A guerra fria entre Irã e Arábia Saudita está se aquecendo?

"E ouvireis de guerras e de rumores de guerras;..." Mateus 24:6

28 de julho de 2016.

Durante décadas de feroz rivalidade, o Irã e a Arábia Saudita apoiaram forças concorrentes em todo o Oriente Médio, mas geralmente mantiveram uma linha vermelha: um país não interferia diretamente na segurança interna do outro. Os políticos em Riad e Teerã sabiam que apoiar grupos militantes entre as minorias xiitas na Arábia Saudita ou sunitas no Irã poderia levar a uma escalada para a qual nenhum dos dois estava preparado.

Mas esse acordo tácito pode estar se desmanchando.

Embora não tenha sido apresentada nenhuma prova concreta, no mês passado o Irã renovou as afirmações de que a Arábia Saudita está apoiando grupos que trabalham para derrubar o governo de Teerã ou desestabilizar o país, em particular abrindo uma nova frente com os separatistas curdos. Os sauditas, por sua vez, dizem que o Irã está aumentando o apoio aos militantes xiitas.

Os dois países negam as acusações. Mas diante da ruptura total das relações diplomáticas desde janeiro, e em uma região cada vez mais volátil, não é difícil imaginar que essa tensão se transforme em algo muito mais perigoso: uma retaliação mútua pelos ataques realizados por grupos domésticos armados. O fato de os sunitas do Irã e os xiitas da Arábia Saudita terem sofrido períodos de prisões generalizadas e suas comunidades serem geralmente excluídas das oportunidades econômicas e políticas criou um terreno fértil para grupos militantes ávidos por apoio estrangeiro.

A Arábia Saudita há muito acusa o Irã de querer exportar sua ideologia revolucionária. Por isso, os sauditas tentaram dissolver as ligações entre sua comunidade xiita e Teerã. A execução em janeiro do xeque Nimr al Nimr, um proeminente religioso saudita que foi acusado de "buscar interferência estrangeira" e incitar à violência, foi motivada em parte pelo desejo de evitar que grupos xiitas recorram ao apoio iraniano. Semanas depois, a Arábia Saudita julgou 30 xiitas detidos em 2013 por espionagem para o Irã e provocação de divisões sectárias.

Na semana passada, o ministro das Relações Exteriores saudita, Adel al Jubeir, acusou o Irã de administrar e executar os ataques a bomba em 1996 à Khobar Tower e de abrigar altos líderes da Al Qaeda em 2003, quando eles ordenaram o atentado a condomínios residenciais em Riad. Autoridades sauditas também apontam os crescentes temores de que o Irã, juntamente com o Hizbollah al Hijaz, grupo de militantes xiitas sauditas, tenha recrutado e treinado separatistas.

De sua parte, o Irã se queixou de que desde a revolução de 1979 a Arábia Saudita tenta miná-lo. Os iranianos acusaram a Arábia Saudita de apoiar grupos separatistas, em particular os árabes étnicos conhecidos como ahwazis, na província do Kuzestão, rica em petróleo. No último mês, o Irã diz que a Arábia Saudita aumentou a aposta. Em particular, os iranianos apontam o dedo para Riad por operações realizadas por separatistas curdos.

Depois de quase duas décadas de uma trégua relativamente tranquila com as autoridades iranianas, neste verão a ala armada do Partido Democrático Curdo do Irã, um grupo rebelde, envolveu-se em escaramuças com a Guarda Islâmica Revolucionária do Irã. Forças iranianas também foram alvo de tiros do Pejak, uma filial iraniana do Partido dos Trabalhadores do Curdistão, da Turquia. E no início deste mês militantes emboscaram o carro de um legislador iraniano enquanto ele dirigia na região curda próxima ao Iraque.

Um general iraniano atribuiu esses ataques a "grupos terroristas" apoiados por "Estados reacionários", termo muitas vezes usado no Irã para descrever a Arábia Saudita. Mohsen Rezaei, um ex-comandante da Guarda Revolucionária e hoje importante membro do influente Conselho de Expediência, criticou publicamente a Arábia Saudita por apoiar "células terroristas" separatistas entre os curdos iranianos. Rezaei afirmou que teve acesso a evidências de que os rebeldes curdos estavam executando ordens de Riad depois de se reunir com autoridades sauditas em Erbil, no Iraque. O consulado saudita lá negou isso. O Partido Democrático Curdo do Irã rejeitou de modo semelhante as ligações com os sauditas, mas disse que apreciaria negociações com a Arábia Saudita no futuro.

As percepções do Irã sobre as conexões sauditas com fatos recentes foram instigadas pelo príncipe Turki bin Faisal, ex-chefe da inteligência saudita que fez declarações este mês que representaram um chamado à mudança de regime no Irã. Em 9 de julho, Turki falou no comício anual do Mujahedeen Khalq, um grupo dissidente iraniano exilado que o Irã designa como organização terrorista. Comandantes da Guarda Revolucionária e altas autoridades iranianas condenaram de forma unânime as declarações de Turki, e muitas delas afirmaram que elas provam que os sauditas estavam patrocinando a instabilidade recente no Irã.

Isto forneceu mais munição aos membros do círculo de segurança do Irã, que pedem maior reação militar ou política, seja no plano internacional, seja em termos de pressão interna na Arábia Saudita. Outras facções da liderança iraniana preferem um caminho mais paciente no rumo da desescalada.

O que pode ser feito nesta altura para impedir que as tensões fervam?

No mínimo, as autoridades sauditas devem evitar ações que façam parecer que tramam uma mudança de regime em Teerã. A Arábia Saudita tem de seguir cuidadosamente no desenvolvimento de relações com grupos armados curdos. A liderança iraniana deve evitar provocações à Arábia Saudita. Pelo bem comum, ambos os países devem fazer mais para cumprir as demandas legítimas de seus grupos minoritários que correm um risco crescente de radicalização. O Ocidente, enquanto isso, deveria usar sua aliança com a Arábia Saudita e a nova abertura com o Irã para advertir contra medidas que ameacem a segurança regional.

Os cidadãos do Oriente Médio procuram desesperadamente uma liderança que dê esperança às futuras gerações, em vez de mais convulsão. A Arábia Saudita e o Irã poderiam dar um passo nessa direção. Mas cada qual deve antes fazer mais para não interferir na segurança interna do outro.

*Ellie Geranmayeh é professora convidada de política no programa de Oriente Médio e norte da África do Conselho Europeu para Relações Exteriores.

Fonte: The New York Times.

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