No Sudão do Sul, uma temporada de fome interminável deixa milhões de pessoas em perigo

“...e haverá fomes,” Mateus 24:7

04 de junho de 2018.

 

A temporada de fome chegou cedo neste ano.

Em fevereiro, que antes era considerado tempo de fartura, Nyabolli Chok tinha ficado sem comida para os três filhos em sua aldeia aqui no Sudão do Sul. Ela entendeu que tinham de ir embora.

"Estávamos comendo folhas das árvores", disse ela, contando que as fervia em uma sopa aguada.

"Ron reath", disse ela - as palavras que usa para essa temporada. As dezenas de grupos étnicos do Sudão do Sul usam nomes diferentes para os meses em que o alimento se torna escasso até a colheita seguinte. Mas os temores são os mesmos: desnutrição, doença e até a morte.

E acredita-se que este ano será o pior de todos.

Mais de quatro anos de guerra civil - a maior parte da existência deste jovem país - expulsaram milhões de pessoas de casa, deixando inúmeras fazendas abandonadas. A economia foi arrasada. A luta dominou parte das terras mais produtivas do país. Os preços dos alimentos estão extremamente altos.

Mesmo durante a época da colheita, em janeiro, quando a comida era mais abundante, mais de 5 milhões de pessoas - quase a metade da população - não tinham o suficiente para comer. Agora, conforme o alimento se esgotar, nos próximos meses, as autoridades internacionais preveem que o número crescerá consideravelmente, com milhões enfrentando potencialmente a desnutrição aguda.

A colheita deste ano foi a menor registrada desde que o Sudão do Sul se tornou independente do Sudão, em 2011. O país produziu apenas uma fração do que necessita, segundo o Programa Mundial de Alimentos da ONU.

Além disso, as negociações de paz pararam e os acordos de cessar-fogo foram amplamente ignorados, o que significa que a luta isolou algumas áreas da ajuda de emergência. Trabalhadores de ajuda foram atacados por combatentes do governo e por rebeldes, tornando a distribuição de alimentos cada vez mais difícil.

Mesmo aqui na capital, que havia estado geralmente imune às crises alimentares, muitas famílias estão achando impossível pagar os altos preços praticados nos mercados, e suas opções diminuem enquanto a moeda despenca.

Famílias de todo o país se amontoam em uma clínica para crianças desnutridas, esquecendo as divisões políticas e étnicas que dilaceraram este novo país. Algumas mães vêm de áreas que apoiam o governo. Outras têm maridos, irmãos e filhos lutando com os rebeldes.

Dezenas de mulheres estão deitadas no chão do lado de fora, com seus filhos enrolados em cobertores. Os sinais de desnutrição são claros: ventres inchados e membros finos. A pele se pendura em dobras dos ossos mirrados. Os corpos cobertos de feridas, o resultado doloroso do edema que rasga a pele.

Cecilia Kideen luta para alimentar sua filha de 9 meses, Sarah. Seu leite não é suficiente, pois ela mal come uma refeição por dia.

"As mães estão realmente sofrendo", disse ela.

O Sudão do Sul, o país mais novo do mundo, nasceu de um enorme movimento internacional para encerrar décadas de conflito entre o norte e o sul do antigo Sudão. Mas apenas dois anos depois o novo país estava em guerra. Em dezembro de 2013, uma disputa entre forças leais ao presidente Salva Kiir e ao vice-presidente Riek  Machar rapidamente se transformou em um conflito que fraturou o país, matou dezenas de milhares de pessoas e dizimou o que já era um dos países menos desenvolvidos do mundo.

"Há poucas populações que escapam aos impactos da fome", disse Elizabeth White, assessora de políticas sobre o Sudão na organização beneficente Oxfam. "Mas todos os caminhos levam de volta ao conflito e à insegurança."

Negociações entre líderes do governo e da oposição foram adiadas. Mas mesmo que a paz seja alcançada a crise de fome permanecerá.

