Vítimas de furacão se amontoam em cavernas no Haiti

"...e grandes sinais do céu." Lucas 21:11

18 de outubro de 2016.

 

Quando a chuva chega à noite a essas montanhas distantes, as pessoas fogem das poucas casas que sobraram. Descem correndo dos morros cheios de pedras e ramos de palmeiras arrancados, a terra cor de ferrugem.

Elas chegam a uma caverna esculpida na encosta, o único santuário que restou depois da tempestade. Hoje, é um lugar sagrado, que salvou centenas de moradores no pior momento do furacão Matthew, quando a natureza derrubou totalmente suas casas. Ainda é a única coisa que os protege.

Durante quatro dias e noites, eles se abrigaram em seu interior antes de saírem assustados, temendo que o furacão voltasse. Dormiram sobre um piso de pedras arranjadas perto da entrada da caverna e acenderam pequenas fogueiras para se aquecer e iluminar.

Quando partiram, levaram o suficiente para se proteger do sol, algumas folhas de zinco corroídas e vigas de madeira espalhadas. Mas, quando chove, eles voltam à caverna, pois seus barracos não impedem a entrada da água. E, apesar do cheiro e da umidade, das lascas de pedra e da profunda escuridão, eles estão agradecidos.

Mulher cozinha à luz de velas em caverna localizada na cidade de Lacadonie

"É nossa casa que Deus criou quando mais precisamos", disse Destine Jean, um dos moradores da aldeia que primeiro avisou o governo da cidade mais próxima, Beaumont, sobre as pessoas que moravam em cavernas. "Sem esta caverna, muita gente teria morrido. Este é o único abrigo que temos."

Para grande parte do mundo, o Haiti é mais conhecido como uma crise do que como um país. O desastre, seja causado pelo homem ou natural, passou a definir o país, onde o progresso é, muitas vezes, um prelúdio para mais um passo atrás. Os ditadores, as autoridades corruptas e a interferência internacional concorreram com furacões e terremotos para desestabilizar o país.

Desta vez, os efeitos do furacão trazem uma lembrança terrível. Depois do terremoto de 2010, que arrasou a capital e seus arredores, a luta para tirar centenas de milhares de haitianos de acampamentos e colocá-las de volta em casas definiu a recuperação do país.

Agora, escolas e hospitais estão novamente lotados com desabrigados, pessoas cujas casas foram tão danificadas que é mais sensato abandoná-las do que ficar. Onde não há abrigo, os moradores se limitam a sobreviver e são obrigados a encontrar seu próprio caminho, mesmo em cavernas.

 
Quando chove, moradores da região de Lacadonie correm para se abrigar em cavernas
 

As autoridades de Beaumont dizem que há pelo menos seis cavernas que elas conhecem como esta, abrigando ao todo 550 pessoas que vivem entre as montanhas cor de musgo no sudoeste do país. Foi somente quando líderes como Jean desceram gradualmente para buscar ajuda que as autoridades perceberam que havia pessoas vivendo em cavernas.

O prefeito de Beaumont, Alexis Faveur, balançou a cabeça, desanimado, ao descrever os danos causados pelo furacão neste mês e as circunstâncias deploráveis que ele provocou.

Faveur envia trabalhadores a intervalos de alguns dias para verificar as aldeias, fazendo-os subir os morros durante várias horas, carregando sacos de arroz, feijão, macarrão e óleo de cozinha. Mas não havia espaço para mais sobreviventes em Beaumont. Os abrigos já estão lotados.

"O único lugar onde eles podem buscar abrigo é esta caverna", disse ele, sentado diante de sua mesa no gabinete, com as janelas estouradas e sem eletricidade. "Não sobraram casas lá." A aldeia de Lacadonie representa os piores efeitos desse furacão.

 
Mulher usa laranjas para encobrir mau cheiro de carne rançosa, o que sobrou após o furacão Matthew
 

Famílias procuram restos das colheitas que a chuva poupou e bananas e feijões que não foram arrancados nas encostas dos morros. Uma mulher cozinha carne de bode rançosa para seus filhos, lavando a carne escura com laranja azeda para disfarçar o mau cheiro. As famílias lamentam seus mortos em rituais noturnos, despedindo-se deles sem uma contagem em um registro formal.

Os moradores começaram o trabalho duro de reconstrução, encaixando os pedaços partidos de suas casas e suas vidas sem a menor autopiedade. A maioria calcula que levarão anos para que consigam restaurar suas residências, mesmo ao estado humilde que tinham antes. Por enquanto, eles se resignarão a acomodações muito mais modestas.

A primeira casa a ser reconstruída depois da tempestade pertencia a L'Anise Nazaire, dona da terra onde fica a caverna. Se Deus salvou as pessoas com a caverna, dizem os moradores, Nazaire foi sua mensageira.

Uma mulher esguia de 55 anos, cuja timidez esconde coragem, Nazaire arriscou a vida implorando que as pessoas fugissem, delegando a tarefa de salvar sua própria mãe a vizinhos para que ela pudesse subir a montanha correndo para avisar os outros. Ela os conduziu até a caverna e a catedral de estalagmites em sua base, onde feixes de luz se projetam de uma abertura acima. Muitos se arriscaram na descida íngreme para sentir a luz do sol durante sua estada.

