Ataques do Boko Haram sinalizam resistência do Estado Islâmico e seus filiados

"E ouvireis de guerras e de rumores de guerras;..." Mateus 24:6

29 de outubro de 2016.

 

O comboio militar estava cruzando um rio perto da fronteira, no mês passado, quando os soldados de repente perceberam que estavam cercados. Mais de 100 combatentes do Boko Haram, alguns deles montados a cavalo, cercaram os veículos, prontos para atacar.

Os 300 soldados de Níger e um punhado de forças das Operações Especiais dos Estados Unidos que os acompanhavam chamaram ajuda. Soldados do Chade correram para a área, e aviões de combate nigerinos passaram a sobrevoar, bombardeando os militantes, matando alguns e colocando outros em fuga. Dessa vez, pelo menos, o rápido trabalho internacional em equipe evitou aquela que poderia ter sido uma emboscada mortal pelos militantes.

Derrotar o Boko Haram foi a principal promessa de campanha do presidente da Nigéria, Muhammadu Buhari, o ex-general que assumiu a presidência há um ano e meio. De lá para cá, os militares nigerianos, auxiliados pelos países vizinhos, juntamente com treinamento por parte dos Estados Unidos, Reino Unido e França, têm conseguido enormes avanços.

Buhari tem alegado há meses que o Boko Haram foi derrotado, e neste mês revelou a libertação de 21 das quase 300 meninas sequestradas de uma escola pelo Boko Haram, há mais de dois anos.

Mas uma perturbadora nova série de ataques na Nigéria e em Níger, o país vizinho, incluindo um que matou dezenas de soldados, acentua como o Boko Haram está longe de ter sido eliminado. Com o fim da estação das chuvas e as estradas voltando a se tornar transitáveis, as autoridades estão se preparando para mais emboscadas como a que ocorreu durante a travessia do rio.

O Boko Haram jurou fidelidade ao Estado Islâmico e as autoridades ocidentais de inteligência acreditam que os recentes ataques foram realizados por uma ramificação do grupo que contou com a bênção do Estado Islâmico para se concentrar em alvos militares estratégicos e ocidentais.

Agora, o grupo está realizando ataques militares do tipo que vinha diminuindo nos últimos meses, devolvendo uma urgência mortífera ao conflito, no momento em que os militantes pareciam finalmente estar perdendo força.

A ramificação do grupo declarou sua intenção de concentrar seus ataques "longe dos civis sunitas locais e contra alvos militares e ocidentais", disse o comandante William J. Marks, um porta-voz da Agência de Inteligência da Defesa, em Washington.

A violência renovada oferece uma ideia do alcance do Estado Islâmico. Ao perder terreno no Iraque e na Síria, o grupo está contando com afiliados como essa facção do Boko Haram para manter seu espaço. Outros afiliados também estão tentando intensificar a luta, mesmo sob crescente pressão do Ocidente.

A facção da Líbia, por exemplo, recebeu um duro golpe em Sirte, mas muitos de seus combatentes simplesmente se espalharam pelo sul e outros lugares, onde as autoridades de contraterrorismo americanas temem que o grupo se reagrupará para lutar de novo.

Os recentes desdobramentos do Boko Haram ilustram a natureza muito adaptativa e resistente do Estado Islâmico, ou EI, e seus grupos afiliados.

"Tanto o EI quanto seus afiliados regionais estão sob crescente pressão e ambos os lados têm um incentivo ainda maior para aprofundar seus laços", disse Jennifer G. Cooke, diretora do programa para África do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington.

O Boko Haram tem assolado a Nigéria e outros países da região sub-Saara ao longo do Lago Chade, matando civis, sequestrando pessoas e tomando vilarejos inteiros. Em seu auge, o grupo atacou grandes alvos militares e até mesmo controlou grandes trechos do território.

Mas ao longo do último ano, quando o presidente da Nigéria lançou uma nova ofensiva militar contra o grupo, as operações do Boko Haram se tornaram menos organizadas e mais oportunistas.

Liderado por Abubakar Shekau, notório por seus discursos pelo YouTube com um fuzil Kalashnikov pendurado no peito, a estratégia de batalha do Boko Haram consistia com frequência no envio de homens, mulheres e crianças, com explosivos presos ao seus corpos, para mercados e mesquitas visando explodir os cidadãos comuns.

Evidência de um Boko Haram enfraquecido começou a surgir. Os combatentes recuaram para a floresta de Sambisa enquanto as forças nigerianas, auxiliadas por uma coalizão militar multinacional, ganhava força e cortava as linhas de suprimento do grupo.

