A Otan se prepara para a Presidência Trump

"E ouvireis de guerras e de rumores de guerras;..." Mateus 24:6

18 de novembro de 2016.

 

Durante a campanha, Donald Trump proferiu sérias ameaças à Otan que poderiam alterar de forma significativa o equilíbrio de poderes na Europa caso sejam cumpridas. Temendo o pior, oficiais da aliança militar transatlântica até elaboraram cenários para sua possível Presidência.

Tudo havia sido planejado tão perfeitamente. A construção de uma nova sede da Otan perto do aeroporto de Bruxelas, uma estrutura de vidro e aço que abrigará a mais poderosa aliança militar do mundo no futuro, terá custado mais de 1 bilhão de euros (R$ 3,6 bilhões) quando for entregue no ano que vem.

Esse prédio gigante seria inaugurado oficialmente na próxima cúpula da Otan, na primavera de 2017, e o secretário-geral Jens Stoltenberg havia planejado oferecer uma calorosa recepção à nova presidente americana, Hillary Clinton. Pelo menos era assim que os oficiais da sede da Otan haviam planejado.

Qualquer outra coisa parecia impensável. Tão impensável que até mesmo os pronomes femininos em inglês "she" e "her" haviam penetrado na correspondência escrita interna para se referir à futura ocupante da Casa Branca.

Mas não haverá presidente mulher nenhuma. Em vez de Hillary, uma parceira confiável e velha conhecida em muitos círculos transatlânticos, é Donald Trump quem virá para Bruxelas, o mesmo homem que descreveu a aliança como "obsoleta" em sua campanha. Isso se ele vier.

Temendo que Trump sequer compareça à cúpula da Otan, que ocorrerá somente algumas semanas após sua posse, a aliança adiou o evento. Afinal, um encontro de líderes da Otan sem a presença do presidente americano seria um sinal de seu declínio. Agora os organizadores estão considerando uma data para o próximo verão, na esperança de que até lá Trump reconheça que os EUA também precisarão da Otan no futuro.

Há grandes dúvidas de que isso aconteça. A consternação pela eleição de Donald Trump como o próximo presidente dos EUA tem sido especialmente grande dentro da aliança de Bruxelas.

"Pela primeira vez," diz um oficial alemão da aliança, "está sendo considerada uma saída dos Estados Unidos da Otan, ou pelo menos uma ameaça para tal". Isso significaria o fim da aliança.

De fato, muitos dentro da Otan estão esperando o pior após a vitória de Trump nas eleições. O cenário de uma presidência Trump foi descrito com detalhes em um relatório secreto elaborado pela equipe do secretário-geral Stoltenberg. Nele, estrategistas examinam o que significaria se Trump cumprisse sua ameaça de se envolver menos na segurança da Europa no futuro e possivelmente retirasse uma parte das tropas americanas do continente.

"Como resultado da eleição de Donald Trump, estamos passando por um momento de incerteza extrema e sem precedentes na relação transatlântica", diz Wolfgang Ischinger, um ex-embaixador alemão em Washington e presidente da influente Conferência de Segurança de Munique.

Durante a campanha eleitoral, Trump havia questionado a pedra fundamental da Otan, que é o compromisso de defesa mútua que consta no Artigo 5. Os aliados de Washington na Otan só podem esperar apoio, ele disse, caso tenham "pago suas contas."

As preocupações crescem no Leste Europeu

O futuro presidente americano não vê a Otan como um escudo protetor mútuo da comunidade de valores ocidentais, mas sim como um pequeno grupo de países enfraquecidos que são incapazes de se defenderem sozinhos e, portanto, deveriam pagar por proteção aos EUA para que estes lhes forneçam segurança.

É por isso que Ischinger quer que o presidente eleito, se possível, "forneça a parceiros da Otan confirmação de que ele não questiona as obrigações eleitorais dos Estados Unidos, incluindo o Artigo 5", anteriores à sua posse.

As consequências seriam piores para os europeus do Leste, porque é o compromisso americano com a Otan que os protege de possíveis tentativas por parte da Rússia de retomar controle sobre o território que já esteve sob domínio soviético. Em um dos cenários considerados pelos estrategistas da Otan, Trump poderia retirar o compromisso de Washington em fornecer tropas americanas rotativas no Leste Europeu.

Sem esse sinal visível de apoio americano, o lado leste da Otan ficaria amplamente desprotegido contra uma agressão russa, um pesadelo para os europeus do Leste. Todo o futuro do sistema de defesa antimísseis da Otan planejado na Romênia e na Polônia também poderia estar ameaçado.

Os três países bálticos e a Polônia já estão preocupados com a possibilidade de Trump, que admira Putin, se aliar ao autocrata em Moscou em detrimento deles. Eles estão preocupados com a possibilidade de Trump, autor de "A Arte da Negociação", contorná-los e fechar um acordo diretamente com o Kremlin.

Trump por várias vezes deixou claro que sua política externa girará em torno de proteger os interesses americanos, e não de defender os valores ocidentais.

"Estou preocupado com o futuro", diz Ryszard Schnepf, ex-embaixador polonês para os Estados Unidos. Ele descreve Trump como um homem que ama o poder e é fascinado por Putin. "Ele poderia ter a ideia de ressuscitar um mundo bipolar, e nesse mundo somos meros peões."

Um novo Tratado de Yalta, no qual Washington e Moscou definiram suas respectivas esferas de influência, ameaçaria a independência dos aliados do Leste europeu. É muito importante não "repetirmos os erros do passado", alerta o ministro lituano das Relações Exteriores, Linas Linkevicius.

