Aliados da Turquia alertam para sério risco de desestabilização

"E ouvireis de guerras e de rumores de guerras;..." Mateus 24:6

16 de julho de 2016.

Quando as primeiras imagens de soldados e tanques nas ruas da Turquia começaram a ser transmitidas em directo para todo o mundo, e uma tomada do poder se anunciava como um facto consumado no ecrã da televisão estatal, as contas oficiais do Twitter dos líderes internacionais, dos Estados Unidos, ao Irão, até à União Europeia começaram a reproduzir uma mesma mensagem de “extrema preocupação” com o possível desfecho da tentativa de golpe.

Em Bruxelas, Washington, Moscovo e Teerão a perspectiva do caos e vazio de poder em Ancara foi suficiente para fazer disparar os níveis de ansiedade. Se em nenhuma das capitais o desconforto com as posições erráticas e o crescente autoritarismo do Recep Tayyip Erdogan já era dificilmente disfarçável, a ideia de um motim nas fileiras daquele que é o segundo maior exército da NATO, e da deposição pelas armas de um Governo democraticamente eleito obrigaram a uma recalibração das críticas.

A Turquia, por força da sua posição geográfica, entre a Europa e o Médio Oriente, com fronteiras com o Irão, a Síria e o mar Mediterrâneo, é tocada por todas as crises do momento. o Governo tirou partido disso: assumiu um papel fundamental para a União Europeia, a quem ofereceu uma solução para atenuar o drama dos refugiados que procuram no território europeu um refúgio da pobreza, da fome e da guerra; disponibilizou aos Estados Unidos a sua base militar de Incirlik, a partir da qual a Força Aérea norte-americana está conduzir a sua campanha de bombardeamentos contra o Estado Islâmico na Síria e Iraque. O país alberga cerca de três milhões de refugiados, e também mais de 1500 soldados americanos.

“Neste momento, a cooperação da Turquia com os nossos esforços de contraterrorismo, as nossas obrigações no quadro da NATO e a nossa missão na Síria e contra o Estado Islâmico não foi afectada”, declarou o secretário de Estado norte-americano, John Kerry.

No Kremlin, nada é dado por adquirido. A Turquia acaba de resolver o seu diferendo com a Rússia, que está no campo oposto do tabuleiro da guerra da Síria – Moscovo pôs os seus caças ao serviço do Presidente Bashar al-Assad a pretexto de travar o avanço das forças jihadistas, e as tensões com Ancara atingiram um ponto depois do abate de um avião militar russo que alegadamente invadira o espaço aéreo da Turquia.

“O agravamento da situação política, no contexto das ameaças terroristas existentes no país e dos conflitos armados na região, representa um sério risco à estabilidade internacional”, observava o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Lavrov, este sábado. No Irão, outro aliado do Presidente sírio, a notícia de um golpe de Estado na Turquia motivou uma reunião de emergência do Supremo Conselho de Segurança Nacional e a mobilização de meios militares para a região da fronteira.

Em Bruxelas, a situação na Turquia estará na agenda da reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros, convocada na sequência do ataque de Nice para discutir o combate ao terrorismo. Agora, terão também de perceber em que medida os últimos acontecimentos em Istambul comprometem o muito controverso acordo que assinaram com o Governo de Ancara para o repatriamento de refugiados, e que pressupunha a liberalização das entradas dos cidadãos turcos no espaço europeu.

Segundo fontes comunitárias citadas pela Reuters, os passos seguintes de Erdogan poderão enfurecer ainda mais os deputados do Parlamento Europeu, que já se tinham manifestado contra o acordo. A possibilidade de recuperar a pena de morte para punir os golpistas poderá esvaziar toda a boa-vontade nas instituições europeias, e nesse caso mais do que o acordo migratório, o que fica em causa é a velha pretensão da Turquia de aderir à UE.

Fonte: Público.

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