"Depois de Deus, ela nos deu a vida", disse Celor Montuna, 54, uma agricultora esquelética, sobre Nazaire. "Ela veio nos salvar."

Durante o furacão, eles observaram pela entrada da caverna enquanto o vento e a chuva semeavam destruição, carregando árvores inteiras pela entrada como se fossem folhas na brisa. "Pensei que Jesus estivesse chegando", disse Nazaire, fazendo uma pausa antes de ter um acesso de riso.

Apesar de toda a gratidão, ela não quer levar glórias. A segunda fase da sobrevivência não deixa tempo para comemorar a vitória. Em sua nova casa, um quebra-cabeça de tábuas aproveitadas, folhas de palmeira e telhados resgatados, todos estão ocupados. "Minha vida seria inútil sem os outros", disse ela. "Sem eles, eu mesma estaria morta."

 
Família trabalha para limpar e salvar o que restou em sua casa
 

No terreno limpo onde vive sua família, sua mãe, Elaide Fracile, batia os feijões secos de um emaranhado de vagens colhidas às pressas dos campos devastados.

Sua bisneta brincava em seu colo enquanto ela verificava a comida restante, catando os feijões mais pelo tato que pela visão. Seus olhos são azuis-esbranquiçados por causa da catarata, sua pele é luminosa e macia. Ela diz que tem 100 anos.

É velha o suficiente para se lembrar da última vez que um furacão como o Matthew perturbou a vida, e só pode registrar a repetição da história. "Eu tinha um bebê de 15 dias quando o furacão Hazel chegou", em 1954, disse ela, entregando um pequeno feijão preto à criança. "Aqui estou eu de novo com este."

A criança, abandonada pela mãe, agora pertence a ela, disse Fracile. Elas estavam juntas, no mesmo lugar, quando o Matthew atingiu o lugar. Seu filho a carregou nas costas até a caverna. "Eu sobrevivi a quatro tempestades", disse ela. "Mas nenhuma matou tanta gente como esta."

Ela olhou com orgulho para sua filha, Nazaire. "Teria sido pior sem a caverna", disse. "Deus não nos abandonou."

Homens debulham espigas de milho secas para alimentar a família
 

Os vizinhos vieram ajudar os outros, dividindo o alimento e recursos --o valor de uma comunidade unida onde os desaparecidos são citados pelo nome.

Uma semana depois do furacão, um criador de cabras, Jean Robert, cujos animais estão mortos, apodrecendo sob o sol, distribuiu a carne que restou. Lithome Saint-Mesyeux, pai de seis crianças, conseguiu um pernil enegrecido para sua família.

Ele levou a carne para sua mulher, que a preparou no quintal de sua casa destruída enquanto o sol descia sobre as montanhas. O odor fétido se espalhou pela aldeia, uma essência pútrida da morte detectável em todos os recantos da região.

O trabalho intenso de evitar a fome ocupou a família de Saint-Mesyeux. Pai e filho retiraram os grãos de milho de suas cascas marrons, jogando os sabugos brancos para um porco faminto que sobreviveu à tempestade.

Aldeões sobem montanha com materiais para reconstruir suas casas após o furacão
 

Laranjas encontradas no chão foram espremidas sobre a carne. Crianças afastavam outras ainda menores das chamas de uma fogueira. Uma panela de feijão foi colocada entre duas pedras para cozinhar para todos. Um galo cantou, enquanto uma densa neblina baixava sobre as montanhas.

"Nosso país desabou", murmurou um menino, Wilkens Desrosiers, que veio procurar comida. "Não podemos ir à escola e levaremos anos para reconstruir nossas casas como eram antes."

Mais vizinhos chegaram, cada um ajudando à sua maneira, arrumando a comida em pilhas ou buscando água no rio na base da montanha. A caverna não saía de sua cabeça. "Até que possamos reconstruir nossas casas para suportar a chuva, voltaremos quando houver tempestades", disse ele.

Os mortos foram homenageados em ausência. Desrosiers citou seis pelo nome, sua morte registrada apenas na mente dos sobreviventes.

Em todas as montanhas, a morte era marcada em rituais íntimos, realizados nos vales e em locais distantes, longe do olhar de estranhos. Perto da meia-noite, a quilômetros da aldeia, canções dolorosas eram ouvidas no escuro, ao ritmo de tambores feitos de baldes e pratos de lata.

A música enchia os morros, erguendo-se em um coro assustador, a fonte visível por uma única vela acesa no quarto do falecido. As palavras transmitiam uma dor simples, mistura de força e perda. "Somos pobres, mas somos fortes", cantavam. "Não viveremos de joelhos."

Os homens sentavam-se em um círculo pequeno, filhos de um agricultor que morreu na tempestade. Conduzidos pelo irmão mais velho, eles cantariam durante oito dias, tendo chegado da capital naquela manhã para enterrar o pai, Miradieu Alexis.

Eles passaram o dia reconstruindo o que puderam da casa, hoje um barraco solitário na noite sem sombras. Enquanto dançavam e cantavam, o cheiro de folhas esmagadas e rum azedo enchiam o ar, um ritual tão anônimo quanto a morte que ele venera.

Fonte: The New York Times.

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