Seca da Índia tem selfies de políticos e suicídios de pequenos agricultores

"...e grandes sinais do céu." Lucas 21:11

19 de junho de 2016.

 

O governo da Índia dá pouca atenção ao apuro dos pobres do campo. 

Quando Rutuja, 2 anos, virou por brincadeira uma garrafa, derramando água no chão de barro da cabana da família, sua mãe, Nageshwari Rathore, soltou um grito, avançando como se fosse dar um tapa na criança. Mas Rathore se conteve, baixando a cabeça entre as mãos. "Você acabou com ela", ela sussurrou.

A perda foi dolorosa para a mulher de 25 anos. Naquela manhã de junho, ela ficou na fila sob calor forte por mais de uma hora para conseguir cinco litros de água. Um caminhão-pipa do governo passa uma vez por dia no campo abandonado onde ela vive agora. 

Localizado em Ghatkopar, um subúrbio de Mumbai, o local agora funciona como um campo de ajuda humanitária para 350 famílias que deixaram suas aldeias na zona rural de Maharashtra devido à seca, a pior em 100 anos. Porcos selvagens passam pelo esgoto a céu aberto que corre ao lado da cabana de lona dos Rathore. Quando chegarem as monções, possivelmente nos próximos dias, elas inundarão o campo e forçarão as famílias a sair. 

Mais de 330 milhões de indianos, cerca de um quarto da população do país, estão sendo afetados pela seca. Neste Estado do oeste, onde mais da metade da população depende da economia rural, os efeitos são severos. Uma média de cerca de nove agricultores por dia cometeu suicídio no ano passado, principalmente por causa de dívidas ligadas à perda das plantações. 

Os indianos rurais estão ficando para trás, enquanto os indianos urbanos desfrutam de prosperidade sem precedente. E as tragédias que atingem os pobres beneficiam os mais ricos. Forçados a migrar para as cidades, os agricultores deslocados têm pouca opção a não ser se juntar à enorme força de trabalho desorganizada que serve à classe média urbana como trabalhadores domésticos ou de construção. 

As árvores do lado de fora do campo em Ghatkopar estavam repletas de faixas políticas, sugerindo que o campo foi criação de um governo benevolente. Na verdade, políticos precisam ser forçados a visitar, segundo Abhishek Bharadwaj, um ativista de direitos dos desabrigados. Foi apenas depois que a mídia noticiou as péssimas condições de vida no campo que Kirit Somaiya, um membro do Parlamento estadual, veio para distribuir dinheiro e grãos. Somaiya então carregou um vídeo um YouTube descrevendo o campo como dispondo de abundância de alimentos e suprimentos. 

Shau Chavan, que está vivendo no campo há dois meses, disse que a ajuda do governo aumentou. Nos anos anteriores, uma máfia local cobrava 1.000 rupias por mês (cerca de R$ 51, ou aproximadamente 2,5 dias de salário diário dos migrantes) por um pedaço de terra de menos de 4 metros quadrados. Chavan disse que os agricultores estão vivendo sem pagamento de aluguel, muito provavelmente em consequência da intervenção do governo. 

Se isso é o que passa por ajuda oficial no Estado mais rico da grande economia que mais cresce no mundo, então o governo da Índia carece de vontade política, não de recursos. A seca deste ano é extrema, mas clima severo é uma ocorrência regular na Índia. As autoridades tiveram tempo para se preparar. 

As medidas de ajuda humanitária do governo estadual parecem boas no papel, me disse Abhishek Waghmare, um analista de políticas do site de dados IndiaSpend. O Estado despejou dinheiro no Jalyukt Shivar Abhiyaan, um programa de conservação de água para "tornar Maharashtra um Estado livre de secas até 2019". Mas as aldeias visitadas por Waghmare nos últimos quatro anos ainda carecem de sistemas de coleta de água das chuvas. Os esforços do governo para rejuvenescer rios e lagos dormentes são ineficazes. Ano após ano, disse Waghmare, a água é perdida. 

O fracasso do governo deriva do desprezo institucional pelos pobres. Quase 70% dos indianos vivem em áreas rurais, mas o governo não parece vê-los como essenciais para a marcha da Índia para a modernização. O número crescente de suicídios sugere que o desespero dos agricultores não repercute junto aos políticos. 

Mesmo após oito Estados terem declarado seca no ano passado, o governo em Nova Déli não aumentou o apoio aos dois programas criados para salvar vidas: o Esquema Nacional Mahatma Gandhi de Garantia de Emprego Rural, que promete a cada lar 100 dias de emprego remunerado por ano, e o Sistema Público de Distribuição, que fornece grãos e combustível subsidiados para os necessitados. 

O investimento do governo no programa de emprego vem diminuindo desde 2014, o ano em que o Partido Bharatiya Janata chegou ao poder, e menos empregos foram criados do que antes. Devido à corrupção no programa de alimentos, as rações destinadas aos pobres com frequência são vendidas no mercado negro. 

Atenuar os efeitos de uma seca não exige muito investimento. Os moradores da aldeia de Hiware Bazar, no distrito de Ahmednagar de Maharashtra, não precisaram de assistência oficial para a seca em mais de duas décadas. Eles proibiram a abertura de poços, para impedir uma queda ainda maior do lençol freático, e agora cultivam hortifrútis em vez de bananas e cana-de-açúcar, que consomem muita água. Se o governo tivesse demonstrado uma iniciativa semelhante, o Estado não estaria na atual situação difícil. 

Em maio, a Suprema Corte repreendeu vários governos estaduais por seu comportamento como de "avestruz", exigindo a criação de um fundo nacional para atenuação de desastres em um prazo de três meses. Mas ainda não aconteceu nada, disse um importante consultor do tribunal ao jornal "The Indian Express" nesta semana. 

A negligência do governo só se equipara à postura frívola das autoridades. 

Em 15 de abril, Eknath Khadse, o ministro da receita de Maharashtra na época, visitou o distrito de Latur atingido pela seca. A crise da água era tão severa que um trem especial foi designado para levar água à área. Mas Khadse foi de helicóptero, apesar de o acesso de Mumbai a Latur ser fácil, o que exigiu a construção de um heliponto temporário, que consumiu 10 mil litros de água. 

No dia seguinte, a ministra da conservação da água, Pankaja Munde, apareceu e tuitou fotos de si mesma sorrindo em frente a um leito de rio seco. 

As "selfies da seca", como passaram a ser conhecidas, provocaram ampla condenação. Elas registraram a reação geral dos políticos da Índia a este desastre. Sem empatia e senso de responsabilidade, nossos líderes veem até mesmo crises graves apenas pelo prisma de seu próprio privilégio. 

(Sonia Faleiro é autora de "Beautiful Thing: Inside the Secret World of Bombay's Dance Bars", ou "Coisa bela: Dentro do mundo secreto dos bares de dança de Bombaim", em tradução livre e não lançado no Brasil, e membro fundadora da cooperativa global de jornalismo Deca.)

Fonte: The New York Times.

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