Assumindo o papel de líder de fato na UE, a Alemanha expande seu Exército

"E ouvireis de guerras e de rumores de guerras;..." Mateus 24:6

10 de junho de 2016.

A ministra da Defesa da Alemanha, Ursula von der Leyen, posa com soldados de infantaria após exercício no vilarejo de Bad Reichenhall, no sul da Alemanha

Você sabe que os tempos mudaram quando os alemães anunciam que estão expandindo seu Exército pela primeira vez em 25 anos e ninguém reclama.

Na época em que o Muro de Berlim caiu, Reino Unido e França, particularmente, temeram o ressurgimento de um colosso alemão na Europa. Em contraste, a promessa feita por Berlim no mês passado de acrescentar quase 7.000 soldados a suas forças militares até 2023 e um anúncio anterior de gastar até 130 bilhões de euros (cerca de R$ 500 bilhões) em novos equipamentos até 2030 foram recebidos calorosamente por seus aliados na Otan.

Passaram-se décadas desde os horrores da Segunda Guerra Mundial, mas os aliados atuais de Berlim e, ao que parece, os próprios líderes alemães estão finalmente aceitando melhor a ideia de que o papel da Alemanha como líder de fato da União Europeia exige uma dimensão militar.

Talvez não seja cedo demais. Os EUA e outros --incluindo muitos especialistas em defesa da Alemanha-- querem que a Alemanha faça ainda mais pela segurança continental e amplie suas forças existentes no exterior.

O presidente Barack Obama manifestou frustração em uma entrevista este ano porque os aliados dos EUA na Europa e no golfo Pérsico estão agindo com demasiada frequência como "caronas".

Donald Trump, o suposto nomeado republicano para disputar a Presidência, foi ainda mais veemente em seus comentários, ameaçando sair completamente da Otan se for eleito.

Ao se aproximar a cúpula da Otan em Varsóvia, em julho, a Alemanha, a maior economia da Europa, hoje é chave para decidir como a aliança enfrentará os dois perigos que transformaram a situação estratégica na Europa: uma Rússia mais ameaçadora e a expansão do Estado Islâmico além de atos terroristas individuais, como execuções, à ocupação de extensas áreas de território.

Na Europa, onde os membros mais orientais da Otan, especialmente a Polônia e os países bálticos, solicitaram a mobilização permanente de tropas aliadas para conter a interferência da Rússia, a Alemanha parece decidida a assumir o comando de uma brigada na Lituânia, somando-se ao Reino Unido e aos EUA na liderança de um esforço para ter uma presença robusta nas fronteiras da Rússia.

Sob a chanceler Angela Merkel, Berlim também está atuando em programas da Otan para reunir recursos dos países membros com o fim de ampliar a segurança coletiva. Especialistas em defesa indicam como modelo a crescente cooperação Alemanha-Holanda.

O caminho para uma aparente defesa coletiva europeia está cheio de promessas não cumpridas de maior cooperação: por exemplo, a Brigada Franco-Alemã, de 25 anos, que permanece quase um tigre de papel, e a atual disputa antes da cúpula de Varsóvia para encontrar um quarto país para comandar uma unidade na nova mobilização da Otan no Leste Europeu. Reino Unido e França, duas potências nucleares, continuam definindo suas próprias prioridades.

Seja por conta própria ou com outros, entretanto, a Alemanha dá sinais de que está mais disposta a adotar um papel militar maior, uma mudança gradual mas clara do pacifismo instintivo que dominou a partir de 1945 e da tendência pós-Guerra Fria a reduzir as forças militares do país.

A mudança começou a ficar publicamente visível em 2014, quando o presidente alemão e os ministros da Defesa e das Relações Exteriores pediram um papel maior para o país na segurança global, na Conferência sobre Segurança de Munique, um encontro anual. Semanas depois, o presidente russo, Vladimir Putin, anexou a Crimeia da Ucrânia.

Desde então, a Alemanha respondeu ajudando a formar uma força de resposta rápida da Otan no Leste Europeu, liderando esforços diplomáticos na Ucrânia e treinando e armando milícias curdas que combatem o Estado Islâmico no Iraque e na Síria.

Agora, um novo documento estratégico do governo, o primeiro "Livro Branco" do gênero em dez anos, está sendo preparado e provavelmente reforçará o papel da Alemanha no cenário mundial --além de sua esfera tradicional de atividade na Europa-- e falará explicitamente em contribuição militar.

