirte, a partir da rotatória de Zaffran, limite a oeste da cidade que fora "libertada" uma semana antes.

Avançar para o cerne do bastião da organização do Estado Islâmico (EI), sitiado por todos os lados, última grande área urbana de 20 km² barricada como uma fortaleza, certamente era se expor.

A noite escura como breu das 2h da madrugada não bastou para proteger os homens de Baha al-Marouq, milicianos anti-EI provenientes de uma brigada de Janzour, vilarejo a oeste de Trípoli.

Depois da explosão do carro-bomba, ele não se lembra mais de grande coisa. Somente os segundos que a antecederam continuam claros: "Vimos esse carro chegar de repente".

Os "métodos sujos" do EI

Al-Marouq fala com dificuldade, em uma voz fraca e com olhar consternado. Fragmentos de metal entraram em sua bacia, e agora ele está em um leito no hospital central de Misrata, metrópole portuária situada 225 km a oeste de Sirte que serve de base de apoio para a ofensiva iniciada no dia 12 de maio contra a principal praça forte do EI na Líbia.

O miliciano guardou a camiseta preta que ele usava durante sua patrulha. Ele não teve sorte: tinha acabado de chegar ao front, atrás de todos esses homens da Tripolitânia (oeste) que ajudavam na operação anti-EI em Sirte, batizada de "Al-Bunyan al-Marsous."

Al-Marouq entende de combates. Durante a revolução anti-Gaddafi de 2011, ele havia se machucado no ombro. Dessa vez, as coisas lhe parecem diferentes: "Essa guerra é mais difícil por causa de seus métodos sujos", que seriam os atentados suicidas, desconhecidos na época.

Ao seu redor, os quartos do hospital central estão lotados. O cúmulo do azar foi que a invasão a Sirte teve início quando o prédio principal do complexo estava fechado para reparos.

Reuters
Restos de um carro-bomba que atingiu uma delegacia de polícia em Sirte
 

Os homens feridos na batalha se concentraram então no único pronto-socorro, já sobrecarregado. Depois de enfrentar uma falta de medicamentos após a primeira semana de combates, o estabelecimento acaba de ser reabastecido a partir de Trípoli.

Por ironia do destino, o socorro veio de uma estrutura que ainda depende do chamado governo de "salvação nacional", entidade residual oriunda do antigo bloco político-militar Fajr Libya, ou seja, o rival no oeste líbio do governo de "união nacional" dirigido por Faiez Sarraj, ativamente apoiado pela ONU e pelas capitais ocidentais.

O detalhe diz muito sobre as dificuldades do novo governo, o mesmo que desencadeou a ofensiva anti-EI em Sirte, em assumir a intendência dessa campanha.

O fluxo de feridos expõe sobretudo as carências do sistema médico líbio, gritantes desde a revolução de 2011, em especial a falta de pessoal. Médicos e enfermeiros estrangeiros, principalmente vindos do leste europeu ou da Ásia, formavam historicamente o grosso dos efetivos hospitalares do país.Só que a esmagadora maioria deles fugiu do país nos últimos anos, tendo sua ausência cruelmente sentida.

"Em Misrata, neste momento, existe um enfermeiro para cada trinta pessoas", lamenta Mohammed al-Ajnaf, um estudante de medicina alistado às pressas para preencher as lacunas. "Às vezes passam-se duas horas até que um enfermeiro possa começar a cuidar de um paciente."

"Ninguém nos ajuda"

Esses problemas não ajudam a aliviar um balanço já pesado de perdas humanas dessa guerra. Desde o início das manobras no dia 12 de maio, as forças afiliadas ao governo de Sarraj tiveram cerca de 170 mortos e 700 feridos, vítimas em sua maior parte de minas, carros-bomba e tiros de franco-atiradores.

O número é elevado, se considerar um efetivo global avaliado em torno de 4 mil combatentes. Há dias em que chegam 40 feridos a Misrata.

Ramadan Assadaoui tem os olhos fechados, a respiração pesada, e um imenso hematoma em torno de seu olho esquerdo. A bala entrou por cima de sua têmpora e não saiu. Cerca de dez dias atrás, sua brigada caiu em uma emboscada perto do porto de Sirte, que por fim foi conquistado alguns dias depois.

"Nós estávamos descansando quando o Daesh [acrônimo árabe do EI] nos atacou", ele diz, respirando com dificuldades.

Sentado ao seu lado, seu irmão Omar não consegue disfarçar sua raiva. Ele está ansioso por ver seu irmão sendo levado para outro país, onde, ele espera, consigam extrair essa maldita bala. Já houve evacuações para a Tunísia, a Turquia, a Argélia e a Itália.

Mas Assadaoui continua a esperar, e Omar perde a paciência.

"Ninguém nos ajuda", ele esbraveja. Tudo que ele quer é recuperar o passaporte de seu irmão, que hoje está nas mãos das autoridades, e levá-lo ele mesmo até a Tunísia, de onde ele pretende ir para outro país onde buscar tratamento.

Assim como Omar, alguns feridos e seus familiares mostravam descontentamento. Na mesma noite, o saguão de um hotel de Misrata foi invadido por uma dezena de feridos, mancando, com tipoias no braço, engessados ou enfaixados. Eles gritavam, exigindo encontrar representantes do conselho municipal cujo escritório está instalado no estabelecimento.

"Queremos um tratamento médico digno", gritavam. Aquela noite foi de revolta para os feridos da ofensiva de Sirte. Para uma batalha emblemática da luta internacional contra o EI, o barulho soava estranho, e pairava como um amargo sentimento de solidão.

Fonte: Le Monde.

voltar para Guerras

fwR fsN tsY show center|left tsN fwR|show fwR center|bnull||image-wrap|news login uppercase b01 bsd|fsN fwR uppercase b01 bsd|b01 c05 bsd|login news fwR uppercase b01 bsd|tsN fwR uppercase b01 bsd|fwR uppercase|content-inner||