Apesar do Brexit, Reino Unido permanece envolvido na defesa da Europa

"E ouvireis de guerras e de rumores de guerras;..." Mateus 24:6

19 de novembro de 2016.

 

Nem Donald Trump nem o Brexit ameaçam a coesão da Otan, segundo o ministro da Defesa britânico, Michael Fallon

O ministro da Defesa do Reino Unido falou sobre a eleição de Donald Trump, a Otan e a Europa ao "Le Monde", na terça-feira (15), após uma reunião com seus colegas europeus em Bruxelas e às vésperas do encontro anual do Conselho de Defesa franco-britânico em Paris com o ministro francês, Jean-Yves Le Drian.

Le Monde: O senhor diz estar confiante de que os Estados Unidos continuarão apoiando a segurança coletiva dentro da Otan. Mas como lidar com a incerteza, maior do que nunca, uma vez que Trump disse que os aliados deveriam pagar mais para obter a solidariedade americana?

Michael Fallon: É inevitável a incerteza no começo de uma nova Presidência. Questões similares foram levantadas quando Ronald Reagan ou Bill Clinton assumiram o poder. No início de cada uma dessas presidências, a aliança olha naturalmente para sua futura liderança, que é americana desde a Segunda Guerra Mundial.

Mas, na prática, cada um dos presidentes ao conduzir seu governo reafirmou seu comprometimento junto à aliança, independentemente do que tivessem dito durante a campanha. Eu não esperava que com o presidente Trump fosse diferente. E a crítica a respeito da divisão do fardo europeu não é algo novo! O presidente eleito Trump não é o primeiro a pedir para que a Europa aumente seus esforços em sua própria segurança.

Le Monde: A eleição de Donald Trump foi uma boa notícia para a Rússia?

Fallon: É o resultado que Vladimir Putin queria. E nós estamos lidando com uma Rússia de uma natureza diferente. Precisamos ficar muito atentos para que a Rússia não explore fraquezas ou divisões dentro da UE e da Otan. É por isso que a cooperação é tão importante entre essas duas organizações democráticas, especialmente no domínio da guerra híbrida, que associa conflitos convencionais com hostilidades irregulares, para responder à comunicação estratégica vinda de Moscou.

Le Monde: Quais devem ser as prioridades dos aliados?

Fallon: A primeira é colocar em prático aquilo que eles decidiram durante a cúpula da Otan no País de Gales dois anos atrás: deter o declínio dos gastos com defesa, e para aqueles cujo orçamento para a defesa não chega a 2% do PIB, trabalhar pensando em atingir esse objetivo. Eles também devem construir uma capacidade de reação rápida de suas forças. É o que está acontecendo.

Desde 2014, com a invasão da Crimeia e os distúrbios na Ucrânia, a aliança vem despertando. Ela precisa manter uma abordagem a 360 graus, que também vale para o combate ao Estado Islâmico.

Quanto à sua coesão, vimos sua importância com a pressão russa exercida em torno da Otan, no flanco nordeste, no Grande Norte, no Atlântico Norte com uma atividade russa submarina e aérea importante. Acabamos de ver o grupo aeronaval russo passar pela Mancha e pelo estreito de Gibraltar para ir ao Mediterrâneo Oriental, e agora mísseis estão sendo disparados a partir do mar Negro.

Le Monde: No contexto do Brexit, qual é o plano de ação do Reino Unido para a defesa?

Fallon: Vamos sair da UE, mas não do continente. A Europa é nosso continente tanto quanto o seu. E permanecemos envolvidos em sua defesa. Estamos colocando tropas na Estônia, na Polônia, aviões na Romênia. Enviaremos mais soldados da paz para o Kosovo no ano que vem. Não estamos nos retirando.

Le Monde: Como os planos da UE em matéria de defesa podem ser eficazes e não concorrentes com a Otan, como o senhor desejava?

Fallon: Nós chegamos a um acordo em Bruxelas, no dia 14 de novembro, sobre o plano estratégico de defesa apresentado pela alta representante Federica Mogherini. Nós adotamos medidas importantes para melhorar o planejamento das missões civis, humanitárias e a cooperação com a Otan nos domínios de interesse comum da guerra híbrida, das ameaças cibernéticas ou da segurança marítima.

Além disso, os europeus estão se conscientizando de que eles devem fazer mais para defender suas fronteiras. Então fizemos progressos. Esperamos que isso tenha efeitos concretos. Nós acreditamos em uma melhor complementaridade entre a UE e a Otan, sem duplicidade. Nós explicaremos esse programa ao presidente Trump na primavera, durante a próxima reunião da Otan. Nós lhe demonstraremos que a UE e a Otan são duas faces de uma mesma moeda para a segurança da Europa.

Le Monde: O que o senhor espera de sua relação de defesa com a França?

Fallon: Que ela fique mais próxima do que nunca. Nossa relação é a mais forte fora a que o Reino Unido tem com os Estados Unidos. Encontrei Jean-Yves Le Drian mais do que qualquer outro ministro da Defesa. Estou em Paris para anunciar avanços em nossa cooperação nascida do tratado de Lancaster House, sobretudo a instalação de novos centros de excelência sobre a tecnología de mísseis para racionalizar nossa pesquisa nesse domínio e aproximar nossas bases industriais. Trata-se de compartilhar os custos, enquanto se tem uma cooperação para novos mísseis.

Le Monde: Algumas pessoas na França estão preocupadas com uma queda no orçamento para a defesa britânica após o Brexit…

Fallon: Nós sempre conseguimos financiar ao mesmo tempo as forças convencionais e nucleares. Em outubro, batizei de Dreadnought o Trident, novo submarino nuclear que lança mísseis, e esse programa está financiado. Além disso, temos a garantia de que o orçamento continuará atingindo os 2% do PIB, e que ele vai aumentar em termos reais. Temos o suficiente para financiar novas ações militares, seja na Europa, no Iraque e na Síria ou na África.

Le Monde: A agenda política vai se complicar em 2017 com as eleições presidenciais [francesas]. Como manter uma relação de trabalho?

Fallon: O tratado de Lancaster, assim como foi com o acordo de Saint-Malo, sobreviveu aos diferentes governos no Reino Unido, bem como às mudanças entre os presidentes Sarkozy e Hollande. Ele vai além dos dirigentes individuais de cada país. Não haverá descanso.

Além disso, juntamente com Jean-Yves Le Drian, continuaremos conduzindo a coalizão contra o Estado Islâmico. A próxima reunião acontecerá em Londres em dezembro e, enquanto aguardamos a nomeação do próximo secretário americano da Defesa, estamos determinados a não perder o ímpeto nessa luta. As forças iraquianas fizeram progressos notáveis no leste de Mossul.

As operações começaram a isolar Raqqa, a praça forte da organização Estado Islâmico na Síria. Os progressos estão aí, não queremos perder tempo durante a transição nos Estados Unidos.

Le Monde: Que relação o senhor terá com a Alemanha?

Fallon: Acabamos de ter uma reunião trilateral, para examinar nossa cooperação na União Europeia e nossas operações contra o Estado Islâmico. No que diz respeito à relação bilateral entre o Reino Unido e a Alemanha, estamos passando para outro patamar. Estamos desenvolvendo uma cooperação nos programas de equipamentos, estamos trabalhando junto com a Alemanha no Iraque, onde ela tem contribuído de maneira importante no treinamento das forças locais, e estamos discutindo nossa cooperação na África. A Alemanha vem aumentando sua presença no Mali e estamos trabalhando duro junto com a Argélia.

Fonte: Le Monde

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