Até onde esse pensamento se expandiu além da elite política e militar é uma pergunta em aberto. Uma pesquisa mostra que "o público em geral não está muito à vontade com a dimensão militar", disse Sylke Tempel, editora da "International Policy", revista do Conselho Alemão sobre Relações Exteriores.

A elite política, por outro lado, sabe que "o pensamento estratégico inclui a ideia de que você precisa construir uma força para ser levado a sério, e que você tem de gastar nessa dimensão", disse Tempel.

A Alemanha não está se movendo rápido o suficiente para especialistas em defesa como Hans-Peter Bartels, o comissário parlamentar para Assuntos Militares, ou Karl-Heinz Kamp, o presidente da Academia Federal para Políticas de Segurança.

A Alemanha deve aumentar sua força militar "o mais rapidamente possível, ao máximo possível", disse Bartels, membro do Partido Social-Democrata, de centro-esquerda.

Apesar do anúncio da expansão, ele comentou que os gastos militares correm o risco de encolher para 1,08% do PIB alemão, o que, segundo disse, seria o menor nível histórico e muito inferior aos 2% que os membros da Otan se comprometeram a gastar na última cúpula da aliança em Gales, em 2014.

Kamp estava mais animado sobre os esforços da Alemanha e da Otan, especialmente os planos para enfrentar qualquer desafio russo nas fronteiras orientais da aliança.

"Estamos quase em presença permanente, quase", disse Kamp. "Há mais sendo decidido do que Putin jamais teria imaginado."

O principal perigo que ele vê para esses planos é "o fato de termos esses movimentos 'anti-establishment' dos dois lados do Atlântico --temos a Alternativa para a Alemanha, a Frente Nacional na França e temos Trump nos EUA."

Na política alemã, o cargo de ministro da Defesa foi tradicionalmente difícil. O emprego é prestigioso, mas cheio de dificuldades para obter verbas e equipamento moderno e adequado.

Nem o ministro da Defesa nem o chanceler é o comandante-em-chefe do Exército --outro legado dos esforços pós-nazistas para restringir a Alemanha. O controle do Exército cabe ao Parlamento, e qualquer despesa ou mobilização militar é submetida a sua aprovação.

Além disso, o declínio demográfico e a atração de bons empregos civis na robusta economia alemã tornaram difícil recrutar uma força só de voluntários.

Thomas Wiegold, um especialista em assuntos de defesa, comentou que a força das tropas regulares --cerca de 166 mil em abril-- já está aquém da meta atual de 170 mil e perguntou se a ministra da Defesa, Ursula von der Leyen, poderá atingir esse nível e manter sua promessa de mais soldados até 2023.

"A mensagem política é que depois de décadas de encolhimento queremos crescer", disse Wiegold. "Mas como isso se traduz na prática ninguém sabe ainda."

A ministra da Defesa tomou várias medidas --incluindo contratar um assessor sênior da consultoria empresarial McKinsey para examinar estruturas, ou simplesmente garantir maior contato entre os soldados no exterior e suas famílias na Alemanha-- para tornar as forças militares um melhor empregador.

Uma nova unidade de guerra cibernética é uma prioridade. A ministra da Defesa está tentando acabar com falhas e problemas nos equipamentos. No ano passado surgiu uma disputa com o fabricante de armamentos Heckler & Koch sobre a metralhadora G-36 padrão, que segundo o ministério nem sempre dispara direito.

Outra grande tarefa é convencer os alemães céticos, especialmente no leste do país, de que a Otan está mantendo seu acordo de 1997 com a Rússia de que tropas da aliança não ficarão estacionadas permanentemente na fronteira russa.

E assim, em outra medida de como as coisas mudaram na Europa, os ouvintes de uma emissora de Berlim, a rbb Inforadio, escutaram uma rara entrevista de manhã cedo em 19 de maio.

Na linha, falando da cidade portuária polonesa de Szczecin, estava o tenente-general Manfred Hofmann, um veterano de 42 anos do Exército alemão, que comanda um corpo que começou em 1999 como uma unidade alemã-dinamarquesa para ajudar a Polônia a se integrar à Otan, o que ocorreu naquela primavera.

O diálogo com Moscou não se fechou, disse ele, e a Otan está cumprindo seus compromissos de não estacionar em caráter permanente unidades de combate em antigos territórios do bloco soviético.

Mas o general notou que o comando do corpo hoje é uma unidade de 400 pessoas e 21 países, que supervisiona a rápida mobilização de unidades da Otan se necessário, e refletiu que desde a cúpula de 2014 em Gales "aconteceu uma quantidade incrível [de fatos]".

Fonte: The New York Times.

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