Agricultura nas linhas de frente

A guerra civil no Sudão do Sul provocou a maior crise de refugiados na África desde o genocídio em Ruanda, segundo a ONU. Mais de 2 milhões de pessoas fugiram do país, paralisando a produção de alimentos. Outras quase duas milhões abandonaram suas casas e continuam espalhadas pelo país, deixando para trás cidades fantasmas e campos sem cultivo.

Dois anos atrás, a guerra do Sudão do Sul se expandiu para partes do sul que há muito eram consideradas o celeiro do país. As pessoas fugiram em enxurrada para Uganda. A maioria ainda não retornou.

Quando as forças de paz da ONU visitaram as áreas no início de 2017, viram aldeias inteiras queimadas.

US$ 321 por um prato de feijão

Sob o sol forte da manhã na capital, Elizabeth Kenyi e seu marido, Johnson Ali, colhiam legumes de sua horta ao longo do Nilo Branco, um afluente do Nilo.

Há duas décadas eles vendiam quiabo, pimentões e tomates num mercado próximo. Mas mesmo com uma boa colheita neste ano eles estão achando mais difícil que nunca alimentar a família de sete pessoas.

"O dinheiro que consegui da horta é inútil", disse Ali.

Enquanto seus produtos alcançam um preço maior que no ano passado, os preços dos cereais que eles compram, como milho e sorgo, estão subindo depressa.

A moeda do Sudão do Sul está em queda livre e a hiperinflação espremeu virtualmente a todos. Antes da guerra, US$ 1 valia cerca de 5 libras sudanesas do sul. Em março, US$ 1 valia cerca de 220 libras.

O impacto foi devastador. Um relatório do Programa Mundial de Alimentos de 2017 determinou que o preço relativo de uma refeição no Sudão do Sul era um dos mais altos do mundo.

Ele revelou que as pessoas aqui geralmente precisam gastar 155% de sua renda diária para comprar um único prato de feijão cozido. Colocando de outro modo, uma refeição que em Nova York custaria apenas US$ 1,20 em Juba custaria o equivalente a US$ 321,70.

Ajuda que não chega

Com a agricultura em frangalhos, a ajuda de emergência mantém viva uma parcela crescente do país.

No início de 2018, a metade da população do Sudão do Sul contava com ajuda alimentar, segundo a ONU, e a porcentagem crescerá conforme a temporada de penúria atingir o pico nas próximas semanas.

Mas distribuir essa ajuda é inteiramente outra questão. A temporada de chuvas ocorre nesses meses magros, também, transformando muitas estradas em rios de lama intrafegáveis.

Além disso, pelo menos cem trabalhadores humanitários foram mortos aqui desde o início do conflito, 30 deles só no último ano, visados por partes em guerra que acham que as iniciativas ajudam seus inimigos.

Mesmo nos campos protegidos montados no país pela ONU, não há comida suficiente para todos.

Tafisa Nyattie, 30, que vive em um acampamento aqui desde 2013, tem seis filhos. Sua ração alimentar costuma acabar, por isso ela deixa o campo diariamente para recolher lenha, esperando ganhar dinheiro suficiente para leite e sabão para lavar as roupas dos filhos.

Ela caminha até três horas em cada direção, enfrentando ameaças das forças do governo, antes de voltar com um grande feixe de lenha sobre a cabeça.

"Eles estupram ou agridem, e às vezes matam", disse Nyattie, lembrando os riscos bem conhecidos que as mulheres enfrentam no conflito. "Alguns soldados do governo tentaram me violentar."

Noutro dia ela foi espancada e sua perna ficou muito ferida. Mas quando viu como seus filhos estavam famintos decidiu que não tinha opção além de ir lá fora de novo.

"Você simplesmente vai, sem saber se vai voltar para seus filhos", explicou Nyattie.

Fonte: The New York Times

 

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