Barack Obama e a Síria

"E ouvireis de guerras e de rumores de guerras;..." Mateus 24:6

19 de março de 2016.

No dia 30 de agosto de 2013, no final da tarde, Barack Obama passeava pelos jardins da Casa Branca junto com seu chefe de gabinete Denis McDonough, amigo e um dos colaboradores mais antigos do presidente. Os passeios contam na diplomacia: algum dia terá de ser feito um levantamento histórico das grandes decisões tomadas entre gramados e roseirais. Obama falava sobre a Síria, na qual estava a ponto de intervir, mas angustiado pela dúvida. Ele queria testar seu discernimento.

Dez dias antes, as forças de Bashar al-Assad haviam usado armas químicas contra um subúrbio de Damasco controlado pelos rebeldes. Pegos enquanto dormiam, 1.429 civis sírios foram dizimados com gás sarin. Washington não tinha dúvidas quanto à origem do ataque.

No verão de 2012, Obama havia estabelecido uma "linha vermelha": o uso de armas químicas mudaria a "equação" síria para os Estados Unidos. Eles não podiam permanecer na postura da não-intervenção militar direta decidida pela Casa Branca. Mas naquele 30 de agosto, após 45 minutos de passeio no parque, Obama voltou atrás, de repente. Mesmo sendo infringida a "linha vermelha", não haveria intervenção. Essa decisão viria a marcar sua presidência para sempre, e virá a ser lembrada como o símbolo, a "marca" de sua política externa.

Naquele 30 de agosto, Obama foi julgado para a posteridade, escreveu Jeffrey Goldberg para a edição de abril da revista mensal "The Atlantic". Para uns, o 44º presidente foi inepto, anunciando o fim dos Estados Unidos como superpotência indispensável. Para outros, Obama, inspirado, viu à sua frente o inferno no Oriente Médio e sabiamente se negou a saltar nas chamas. O presidente contou suas razões ao jornalista.

Ele se explicou, no decorrer de várias horas de entrevista das quais Goldberg tirou um artigo de 70 páginas. Foi um discurso em causa própria por parte de Obama, mas também um documento fascinante sobre sua visão de mundo e dos Estados Unidos dentro do mundo, no qual ele discorre sobre o trauma das desventuras bélicas dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque, sem fim nem vitória.

A ferida foi reaberta pela intervenção dos EUA, do Reino Unido e da França na Líbia, que desencadeada para proteger a população de Benghazi acabou se transformando em um exercício de mudança de regime à força em Trípoli. Ela criou um vazio abissal de poder e resultou em uma verdadeira "bagunça", nas palavras do presidente, explorada pelos jihadistas.

Para Obama, qualquer intervenção militar na Síria representaria o risco de uma escalada similar, algo que ele não queria. Na manhã daquele famigerado 30 de agosto, o secretário de Estado, John Kerry, repetia que a credibilidade do presidente estava em jogo, e a dos Estados Unidos também. Os aliados de Washington no mundo árabe, sobretudo em Riad, na Europa e em outros lugares não tinham dúvida disso. Às margens do Potomac, todo o "establishment" da política externa, republicana ou democrata, afirmava: Obama não podia não reagir.

Essa unanimidade vinha daquilo que Obama chama de "manual" de política externa em Washington, uma espécie de bíblia que todo presidente deveria seguir para manter a liderança nos Estados Unidos. Ele não acreditava nele e queria se libertar dessas regras fetichizadas. Essa história de "credibilidade" não o convencia de forma alguma: "Lançar bombas sobre alguém pode provar que você é capaz de lançar bombas, é a pior das razões para usar da força". Muitos de seus antecessores toleraram o uso de armas químicas no Oriente Médio.

A credibilidade junto aos "aliados". Mas que aliados? Obama condena esses regimes sunitas que querem embarcar os Estados Unidos em suas "guerras tribais", e vocifera contra essas monarquias que, como a Arábia Saudita, "wahhabizaram" o islamismo, semeando a praga do jihadismo em toda região, na África e na Ásia. Seria "do interesse dos Estados Unidos" estar em todos os assuntos "automaticamente" ao lado desses aliados?

"Apertei o botão de pausa"

Ele refuta o argumento de uma suposta fraqueza exposta, a sua, que teria incentivado Vladimir Putin a se apossar da Crimeia, afinal foi no mandato de George W. Bush, muito adepto do emprego da força, que Putin invadiu parte da Geórgia... Essa percepção de que "a credibilidade dos Estados Unidos continua em jogo", é o produto de um pensamento dominante estratégico do qual ele quis se "libertar".

"Apertei o botão de pausa para refletir. Quis recuar das pressões (...), foi uma decisão difícil de tomar" naquele 30 de agosto; "ela me custou politicamente, mas foi a decisão certa".

Por proposta russa e com apoio da ONU, o estoque de armas químicas sírio foi mais ou menos neutralizado. Mas e Assad? A administração democrata se enganou, ao anunciar em 2011 que sua queda seria rápida. Obama havia repreendido o ditador, afirmando que ele precisava sair. Questionado sobre o que ele havia feito para forçá-lo a sair, respondeu que se formulam uma condenação moral contra o regime, isso não os obriga a intervir nesse país para mudar seu governo, seria "absurdo".

Ele esperou a primavera de 2014 para começar a levar o Estado Islâmico a sério. Ele se descreve como um internacionalista e realista. Seria cinismo, já que ele observou com relativo fatalismo a imensa tragédia síria? Goldberg resume: Obama apostou que os EUA tinham mais a perder do que a ganhar intervindo nessa tragédia, sendo pessimista quanto a um Oriente Médio que é incapaz de sair de intermináveis guerras "tribais". Ele acredita que a liderança dos EUA depende mais da Ásia e da África, onde as pessoas estão mais ocupadas em construir um futuro do que se matarem.

Ele não se arrepende: no dia 30 de agosto, no jardim da Casa Branca, ele tomou "a decisão certa".

Fonte: Le Monde.

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