Batalha por Mosul: ONU se prepara para caos após possível expulsão do Estado Islâmico

"E ouvireis de guerras e de rumores de guerras;..." Mateus 24:6

17 de outubro de 2016.

A ofensiva militar iraquiana iniciada nesta segunda-feira (17) para retomar a cidade de Mosul, reduto do grupo autodenominado Estado Islâmico, pode levar até um milhão de pessoas a deixarem suas casas.

O Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados) relatou à BBC como está se preparando, ao lado de parceiros, para a esperada crise humanitária, com a construção de campos para abrigar os necessitados.

A operação para expulsar o Estado Islâmico da segunda maior cidade do Iraque ocorre mais de dois anos após os jihadistas terem tomado Mosul e proclamado seu califado.

Com base na experiência de ofensivas anteriores, como a que ocorreu na cidade de Fallujah, o Acnur e seus parceiros estão intensificando os planos de contingência, diz Bruno Geddo, representante da agência da ONU no Iraque.

Por exemplo, o Exército iraquiano tem encorajado os habitantes de Mosul a permanecerem em suas casas, quando possível, em vez de fugir por estradas abertas, onde podem ficar mais vulneráveis a ataques.

"O Estado Islâmico conhece as rotas para sair da cidade e vai matar as pessoas que estiverem fugindo", afirma Geddo. "Há apenas uma estreita rota segura. Se muitas pessoas tentarem usá-la, haverá gargalos, que são sempre perigosos. Eles são fáceis de atacar".

Geddo diz esperar que o Exército iraquiano consiga manter as pessoas em suas casas, mas diz que tal plano é de difícil execução. Por essa razão, o Acnur e seus parceiros estão se preparando para o pior.

"Se [a situação na cidade] for controlada da maneira certa pelo Exército iraquiano, as pessoas não poderão fugir de Mosul", afirma. "Se o fluxo for descontrolado, haverá caos e desespero."

'Um milhão de desalojados'

Estima-se que 3,3 milhões de pessoas - equivalente a quase 10% da população do Iraque - tenham deixado suas casas desde o início do conflito, no começo de 2014. Os que agora deixam Mosul e seus arredores se juntam a quase meio milhão de pessoas que fugiram da cidade em junho de 2014.

Não há números exatos sobre quantas pessoas permanecem em Mosul, mas a cidade contava com mais de 2 milhões de habitantes quando o Estado Islâmico a tomou mais de dois anos atrás. Bruno Geddo estima que a população pode estar agora "entre 1,2 e 1,5 milhão de pessoas".

A ONU estima que até um milhão de pessoas possam ser desalojadas em decorrência da ofensiva militar em curso, dentre as quais 700 mil vão precisar de abrigo. Esse pode ser um dos maiores desalojamentos causados pelo homem nos últimos tempos.

Com os níveis atuais de financiamento, o Acnur se diz capaz de acomodar 20 mil famílias - ou 120 mil pessoas. Outros grupos que trabalham com a agência estimam que possam ajudar outras 50 mil famílias.

Campos de emergência

"Teremos cinco novos campos permanentes até o final de outubro e esperamos oferecer mais 20 campos de emergência próximos ao centro do conflito", diz o representante da agência da ONU no Iraque.

Por precaução, a localização desses campos de emergência não pode ser revelada no momento.

 

  • Um "kit de abrigo de emergência" é fornecido quando não há tendas disponíveis nos campos
  • Cada kit custa entre US$ 79 e US$ 87 (R$ 252- R$ 278)
  • A ONU tem atualmente 50 mil unidades desses kits, e 5 mil deverão chegar ao Iraque por semana a partir de 18 de outubro. Mais 30 mil serão fornecidos pelos parceiros da ONU a partir de novembro.

Os campos de emergência precisam estar próximos à cidade para receberem os civis assim que eles escaparem. Por isso, sofrem "risco substancial" de "ataques a bomba e morteiro", adverte Geddo.

Ele diz que, até agora, a ONU identificou locais para quatro campos de emergência, e explica que o desafio é encontrar lugares seguros com terreno adequado para construir abrigos e abastecimento de água.

No passado, houve problemas com proprietários não dispostos a ceder terras à ONU.

Para criar mais espaço para as famílias, a ONU tentará retirar rapidamente os residentes dos campos para acomodações mais permanentes.

Geddo explica que uma opção é o "acordo de patrocínio", pelo qual civis são patrocinados por um membro da família, uma empresa ou uma instituição de caridade. Se conseguirem provar que terão assistência no local de destino, a ONU os auxilia a realizar a jornada.

Outro problema enfrentado pelo Acnur, diz o representante da agência da ONU no Iraque, é que muitos civis podem tentar escapar do conflito viajando para a Síria, onde a ONU está trabalhando com grupos parceiros para garantir a segurança das pessoas. "Isso é mais difícil, mas pode aliviar a pressão em nossos campos no Iraque".

Levantamento de fundos

O processo para assegurar fundos para a ajuda humanitária tem sido um desafio, mas tem avançado desde as crises anteriores, explica Geddo.

Anteriormente, grandes doações começavam a chegar apenas após ações serem divulgadas em programas de televisão.

No entanto, como a atual ofensiva tem sido planejada há bastante tempo, a ONU conseguiu levantar metade da meta de US$ 284 milhões (R$ 906 milhões).

"Nunca há dinheiro suficiente para qualquer situação humanitária, mas estamos mais preparados desta vez", diz o representante do Acnur.

Checagem dos campos

Outra lição aprendida, segundo Geddo, está relacionada à checagem de identidade das pessoas que entram nos campos.

Acusações de que militantes xiitas cometeram abusos durante checagens de segurança motivaram a decisão de concentrar essas operações com o Exército iraquiano.

"[O processo de checagem] é absolutamente fundamental. Será a primeira interação que muitas pessoas terão depois de dois anos sob o controle do Estado Islâmico. Deve ficar completamente claro que estamos ajudando e que o procedimento é normal", diz Geddo.

"Ninguém poderá ter acesso aos campos da ONU a menos que passem pela checagem de segurança. O processo pode levar dias".

Escudos humanos

O representante do Acnur disse ainda que há sinais de que o Estado Islâmico possa estar ficando sem dinheiro em Mosul.

Segundo os refugiados, os militantes têm aceitado pagamentos em dinheiro para deixar as pessoas escaparem da cidade.

"Anteriormente, a única forma de fugir era com um contrabandista", explica Geddo. "A pessoa chegava a pagar US$ 2 mil, mas era muito perigoso. Tanto o contrabandista como a família poderiam ser mortos caso fossem vistos tentando escapar."

"Recentemente, temos ouvido histórias não confirmadas de que o Estado Islâmico está aceitando US$ 10 mil e deixando as pessoas saírem da cidade."

Geddo acrescenta, porém, que o Estado Islâmico pode querer que habitantes de Mosul fiquem na cidade para usá-los em benefício próprio.

"Quando [os civis] fogem, eles tentam desacelerar as forças de coalizão usando os civis como escudos humanos".

Esse é outro aspecto da crise que a ONU e seus parceiros precisam se preparar para enfrentar.

Fonte: BBC.

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