Os acordos com Moscou precisam ser baseados em valores, princípios e no direito internacional, ele explica, e não em interesses ou esferas de influência.

Se Trump está falando sério a respeito de reduzir o contingente americano na Europa, os grandes países da Otan como a Alemanha dificilmente estariam em posição de compensar as perdas. Eles não têm unidades o suficiente para substituir os americanos.

Figuras proeminentes na aliança suspeitam que isso na verdade poderia desencadear um debate a respeito da estratégia nuclear da Otan, uma questão que muitos governos europeus estão determinados a evitar por considerações políticas internas. Contudo, se as tropas convencionais não fornecerem mais a influência necessária, a opção nuclear automaticamente se imporia.

Pressão para aumentar as verbas

Em seu cenário mais favorável, os estrategistas da Otan presumiram que o novo presidente americano só insistiria estritamente que os europeus gastassem mais dinheiro em sua segurança. Afinal, durante a campanha Trump não deixou dúvidas de que ele pretendia mudar radicalmente a divisão do fardo dentro da aliança ocidental.

Um dos conselheiros mais próximos de Trump, o general Mike Flynn, ex-diretor da inteligência militar americana, disse ao "Der Spiegel" em uma entrevista em julho que, no que diz respeito a dinheiro, Trump não se importará muito com a harmonia cuidadosamente mantida na aliança.

"Precisamos ter essas alianças mais para a frente e ver quem vai pagar por elas", diz Flynn. Ele acrescenta que a "Otan como aliança política precisa ser revisada em todos os aspectos, (incluindo) de recursos e capacidades", assim que Trump assumir o cargo.

Na cúpula de 2014 da Otan realizada no País de Gales, os Estados-membros concordaram com uma meta de gasto de 2% de seu PIB nacional na defesa. Mas poucos países estão atingindo essa meta atualmente. A Alemanha, a segunda economia mais forte na aliança, juntamente com os Estados Unidos, gasta somente 1,19% de seu PIB com defesa.

Trump agora está ameaçando condicionar o compromisso de defesa mútua do Artigo 5 ao cumprimento dessa meta, ou até mesmo aumentar a porcentagem. Para a Alemanha, 2% já significariam um aumento expressivo no orçamento da defesa, de aproximadamente 34 bilhões de euros hoje para cerca de 65 bilhões de euros.

De todo modo, oficiais da Otan estão se preparando para demandas crescentes sobre os europeus. "A Europa não tem escolha: ela precisa fortalecer a coluna europeia na Otan", diz o especialista em política externa da UE Alexander Graf Lambsdorff, membro do Partido Livre Democrático, pró-mercado.

Pressionados pela atual administração americana, os europeus já concordaram em aumentar sua participação. Em Bruxelas, oficiais dos 28 Estados-membros ratificaram o ultrassecreto diretório da aliança, uma espécie de especificação de desempenho que estipula, até 2032, os números de tropas, aviões, navios, tanques e soldados que cada país deve fornecer para os postos de comando da aliança.

Para a Alemanha, o documento pede por um aumento de 1% em suas contribuições militares para a Otan, levando o total de contribuição de Berlim para 3% do PIB. Contudo, por mais viável que isso possa parecer, isso de fato significa que a Alemanha teria de aumentar substancialmente seus investimentos em defesa novamente. O orçamento atual de 130 bilhões de euros até 2030 seria baixo demais.

No momento, oficiais do Ministério de Defesa em Berlim temem que Trump vá cancelar esse acordo tão cuidadosamente negociado. "Ninguém sabe se o aumento de 1% será suficiente", diz um oficial alemão da Otan.

Muitos em Bruxelas e Berlim agora estão se agarrando à esperança de que Trump como presidente possa ser persuadido a abandonar parte das promessas que ele fez durante sua campanha. Os europeus terão de explicar para Trump por que a Otan é relevante, dizem oficiais em Berlim. Eles acreditam que a melhor abordagem é lembrá-lo de que ele prometeu devolver a grandeza aos Estados Unidos.

"Se Trump ignorar o fato de que ele não vai encontrar parceiros mais confiáveis do que os que estão na Europa, ele solapará o papel dos Estados Unidos como uma superpotência", alerta Ischinger.

*Atualização: Após seu primeiro encontro na semana passada com Donald Trump, o presidente Barack Obama disse que o presidente eleito havia "expressado um grande interesse em manter nossas relações estratégicas principais".

Obama, que esteve na Europa nesta semana, acrescentou: "Acho que essa é uma das mais importantes funções que posso desempenhar a essa altura, durante essa viagem, me certificar que não haja um enfraquecimento de determinação no que diz respeito ao compromisso dos Estados Unidos em manter uma relação forte e robusta com a Otan. E de que exista um reconhecimento de que essas alianças não são boas somente para a Europa, mas também para os Estados Unidos e vitais para o mundo."

Mas Obama também pressionou os parceiros europeus da Otan a aumentarem seus gastos com defesa. Durante uma parada na Grécia na terça-feira, ele elogiou o país por ser um dos cinco aliados da Otan que dedicaram pelo menos 2% de seu orçamento para a defesa, apesar dos tempos difíceis na economia, e disse que os outros também deveriam fazer isso.

Enquanto isso, o secretário-geral da Otan Stoltenberg afirmou na última terça-feira (15) que ele está "certo" de que Trump "honrará todos os compromissos dos Estados Unidos na aliança."

Fonte: DER SPIEGEL

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