Após silêncio de 16 anos, Coreia do Norte ressuscita transmissões cifradas de espiões

"E ouvireis de guerras e de rumores de guerras;..." Mateus 24:6

22 de julho de 2016.

Quando a Rádio Pyongyang transmitiu recentemente uma misteriosa série de números aparentemente aleatórios de dentro da Coreia do Norte, eles soaram como uma chamada do passado para um ex-espião.

Kim Dong Sik, um ex-agente de inteligência para a Coreia do Norte, disse que costumava esperar para ouvir transmissões como essa todo dia à meia-noite, para verificar se o chefe da espionagem tinha alguma mensagem para ele.

"Quando cheguei ao Sul, tive cinco indicativos de chamada diferentes designados para mim", disse Kim, que hoje trabalha como analista sênior no Instituto de Estratégia Nacional de Segurança, um think tank administrado pelo Serviço de Inteligência Nacional do Sul. "Toda noite eu esperava atentamente para ouvir meus indicativos de chamada."

Os números codificados, transmitidos no mês passado, foram a primeira dessas mensagens codificadas em 16 anos, deixando funcionários da inteligência e analistas sul-coreanos intrigados quanto às motivações do Norte.

Uma locutora da Rádio Pyongyang voltou a transmitir uma série de números na última sexta-feira, lendo o que ela descreveu como "uma tarefa de revisão matemática para o agente investigativo número 27", envolvido em um programa de "aprendizado à distância".

"Vá para a Página 459. No 35; Página 913, No 55; Página 135, No 86", ela disse, citando números por 14 minutos.

Décadas atrás, era comum ouvintes de rádio na Coreia do Sul ouvirem durante a madrugada números misteriosos chegando em sinais cheios de estática vindos do Norte, um arrepiante lembrete da espionagem que acontecia por toda a península coreana dividida. O Sul tentava bloquear sinais como esses e impedir os cidadãos de ouvirem.

A Coreia do Norte havia parado de enviar tais mensagens codificadas a partir de rádio de ondas curtas depois que as duas Coreias realizaram uma cúpula histórica em 2000 e concordaram em desescalar a intriga entre elas da época da Guerra Fria.

Desde então, acredita-se que o Norte tenha adotado métodos mais sofisticados de comunicação. Quando o serviço de inteligência do Sul anunciou a captura de uma rede de espiões em 2011, disse que agentes contataram o Norte através de esteganografia, uma técnica para criptografar mensagens em textos, imagens ou vídeos enviados pela internet.

Alguns analistas disseram que a aparente reativação pelo Norte do que muitos acreditavam ser uma ferramenta de codificação do passado estava reacendendo antigos temores entre sul-coreanos, uma possível escalada na guerra psicológica.

Nas últimas semanas, a Coreia do Norte veio elevando as tensões a respeito de um plano dos Estados Unidos de empregar um avançado sistema de defesa contra mísseis no Sul. Esta semana, ela disparou três mísseis balísticos, dizendo que foram usados em testes simulados de detonação de ogivas nucleares sobre portos e campos de aviação no Sul, onde reforços americanos deveriam chegar caso estourasse uma guerra novamente na península.

Jeong Joon-hee, um porta-voz do governo da Coreia do Sul, considerou a volta das transmissões "realmente lamentável", mas se negou a comentar sobre possíveis motivações. "O Norte deveria abandonar seus velhos métodos", ele disse.

Nesta era da mídia digital e da internet, a Coreia do Sul também recorreu à propaganda à moda antiga nos últimos anos, voltando a usar alto-falantes e transmissões radiofônicas para o Norte e turbinando-as com música pop coreana eletrônica.

Kim disse que as transmissões deveriam ser levadas a sério. Segundo ele, o Norte parecia estar reforçando suas operações de espionagem desde 2009, quando criou o Escritório Geral de Reconhecimento fundindo diversas agências militares encarregadas de enviar espiões para o Sul. (Washington colocou a agência na lista negra depois que hackers norte-coreanos foram acusados de causar estragos na rede de computadores do estúdio de cinema da Sony em 2014.)

Em uma época em que autoridades de contrainteligência usam tecnologias sofisticadas para monitorar a comunicação digital de suspeitos de espionagem e que câmeras de TV de circuito-fechado observam cada cyber-café da Coreia do Sul, "as antigas transmissões numéricas ainda são um meio confiável e preferível de comunicação para espiões", diz Kim.

"Deveríamos presumir que o Norte está usando transmissões de rádio para se comunicar com seus agentes aqui ou pelo menos está usando-os para treinar espiões", ele acrescentou.

Ele se lembra de que quando recebeu treinamento nos anos 1980, passou incontáveis horas ouvindo a transmissões gravadas em fita e copiando os números para dominar uma suposta técnica de comunicação criptografada de emissoras de números.

Kim disse que ele e seus agentes em Pyongyang, a capital norte-coreana, usavam um livro pré-estipulado—um romance popular no Sul chamado "Whale Hunt" ("Caça às baleias")—para decifrar os códigos uns dos outros. Assim como na transmissão de sexta-feira, uma combinação típica de cinco dígitos começava com um número de página de três dígitos do livro. Os outros dois dígitos apontavam para dois caracteres coreanos no texto da página, ele disse.

Às vezes, quatro dígitos de cada conjunto de cinco dígitos, quando decifrados, resultavam em um único caractere coreano.

Muito tempo depois do fim da Guerra Fria, as duas Coreias ainda se acusam de espionagem. O Norte tem em seu poder pelo menos quatro sul-coreanos, alguns deles condenados a trabalho forçado perpétuo, acusados de espionagem.

Nos últimos anos, o serviço de inteligência do Sul prendeu pessoas consideradas espiãs por terem entrado no país disfarçadas de refugiadas. Na semana passada, promotores disseram ter prendido dois homens sul-coreanos na faixa dos 50 anos, acusados de espionarem para o Norte. Eles divulgaram um vídeo de circuito fechado mostrando agentes de contraespionagem dominando um suspeito em um ciber-café.

Os homens usaram e-mails criptografados para contatar agentes no Norte, segundo os promotores.

Kim disse que em sua época como espião, o rádio era uma das principais ferramentas de comunicação. "Se uma determinada música fosse transmitida pela Rádio Pyongyang em determinada hora pré-estipulada, significava que algo dera errado e que eu deveria abortar imediatamente minha missão", ele conta. "Se não, estava tudo certo."

Usando métodos similares, Kim conseguiu nos anos 1990 com que uma embarcação submergível norte-coreana saísse da costa oeste do Sul para acompanhar uma espiã de alto nível de volta para o Norte. Mas, cinco anos depois, ele foi pego durante outra missão no Sul.

Fonte: The New York Times.

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