Armas que estavam nas mãos do Boko Haram são recuperadas e transportadas por soldados do Chade na cidade de Damasak, no norte da Nigéria


Algumas das meninas recém-libertadas apresentaram relatos que demonstram o enfraquecimento do grupo. Quando as meninas foram levadas para a floresta por seus captores há mais de dois anos, os combatentes contavam com abundância de carros e motos, segundo Yakubu Nkeki, presidente do Movimento dos Pais pelo Resgate das Meninas Abduzidas de Chibok, que já passou algum tempo com as meninas. Agora, os combatentes não têm veículos e usam bicicletas e burros para circular, as meninas lhe disseram.

No início, os militantes abatiam rotineiramente vacas para banquetes. Eles tinham tanta comida, as meninas contaram para Nkeki, que às vezes usavam sacas de arroz para tapar buracos ou controlar a erosão.

Mais recentemente, os militares nigerianos relataram que os combatentes capturados estão magros de fome. As meninas recém-libertadas pareciam magras, com os ossos dos ombros saltando dos vestidos coloridos.

Por toda a região, correm relatos de divisões dentro do Boko Haram e deserções. Alguns combatentes até mesmo têm se entregado aos militares nigerianos, que oferecem anistia caso concordem em participar de um programa de "desradicalização". Algumas autoridades também acham que a libertação das meninas da Nigéria é um sinal de deserções no grupo de Shekau.

O maior sinal de problemas nas fileiras de Shekau ocorreu em agosto, quando a notícia do surgimento de um grupo dissidente foi anunciada no boletim online do Estado Islâmico.

O Boko Haram parecia estar se dividindo segundo linhas teológicas, com a nova facção rejeitando a morte aleatória de muçulmanos que ocorria sob a liderança de Shekau.  Em vez disso, o grupo dissidente prometeu se concentrar em alvos militares estratégicos e ocidentais.

Liderada por Abu Musab al-Barnawi, supostamente o filho do fundador do Boko Haram, a nova facção parece estar concentrada ao longo da fronteira norte da Nigéria e em Níger. Os novos ataques sugerem que a ramificação encontrou um novo terreno onde operar e um novo propósito, encorajado pelo endosso recebido do Estado Islâmico.

Em junho, a facção liderada por Barnawi atacou um posto militar em Bosso, Níger, matando 32 soldados e ferindo mais de 60 outros. Os militantes escaparam com armas e munição enquanto os soldados fugiam do posto.

Então neste mês, os combatentes tentaram uma fuga de presos em Níger, em uma instalação onde eram mantidos militantes do Boko Haram. As autoridades suspeitam que os perpetradores do ataque, que foi impedido, eram membros do Boko Haram, mas isso ainda não foi confirmado.

Combatentes, supostamente membros do Boko Haram, também invadiram duas instalações médicas em Níger neste mês, levando medicamentos e equipamento.

E, novamente neste mês, ao longo da fronteira Níger-Nigéria, soldados foram emboscados, deixando 13 feridos. Alguns ainda estão desaparecidos, segundo um comunicado de imprensa das Forças Armadas nigerianas.

Autoridades ocidentais de inteligência acreditam que os novos ataques estão energizando o esforço multinacional para combater o Boko Haram que, até agora, tinha apresentado um sucesso apenas relativo.

Uma Força-Tarefa Conjunta Multinacional composta de soldados da Nigéria, do Níger, do Chade e de Camarões tem lentamente feito avanços no compartilhamento de inteligência e lançamento de ataques conjuntos.

Durante a estação das chuvas, um grupo de soldados do Chade que avançava para o Lago Chade, perto de Bosso, Níger, ficou atolado nas estradas repletas de lama. Em vez de recuarem, os soldados montaram acampamento por semanas, para aguardar por tempo mais seco para que pudessem avançar.

Mas as operações contra o Boko Haram também sofreram reveses. O mais recente ocorreu há várias semanas, quando soldados nigerianos lançaram um ataque do outro lado da fronteira, que matou por engano vários soldados de Níger, segundo autoridades de inteligência ocidentais e operadores de segurança nigerinos.

Fonte: The New York Times.

voltar para Guerras

fwR fsN tsY show center|left tsN fwR|show fwR center|bnull||image-wrap|news login uppercase b01 bsd|fsN fwR uppercase b01 bsd|b01 c05 bsd|login news fwR uppercase b01 bsd|tsN fwR uppercase b01 bsd|fwR uppercase|content-inner||